A repetição do milagre interpretado por Anísio no último jogo do Benfica, marcando ao primeiro toque, sublinha a emergência da vaga seixalista campeã mundial, que se assume nos séniores com a mesma vertigem com que ganhou no Catar. José Mourinho fez questão de dizer logo à chegada que havia talento a nascer das pedras na academia benfiquista.
Coerentemente, tem valorizado a juventude caseira e vai introduzindo-a como pode nos trabalhos da primeira equipa, tornando-a sustento e alternativa directa a contrariedades de toda a ordem, com a plena consciência que o Terceiro Anel aprova. Os miúdos agradecem e retribuem. Quantos benfiquistas estiveram no título mundial? Nove. Quantos foram titulares? Cinco. E quantos já Mourinho fez estrear com a águia ao peito? Seis, mas nem todos da tal geração sub-17. E às incidências do pré e pós-jogo, dando a experimentar o banco de suplentes, mais cinco. Há muita vida para lá dos milhões e das comissões, surgindo a natural dúvida quanto à necessidade dos valores gastos.
Quando Anísio desbloqueou a vitória sobre o Alverca, a Luz veio abaixo. Como tantas vezes no passado, a significância dum golo do Seixal é extrapolada. A histeria é diferente. O campeonato ganho pelo Benfica com Bruno Lage, em 2018-19, é muitas vezes notado pela base ‘Seixaleira’, determinante naquela reviravolta, mais até que pela acutilância ofensiva. À época, aprovava-se unanimemente na aposta sem medos na geração campeã europeia sub-17 e sub-19, os rapazes nascidos em 1999: Félix, Gedson, Florentino e Jota; mas não só, que Rúben Dias e Ferro, ambos de 1997, compunham o eixo defensivo; e Yuri Ribeiro e Zlobin começavam a ser alternativas directas aos titulares.
Mourinho assume-se disponível para surfar a onda. A experiência dá-lhe razão e permissão. Por isso, responsável e pragmático como sempre foi, sabe a importância da gestão de expectativas. Na conferência de imprensa de rescaldo, a primeira pergunta focou naturalmente no ponta de lança de 17 anos, dando a José Mourinho a oportunidade de calibrar ímpetos histéricos.


«Calma, trabalho. Vamos geri-lo bem, como estamos a fazer com os outros que subiram à equipa principal. Continuar a trabalhar com humildade».
Com Mourinho, foram seis os estreantes saídos do Benfica Campus – além de Anísio, José Neto e Banjaqui, também Tiago Freitas, Ivan Lima e Rodrigo Rêgo tiveram os respectivos minutos. Ao banco, já foram Gonçalo Moreira – por quem Mourinho disse à chegada ter um ‘fraquinho’, traduzindo-se isso em apenas… uma convocação –, ou Kevin Pinto, além dos keepers Arnas Voitinovicius, Diogo Ferreira ou Leonardo Lopes. Estes prémios inserem-se na dinâmica dum calendário preenchido, distribuído pelas quatro equipas – Juniores, sub23, B e AA – possibilitando competição regular a todos.
«Faremos a gestão dele» continuou Mourinho, referindo-se a Anísio. «Como fizemos esta semana com o Banjaqui e José Neto, que precisavam de quatro dias de repouso, até mentalmente. O Anísio tem idade para jogar Youth League, onde queremos pelo menos chegar à final, e ele voltará a jogar a Youth League».
Quase uma década depois, exige-se – com toda a razão – em larga percentagem da massa adepta que se faça o mesmo. Que se sustente o capital humano com recurso ao Benfica Campus. O título, de dimensão acima, pressiona os responsáveis encarnados e obriga-os, palavra certa, a medidas drásticas de conservação de talento. A aposta imediata em Anísio, Banjaqui e José Neto, integrando-os nos trabalhos dos AA sem sequer terem passado pela equipa B, sem temor por uma provável precipitação, leva a um natural receio, dada a recente política de entreposto comercial: que os miúdos não sejam vistos mais que lucro, sem qualquer proveito desportivo assinalável.


Aos que já tiveram oportunidade, faltam juntar-se casos gritantes, titulares na final do Catar, como Mauro Furtado ou Rafael Quintas, este capitão da selecção, que vão esperando pacientemente pela sua oportunidade, contribuindo com o seu talento para os júniores Sub23. Chegarão a passar pela equipa B ou as necessidades da primeira equipa obrigarão a um salto de patamar?
Mourinho, a caminho de Turim para o jogo que precedeu a qualificação europeia, já deu a resposta:
«Quando olhei para trás no avião, pensei que era treinador da equipa B, porque estão connosco 8 jogadores da equipa B e isso significa também as nossas dificuldades com tantas lesões que temos. Mas isto é Benfica. Os jogadores do Benfica sabem o que é ser jogador de equipa grande e com menos ou mais qualidade, com menos ou mais experiência, quem veste a camisola do Benfica sabe que tem de dar a cara».

