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Esta manhã, no sobrelotado metropolitano de Lisboa, as conversas centravam-se, quase exclusivamente, no clássico de mais logo; era assim onde eu estava, mas também, como mais tarde pude confirmar, nos locais de trabalho ou de lazer um pouco por todo o país. Naquela carruagem, os dois homens que conversavam sob a minha atenção dissimulada não discutiam que equipas utilizar, nem sequer qual seria o vencedor do jogo, mas apenas e só qual a diferença que o marcador assinalaria (a favor do SL Benfica) depois de disputados os 90 minutos; a conclusão foi, no mínimo, curiosa: “seria engraçado se fossem meia dúzia”. Na altura, ao ouvi-los, recordei outros momentos de excesso de confiança – o futebol (tal como a vida) já nos ensinou, a todos nós, que nada nos é oferecido assim, de mão beijada, e que é preciso respeitar o adversário do princípio ao fim. Sobretudo se o rival se chama FC Porto e o seu orgulho se encontra ferido.

O Benfica perdeu e, apesar de se poder queixar, essencialmente, de si próprio – depois de um festival de golos falhados e da incompreensível incapacidade para travar as transacções ofensivas do adversário – é justo referir que o FC Porto realizou, esta noite, a sua melhor exibição deste ano e, muito provavelmente, do campeonato. Os dragões foram competentes em (quase) todos os momentos, na defesa e no ataque, com destaque para Iker Casillas, que provou, finalmente, no nosso país, pertencer ao lote dos grandes nomes da história do futebol mundial. A luta pelo título continua em aberto e, na verdade, agora com três envolvidos. Ontem à noite, na Luz, o FC Porto fê-lo por merecer.

A receita utilizada pelas duas equipas não surpreendeu. Por um lado, o Benfica, com mais posse de bola, um jogo apoiado numa circulação envolvente, de trás para a frente, capaz de criar desequilíbrios e inúmeras situações de concretização em superioridade numérica na frente de ataque; por outro, o FC Porto, defendendo à zona, apoiando-se num miolo combativo capaz de potenciar a velocidade dos homens da frente, em rápidas transacções ofensivas, com lançamentos para as costas das laterais contrárias. O destaque dos “onzes” vai, essencialmente, para as apostas em Lindelof, do lado dos visitados, e no nigeriano Chidozie, no lado dos visitantes; os dois “centrais” cumpriram os seus papéis, sentindo, todavia, algumas dificuldades em vários momentos da partida.

O Benfica entrou confiante e personalizado, à imagem das jornadas anteriores, onde somou um notável registo de invencibilidade. Com o “Inferno” a apoiar, parecia que, mais cedo ou mais tarde, se chegaria a uma conclusão satisfatória. Pizzi, bem cedo, deixou o aviso, mas foi aos 18 minutos, fechando um período de superioridade territorial, que o estádio “explodiu” pela primeira (e única) vez: num lance de insistência, Renato Sanches – o melhor dos encarnados – ganhou na raça e serviu Mitroglu, que, só com Casillas pela frente, não perdoou.

O golo de Mitroglu deu vantagem ao Glorioso; o pior veio depois
O golo de Mitroglu deu vantagem ao Glorioso; o pior veio depois

 

Pensou-se que o Benfica poderia partir para uma noite tranquila, confirmando o favoritismo que lhe era atribuído. A “febre” do golo, porém, afectou toda a equipa, que, estranhamente, nos dez minutos que se seguiram, não mais conseguiu pegar no jogo, permitindo ao opositor controlar o esférico e, sobretudo, empurrar a linha intermédia encarnada para junto da sua defesa. O FC Porto, até então inofensivo, teve a oportunidade para se chegar junto da baliza de Júlio César e, aos 28 minutos, sem surpresa, Herrera teve tempo e espaço para, à entrada da área, desferir um remate à flor da relva (molhada), bem junto à base do poste do guardião brasileiro, que, apesar do esforço, nada pôde fazer para evitar o empate.

Ao contrário do que se poderia esperar, este golo fez bem à equipa do Benfica, que, rapidamente, recuperou o seu registo. Comprovando as suas qualidades técnicas, individuais e colectivas, os encarnados foram em busca de repor a vantagem e, até ao intervalo, apenas uma desusada ineficácia ofensiva permitiu que o placard não sofresse alterações. Foi uma mão cheia de oportunidades flagrantes que Jonas (34’), Mitroglu (37’) e Samaris (43’) – e até Corona (39’), naquilo que seria um notável auto-golo –, não tiveram arte ou engenho para concretizar, levando ao desespero os 65 mil presentes nas bancadas e os muitos milhões espalhados pelos quatro cantos do mundo. Ao intervalo, o FC Porto podia agradecer o empate a Iker Casillas e, sejamos justos, à dose de sorte que o destino lhes reservou.

Balde de água gelada

A segunda parte acabou por se revelar uma grande desilusão. O Benfica não mais conseguiu superar o desperdício e, gradualmente, foi-se notando a quebra anímica – e rapidamente física – que afectou todo grupo, preso pelas correntes da desinspiração e do azar. Na etapa complementar, o FC Porto foi melhor, perante umas águias já menos esclarecidas, mal posicionadas e desajeitadas no capítulo do passe e do remate. Contra a corrente, Gaitán, aos 52 minutos, num contra-ataque na sequência de um canto favorável ao FC Porto, quase marcou – nova intervenção de Iker Casillas –, mas, na verdade, eram os dragões que, nesta fase, chegavam com mais perigo junto da baliza contrária. Pela ala esquerda, Brahimi e Aboubakar foram ensaiando, uma e outra vez, a jogada que, aos 65 minutos, resolveu a contenda.

Com o coração – apoiados num notável apoio do público –, o Benfica tentou salvar pelo menos um ponto, no entanto, a equipa, em desvantagem, revelou demasiada ansiedade na hora de pensar o jogo ofensivo, resolvendo mal, quase sem excepções, as situações de que dispôs. A melhor oportunidade do Benfica para chegar à igualdade chegou dos pés de Bruno Martins Indi (67’), que, num remate fulminante contra a sua própria baliza, quase recolocava as coisas como no início; o lance proporcionou a defesa da partida, acabando apenas por confirmar Iker Casillas como o melhor em campo.

O "Inferno" da Luz apoiou a equipa do princípio ao fim
O “Inferno” da Luz apoiou a equipa do princípio ao fim

O Benfica voltou a fraquejar diante de um adversário do “seu” campeonato. Apesar de estar tudo em aberto, a verdade é que as contas ficam agora bem mais complicadas na corrida ao título. Faltam 11 jogos para o final e, neste momento, não há margem para errar. Em desvantagem no confronto directo com o FC Porto (e, claro, com o Sporting), o Benfica terá de vencer, praticamente, todos os seus jogos até ao fim, caso queira regressar ao Marquês e festejar o tão ansiado tricampeonato. Não é impossível – como ficou provado bem recentemente –, mas é preciso atentar no que hoje correu menos bem, corrigindo, rapidamente, algumas situações que, certamente, serão melhor detalhadas nos dias que se seguem. Se é verdade que os campeonatos se ganham contra os “pequenos”, não me recordo de nenhum campeão que tenha perdido todos os seus jogos contra os adversários directos – é preciso vencer em Alvalade!

A Figura:

Iker Casillas realizou a melhor exibição desde que chegou ao Dragão. O guarda-redes espanhol provou deter ainda as qualidades que o fizeram atingir o patamar de lenda de um colosso como o Real Madrid. Finalmente, os adeptos podem enviar um agradecimento a Julen Lopetegui.

O Fora-de-Jogo:

Rui Vitória falhou a toda a linha. Demorou a corrigir posições, permitindo que a equipa se enredasse na estratégia montada por José Peseiro. A meio da segunda parte, em desvantagem, a equipa já não dependia do colectivo. As substituições não resolveram os problemas – no meio, agravaram-nos – e a decisão de fazer entrar um Salvio sem ritmo, para um jogo desta importância, parece-me, no mínimo, caricata.

Imagens: SL Benfica

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