A CRÓNICA: ÁGUIA DOMINA E VENCE COM NATURALIDADE

Respondendo em campo à provocação do FK Spartak Moscovo nas redes sociais, o SL Benfica mostrou‑se de saída da gaiola logo na primeira mão da terceira pré-eliminatória da Liga dos Campeões. As águias traziam da Rússia uma vantagem de 2-0 que lhe dava conforto para o segundo desafio.

No entanto, qualquer ave de rapina deixada de asas abertas ao pairar do vento sobrevive cruelmente, menosprezando a honra da presa e novo 2-0 aplicado nesta segunda mão ao Spartak, no Estádio da Luz, foi o suficiente para manter a águia guarnecida e deixá-la continuar a voar até ao play-off.

Frente ao Moreirense, Jorge Jesus resguardara ao esforço de 90 minutos algumas das principais figuras do Benfica. É assim na vida, é assim no futebol: um passo mal dado hoje pode ter repercussões no amanhã.

Assim, o treinador dos encarnados preservou a frescura física de alguns jogadores, deixando clara a importância que dá à luta pela entrada na fase de grupos da Liga dos Campeões. Para este jogo frente ao Spartak, recuperou a tropa de elite, para quem a missão dada foi missão cumprida. Jogadores como Grimaldo, João Mário, Weigl, Rafa e Pizzi voltaram a ser balas apontadas às trincheiras inimigas. No lado do Spartak, Lomovitskiy e Ponce foram as grandes novidades.

Anúncio Publicitário

Rui Vitória, antigo treinador do Benfica, recebeu tímidos aplausos antes do jogo e igualmente acanhada foi a entrada da equipa russa.

A equipa da casa entrou no jogo afirmativa, controlou a posse de bola e não deixou os moscovitas ousarem desenvolver uma jogada com pés e cabeça que pudesse gerar um golo que fizesse abanar a eliminatória.

Numa das muitas investidas que as águias foram fazendo, Pizzi tentou visar a baliza na ressaca de um remate que ele próprio tinha desferido e, com a colaboração das pernas da defesa, quase estreava o marcador.

Foi esta a melhor hipótese da primeira parte, para o marcador mexer. De resto, o caudal ofensivo que ia encantando os cerca de 20 mil espetadores não se traduziu propriamente em ocasiões claras de golo para os encarnados. No entanto, o Spartak, que era quem precisava de correr atrás dos erros cometidos na Rússia, só perturbou com remates inofensivos de fora de área.

O início da segunda parte confirmou o que a primeira vinha mostrando. Devo confessar, quando viajo de comboio, lanço o olhar pela janela e vejo uma paisagem. Noutro dia, faço a mesma viagem, mas sento-me no corredor oposto, a olhar para outra janela e, consequentemente, a paisagem muda tanto que parece que o trajeto não é o mesmo da primeira vez.

A minha experiência de viagem reflete aquilo que o Benfica sente com João Mário. A forma como se orienta quando recebe a bola fá-lo ver coisas que indicam rotas diferentes de chegada ao golo, com uma qualidade de passe e receção de quem estudou para ser cirurgião, mas acabou a usar o bisturi nos campos de futebol. Ainda assim, João Mário não precisou de mostrar nada a ninguém, ele próprio se encarregou do que até à hora de jogo não tinha sido feito, o golo.

Já com o 1-0 no bolso (3-0 na eliminatória), Jorge Jesus lançou Yaremchuk. Em ritmo de gestão, Everton ainda podia ter ampliado o desgosto do Spartak, mas atirou por cima. O Benfica seguiu no controlo das operações e não pôs em risco, em circunstância alguma, a vantagem. Aliás, ainda foi a tempo de fazer o segundo, com Gigot, central francês do Spartak a colocar a bola na própria baliza.

Rui Vitória é o segundo treinador que Jorge Jesus mais vezes defrontou. Entre mindgames e Ferraris, jogaram, a contar com o encontro de hoje, 23 vezes um contra o outro, e Jesus somou 15 vitórias, quatro empates e quatro derrotas.

Fazer glu glu glu pode não ser notícia, mas avançar para o play-off da Liga dos Campeões certamente que o é. Na próxima fase da prova, o Benfica vai encontrar os holandeses do PSV Eindhoven. O Spartak somou a quarta derrota em cinco jogos sob o comando técnico de Rui Vitória e caiu para a Liga Europa.

A FIGURA

João Mário – Weigl joga de retrovisores e controla tudo o que se passa à sua volta, João Mário joga de pantufas e mete técnica em tudo o que faz. Nunca pensei que partes de um carro e elementos do inventário do meu quarto ficassem tão bem num meio-campo. Que bem jogam estes dois lado a lado no Benfica. O golo pesou na hora de escolher João Mário como o elemento de maior destaque no jogo.

O FORA DE JOGO

Roman Zobnin – as exigências táticas que Rui Vitória deixa ao seu encargo exigem mais do internacional russo, que esteve no Euro 2020. Nem o conforto de ter Umyarov nas suas costas o soltou para que pudesse ser o fio condutor do jogo do Spartak, bem como também não conseguiu chegar ao último terço em apoio ao processo ofensivo.

 

ANÁLISE TÁTICA – SL BENFICA

Se da primeira vez surpreendeu, ao terceiro jogo oficial consecutivo a jogar da mesma forma, o espanto já não é tão grande. O Benfica quer amadurecer o 3-4-3 e a prova disso é que voltou a utilizar esse sistema.

Diogo Gonçalves e Grimaldo deram largura e muita profundidade à direita e à esquerda, respetivamente, compondo, no momento defensivo, uma linha de cinco junto de Lucas Veríssimo, Otamendi e Vertonghen. A dupla de médios contou com Weigl e João Mário, que conferiram à equipa segurança com bola e controlo dos ritmos do jogo. Na frente, tal como quase tinha prometido Jorge Jesus, Gonçalo Ramos apresentou-se como o homem mais adiantado, apoiado por Pizzi e Rafa nas faixas.

A equipa foi constantemente rigorosa na pressão que realizou à tentativa de saída baixa do Spartak. Deste modo, assumiu referências individuais para anular, à partida, os ataques dos visitantes. Na frente, não faltou mobilidade para ludibriar a defesa contrária.

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

Odysseas Vlachodimos (6)

Diogo Gonçalves (7)

Lucas Veríssimo (6)

Nicolás Otamendi (7)

Jan Vertonghen (6)

Álex Grimaldo (7)

Julian Weigl (8)

João Mário (8)

Rafa Silva (7)

Pizzi (6)

Gonçalo Ramos (6)

SUBS UTILIZADOS

Morato (6)

Everton (6)

Roman Yaremchuk (6)

Gilberto (5)

Adel Taarabt (-)

ANÁLISE TÁTICA – FK SPARTAK MOSCOVO

No jogo do Campeonato Russo, em que acabou derrotado por 2-1 diante do Nizhny Novgorod, o Spartak Moscovo apresentou, na fase final da partida, um sistema de 3‑4‑3 com que a equipa se deu bastante bem. Perante o 3-4-3 do Benfica, poderia fazer sentido nova aposta nessa fórmula. Ainda assim, Rui Vitória voltou a utilizar o 4-2-3-1.

O Spartak alinhou com uma linha defensiva de quatro elementos, constituída por Rasskazov, Gigot, Dzhikiya e Ayrton. Ao contrário do que costuma ser habitual, ambos os laterais, Rasskazov, pela direita, e Ayrton, pela esquerda, projetaram-se equilibradamente. Em circunstâncias normais, o brasileiro costuma ser quem mais sobe no terreno. No meio-campo, Umyarov foi o jogador mais recuado e com maior responsabilidade ao nível da construção.

Zobnin foi mais um elemento envolvido no processo ofensivo, fazendo, por vezes, o sistema confundir-se com um 4-3-3. Como criativo destacado, Larsson. Sem poder contar com a verticalidade de Victor Moses e Quincy Promes, apareceram descaídos nas alas Lomovitskiy e Bakaev na direita e na esquerda, respetivamente. A opção para referência ofensiva recaiu sobre Ponce que lateralizou muitas vezes a posição para fugir à marcação cerrada dos três centrais do Benfica.

Para tentar trancar a baliza, defendendo a largura com rigor, o que normalmente é um problema para esta equipa, o Spartak fez baixar os seus extremos no acompanhamento aos laterais benfiquistas, formando, em certos momentos, uma linha de seis atrás. O recuo de alguns homens que podiam ajudar a equipa no ataque reduziu muito o pendor ofensivo dos comandados de Rui Vitória.

11 INICIAL E PONTUAÇÕES

Aleks Maksimenko (6)

Nikolai Rasskazov (5)

Samuel Gigot (7)

Georgiy Dzhikiya (7)

Ayrton Lucas (5)

Nail Umyarov (5)

Roman Zobnin (5)

Jordan Larsson (5)

Roman Bakaev (6)

Aleks Lomovitskiy (5)

Ezequiel Ponce (6)

SUBS UTILIZADOS

Alex Král (5)

Reziuan Mirzov (5)

Mikhail Ignatov (-)

Aleksandr Sobolev (-)

 

BnR NA CONFERÊNCIA DE IMPRENSA

FK Spartak Moscovo

BnR: O Spartak acabou por baixar simultaneamente os extremos no acompanhamento aos laterais do Benfica, formando, por vezes, uma linha de seis elementos atrás para controlar melhor a largura (que vinha sendo uma dificuldade da equipa). Assim, os extremos estavam longe do local onde poderiam causar perigo ao Benfica. Sente que ao resolver um problema acabou por criar outro?

Rui Vitória:

Isso, às vezes, pode acontecer. Não queríamos ter essa linha de seis, queríamos ter uma linha, normalmente de cinco, com um dos alas a baixar mais e o outro ala a estar um bocadinho mais projetado. Era nesse momento em que baixávamos com uma linha de cinco que o outro ala tinha que estar um pouco mais projetado e quando ganhássemos a bola de um lado, ela tinha que sair para o lado oposto para atacarmos em contra-ataque. Não o conseguimos fazer.

Tínhamos dois jogadores alvo, o Ponce e o Larsson, para podermos ligar por dentro, para depois atacarmos pelo lado contrário. É evidente que o Benfica nos coloca esses problemas, porque projetou bem os seus laterais.

Queríamos ser agressivos nessa primeira saída de bola e atacarmos os três defesas e criarmos instabilidade. Essa ligação que é feita quando ganhamos o primeiro passe e o direcionamos para onde queremos para agredir o adversário era fundamental, e não o conseguimos fazer.

Às vezes, quando queres tapar de um lado, destapa-se do outro. Fundamental era também sermos uma equipa coesa não só para este jogo, mas para sentirmos a equipa ligada, com entreajuda e compacta como base para os próximos jogos.

SL Benfica

Não foi possível colocar questões ao treinador do Benfica, Jorge Jesus.

Artigo revisto por Joana Mendes

DEIXE UM COMENTÁRIO

Comente!
Por favor introduz o teu nome