Como explicar tão terrível semana para o universo benfiquista? Assim de rompante, num período de quatro dias, três figuras da história do SL Benfica despedem-se rumo ao Quarto Anel, provocando saudade eterna naqueles que com eles tiveram oportunidade única de conviver, ou naqueles que apenas apreciaram, a cada fim de semana, o seu talento de águia ao peito.

Vasiliy Kulkov, há mais de um ano a travar intensa batalha oncológica, viu-se inesperadamente diante de outro monstro chamado Covid-19. O homem que sempre demonstrou frieza ilimitada bateu-se corajosamente, mas a bagagem acumulada de uma vida recheada de prazeres foram peso insuportável.

Chegou a Lisboa em 1991, famoso para lá da cortina de ferro, à conta do destaque num Spartak europeu. Enquanto líbero, assumiu-se no gigante moscovita e ajudou-o a chegar às meias-finais da Liga dos Campões – numa edição onde só caíriam aos pés do futuro campeão, o Olympique de Marseille do inveterado Tapie, depois de eliminar o Real Madrid CF.

Eriksson apreciava as suas qualidades e fê-lo chegar ao Benfica, juntamente com o enfant terrible Sergey Yuran, craque do Dínamo de Kiev. Na Luz, seriam sempre figuras problemáticas, já que, habituados à rigidez soviética, viam no clima temperado português e na nossa lendária hospitalidade motivos para dispersar atenções além dos assuntos da bola.

Vasiliy, porém, marcou o seu nome na cultura encarnada com uma das suas melhores características – nunca se amendrontava e, como tal, era figura nos jogos grandes – o que lhe possibilitou marcar em Londres, no 3-1 ao Arsenal FC, ou no ainda mais memorável 4-4 de Leverkusen, onde fez dois golos de belo efeito.

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Pêndulo que equilibrava a ânsia ofensiva de uma máquina futebolística composta por Rui Costa, Isaías, João Vieira Pinto e Vítor Paneira, o russo deixou muitas saudades na Luz – apesar de, após três temporadas, se ter mudado para a Invicta.

«Adorei jogar no SL Benfica e no FC Porto. São dois grandes clubes, não consigo dizer se um é melhor do que o outro. Fui bem tratado por toda a gente. Se calhar eu é que não tratei bem todos», dizia em 2011, por ocasião das meias-finais portuguesas da Liga Europa. Exposto fica o carinho que pelo nosso país teve e, sobretudo, a mea culpa por todos os casos de indisciplina fora de campo. Assuntos que, por agora, pouco interessam.

Pouco depois, abalou Ângelo Martins – um dos nossos imortais, bicampeão europeu de clubes, com 14 épocas como jogador profissional e muitas mais outras como elemento da staff técnico, onde se destacou como impressionante formador de talentos.

Das suas mãos saíram Humberto Coelho, João Alves, Jordão, Néne, Shéu, Vítor Martins ou Chalana: delapidador de diamantes de primeira categoria, o mais alto mandatário dos valores à Benfica de rectidão, frontalidade e competência, dele ficou famoso o feitio díficil. O mesmo feitio que lhe permitia, na mocidade, encarar os transeuntes junto ao estabelecimento do seu pai, na Travessa das Antas, que o desafiavam a envergar a camisola do FC Porto. «Sou do Benfica!», dizia então, orgulhosamente, com cara feia.

Esse desejo eterno cumpriu-se aos 20 anos, quando os responsáveis lisboetas conseguiram levá-lo para lá do Mondego depois de complicações burocráticas. Das suas conquistas e números muito se falou por estes dias e seria exercício fútil voltar a enumerar, ponto por ponto, a enormidade de pinceladas que deixou na nossa história.

É-me mais fácil eternizar a sua memória com uma das suas famosas rábulas – e a que melhor define o seu carácter valente, talvez. Amesterdão, 2 de Maio de 1962. O Benfica acaba de derrotar o Real Madrid de Di Stéfano por 5-3, e o estádio inunda-se com uma multidão em delírio à procura de Eusébio, Coluna e companhia.

Ângelo deixou-se apanhar já nas escadas para as cabines e empurrão para cá, para lá, e queda aparatosa com direito a perda dos sentidos. Grande sorte: à espreita estavam um par de agentes da autoridade prontos a socorrê-lo – embrulharam-no à pressa num cobertor e acharam uma cabine telefónica por perto, intepretando-a como melhor solução de refúgio até acalmar a histeria.

Não esperaram muito, não podiam nem deviam, decidiram abrir caminho à bastonada até à segurança do balneário, onde já se aliviavam os restantes parceiros de equipa. Lá chegado, recupera pouco depois os sentidos. O primeiro reflexo é verificar se perdera alguma parte do corpo. Estando tudo no sítio, cospe tirada que se tornou lendária: «O velhote Ângelo não morre tão cedo. Ainda hoje caíram 50 em cima dele e já está pronto para outra!», enquanto corre para abraçar a taça que tanto suor custou a ganhar. Foi com essa desfaçatez e sentido prático que comandou toda a sua vida profissional, encaminhada sempre pela paixão ardente a um emblema e a uma causa, ou Mística, que tão bem soube personificar.

Além da quantidade de troféus conquistados como jogador, os 14 (!) campeonatos nacionais como treinador da formação são nota de destaque
Fonte: SL Benfica

Como se não bastasse, dois dias depois de nos despedirmos de uma personalidade desta estirpe, fomos obrigados a dizer adeus a outra presença vincada da vida do clube: Augusto Matine, atleta no final dos anos 60 e princípio dos 70, que chegou à Luz como o sucessor de Mário Coluna.

Missão para Sísifo, mas, em 1967, o menino Augusto chega disposto a lutar por um lugar ao sol da lenda encarnada, com a genica dos grandes e com Lourenço Marques às costas no apoio. Na terra natal, era o playmaker do Central, clube da segunda divisão, do qual envergava a camisola apenas para manter o emprego, bem prioritário naquele tempo.

Ângelo Oliveira, grande jornalista moçambicano e responsável por chamarem Moçambola ao campeonato do país, foi um dos impulsionadores da sua carreira, entregando-lhe o prémio de Melhor Médio da Capital no ano da sua despedida.

Por cá, vingou principalmente com a sempre honrosa camisola do Vitória sadino, onde desfilou as qualidades ímpares que lhe valeram nove internacionalizações A e a participação na Minicopa do Mundo de 1972 – à arte de bem desarmar juntava a subtileza dos grandes criativos, o saber ser ladrão e maestro, qualidades inatas a um dos grandes ‘8’ do seu tempo.

Tanto assim é que, depois de chegar a Setúbal como moeda de troca por Vítor Baptista, ainda volta a Lisboa para participar no campeonato invicto de Jimmy Hagan, em 1972-73. Como treinador, projectou remodelações no futebol do seu país, chegou a seleccionador nacional (2001-02) e constituiu-se como uma das principais vozes do progresso desportivo da terra que nunca esqueceu.

Augusto Matine era um homem simples e diferenciado
Fonte: SL Benfica

Se à colossal importância histórica de Ângelo Martins juntarmos a estima que toda uma nação teve, tem e terá por uma figura como Augusto Matine – e onde o Benfica foi a bandeira de uma longa e prestigiada carreira – e as lembranças açucaradas que Vasiliy Kulkov deixou numa geração mais recente de benfiquistas fiéis e apaixonados, é impossível disassociar os últimos dias como momentos de enorme tristeza, onde não pode existir lugar a ingratidões ou ressentimentos mesquinhos. A um clube que honra os seus e que se assim se mantenha.

Artigo revisto por Mariana Plácido