Sob o céu de São Miguel, quem ditou o ritmo foi a águia | Santa Clara 1-2 Benfica

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Há resultados que enganam. O 1-2 final, nos Açores, entre Santa Clara e Benfica, pode sugerir um jogo apertado até ao limite, uma espécie de montanha-russa emocional onde tudo esteve em aberto até ao último suspiro. Mas quem viu o encontro com atenção percebeu outra coisa. Isto porque, no cômputo geral, as águias controlaram o jogo quase sempre. Sofreram, é verdade, e tremeram por culpa própria. Mas nunca perderam verdadeiramente a mão da partida diante dos açorianos, no arranque da 22.ª jornada da Primeira Liga.

Ora, o contexto inicial ajudava a perceber que não seria um fim de tarde de exuberância, mas sim de gestão inteligente. José Mourinho, condicionado por ausências relevantes, fruto de várias lesões, foi obrigado a reorganizar a estrutura. Ao “empurrar” Tomás Araújo para a lateral direita e colocar António Silva ao lado de Otamendi, a equipa perdeu um elemento importante na construção interior. Sem Aursnes, lesionado, e com Sudakov a começar no banco (sinal claro de que perdeu espaço pela subida de rendimento de Schjelderup e pela entrada de Rafa Silva no onze), o corredor central ficou menos criativo, menos fluído. Era, por isso, natural antecipar dificuldades na ligação entre setores.

Andreas Schjelderup Lucas Soares Benfica Santa Clara
Fonte: Rafael Canejo / Bola na Rede

Ainda assim, as escolhas eram praticamente inevitáveis. Enzo Barrenechea e Leandro Barreiro formaram o duplo pivô, Prestianni, Rafa e Schjelderup apoiaram Pavlidis no habitual 4-2-3-1, com Samuel Dahl do lado esquerdo da defesa. A estrutura manteve-se, mas com nuances diferentes. E essas nuances acabaram por não fragilizar a equipa, antes pelo contrário.

Do lado açoriano, Petit mexeu pouco em relação ao jogo anterior. Retirou Wendell, em processo de saída, para o Ceará, do Brasil, e lançou Gonçalo Paciência como referência ofensiva. O Santa Clara apresentou-se num 4-3-3 que, sem bola, facilmente se transformava em 4-5-1, com os extremos a baixar para fechar linhas e deixando Paciência sozinho na frente. A estratégia passava muito por recuperar bola, sobretudo no lado direito, e variá-la rapidamente para a esquerda, onde Gabriel Silva deveria receber o mais isolado possível para enfrentar Tomás Araújo, fletir para dentro e procurar o remate. No papel, fazia sentido, mas, no relvado, raramente resultou.

Assim sendo, a primeira parte foi um exercício de autoridade do Benfica. Não foi um domínio sufocante em termos de oportunidades atrás de oportunidades, mas foi um controlo claro dos ritmos, dos espaços e das intenções do adversário. A pressão, mesmo não sendo extremamente alta, foi coordenada, inteligente, e a reação à perda mostrou uma diferença evidente na atitude de jogadores como Prestianni e Schjelderup. Muito mais comprometidos, muito mais ligados ao momento defensivo do que aquilo a que estávamos habituados.

Gianluca Prestianni Benfica
Fonte: Rafael Canejo / Bola na Rede

O 0-1, aos 16 minutos, surge como consequência natural desse controlo. Cerco à área açoriana, Tomás Araújo com tempo e espaço na direita para levantar uma bola milimétrica, Pavlidis a atacar o segundo poste com uma agressividade pouco habitual no seu jogo aéreo. Mais um golo vindo de um cruzamento. Mais uma prova de que Tomás, mesmo adaptado, não só cumpriu defensivamente, anulando, em grande parte, Gabriel Silva, como teve participação ofensiva destacável, até porque não era a coisa mais óbvia do mundo que fosse ele o lateral direito do Benfica que melhor chega por fora e que melhor decide em profundidade, mas foi isso que aconteceu.

Depois, o segundo golo, aos 38’, reforça a ideia de que o Benfica tinha o jogo na mão. Passe de Dahl, Pavlidis a rodar com classe sobre Pedro Ferreira, conduzindo-o para uma zona onde a falta se tornava muito arriscada, cruzamento ligeiramente atrasado e autogolo de Paulo Victor. A jogada é do grego, com o desvio final a ser do defesa. Pavlidis é, neste momento, o melhor jogador do Benfica, ainda que nem sempre seja o mais regular dentro do próprio jogo, mas tendo, simultaneamente, essa capacidade de aparecer nos momentos certos, mesmo quando o coletivo não deslumbra.

Ao intervalo, o 0-2 era justo e incontestável. O Santa Clara pouco tinha criado, os remates saíam bloqueados, Vinícius Lopes e Gabriel Silva estavam longe de causar a vertigem que o plano de Petit pretendia. O Benfica controlava com bola e, sobretudo, sem ela. Mas veio o erro.

Logo no início da segunda parte, canto batido por Klismahn, cabeceamento de Gonçalo Paciência e uma falha grave de Trubin. A bola passa-lhe por entre as pernas num lance aparentemente simples. O 1-2 não nasce de uma avalanche açoriana, mas de um momento individual que reabre um jogo que estava em boas vias de ser fechado.

Esse erro teve impacto emocional, é inegável. O Santa Clara ganhou ânimo, subiu linhas, trocou extremos para tentar criar outro entendimento no lado esquerdo e terminou o jogo com mais posse de bola. Mas é aqui que importa separar sensação de realidade. Mais posse não significou mais perigo. Gonçalo Paciência, apesar do golo (o primeiro no campeonato português desde 2017) nunca teve verdadeiro espaço para progredir. António Silva e Otamendi controlaram-no bem. E depois da sua saída, a produção ofensiva açoriana caiu ainda mais.

José Mourinho Benfica
Fonte: Rafael Canejo / Bola na Rede

O Benfica baixou intensidade, sim. Foi menos agressivo na pressão, menos vertical na transição, mas não perdeu a organização. Mourinho percebeu o momento e, sem alarido, foi fechando o jogo. Mexeu para solidificar o meio-campo, para congelar ritmos, para retirar ao adversário a sensação de embalo, pelo que não houve espetáculo, houve cálculo.

Deste modo, é fácil criticar uma segunda parte menos conseguida, mas também é preciso reconhecer maturidade. Num campo difícil, num contexto emocionalmente instável após o erro do guarda-redes, a equipa não se desfez, não entrou em pânico, não abriu espaços desnecessários e geriu o encontro.

O Santa Clara tentou, sobretudo através da energia de Guilherme Romão e de algumas variações de corredor, mas terminou com mais intenção do que execução. A expulsão de Lucas Soares, já nos descontos, apenas retirou qualquer dúvida residual sobre o desfecho.

No fim, a leitura é clara: vitória justa do Benfica. Controlou o jogo durante a maior parte do tempo, neutralizou a estratégia açoriana, marcou em momentos-chave e soube gerir a adversidade. Se houve sofrimento, foi em grande medida autoinduzido.

Este não foi um daqueles jogos para alimentar euforias, mas, isso sim, um jogo que reforça algo importante, ou seja, mesmo com perdas no corredor central, mesmo com ajustes forçados, esta equipa encontra soluções. Pavlidis continua a ser decisivo, ao passo que Tomás Araújo mostrou que pode ser muito mais do que um central adaptado. E Mourinho, sem precisar de gestos dramáticos, mostrou que sabe fechar partidas quando o cenário pede frieza.

Em suma, nos Açores, o Benfica não brilhou sempre, mas mandou quase sempre. E isso, no fim das contas, é o que verdadeiramente conta num campeonato onde os pontos estão cada vez mais caros.

Raul Saraiva
Raul Saraiva
O Raúl tem 19 anos e está a tirar a Licenciatura em Ciências da Comunicação. Pretende seguir Jornalismo, de preferência desportivo. Acredita que se aprende diariamente e que, por isso, o desporto pode ser melhor.

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