Costa Pereira, Silvino, Zé Gato, Manuel Bento, Neno e Michel Preud’Homme. Entre estes muitos outros. São vários aqueles que já defenderam as redes encarnadas. Uns talentosos, outros vitoriosos, muitos a deixar a sua marca na alma benfiquista.

Na baliza está o homem que tem de transmitir segurança ao resto da equipa. As defesas impossíveis são os seus momentos de glória mas o seu maior contributo é o controlo global de tudo o que se passa na zona da sua área: saídas a cruzamentos acabando com o ataque adversário, antecipação à desmarcação dos avançados rivais limpando toda a jogada que se desenhava, o comando nas costas da defesa organizando-a com a visão geral dos relvados e ainda a linha de passe segura quando a equipa se sente mais apertada no momento de construção.

No Sport Lisboa e Benfica houve vários exemplos de muitas destas competências e também outros que vacilaram na exigência global que é ser guarda-redes de um clube grande que vive do ataque. É na saída de Saint Michel que a minha memória começa a ganhar forma. Na saída do mítico Preud’Homme e na afirmação do fantástico Robert Enke.

Foram três anos de águia ao peito para o alemão. Na mesma altura chegou o inenarrável Carlos Bossio e também o jovem José Moreira. O português viveu doze anos na Luz e ainda conseguiu ser ídolo para muitos adeptos devido a exibições como a de Rosenborg. Moreira, como nós, viu vários nomes assumir as redes encarnadas. O principal foi sem dúvidas o Quim com seis anos de águia e um título a arrancar e outro a concluir a sua aventura. Mesmo sem ser um enorme guarda-redes é um dos que mais apreciei ver na baliza do SL Benfica. Também houve Moretto com o FC Barcelona, uma passagem do alemão Hans-Jörg Butt e até um discreto Júlio César. E ainda durante um ano andou na Luz o Roberto 8,5 milhões, a maior desilusão que vi passar pelas balizas do Estádio da Luz. Um guarda-redes milionário mas ao nível do Bossio e do Moretto.

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Em 2011 começa uma nova Era na baliza encarnada. O Quim já tinha saído na época anterior e o Moreira sai nesse Verão. Chega Artur Moraes, o “Rei Artur”, o “Pomba Branca”. Começou em grande estilo, enormes defesas para gáudio dos adeptos e uma segurança confortante. Porém foi um guarda-redes que não aguentou o peso da camisola mais que uma época, seguindo-se outras de grande inconsistência exibicional e uma estranha insegurança na baliza.

Dois anos depois da chegada do Artur surge na Luz o grande sucessor de Michel Preud’Homme. Jan Oblak é o guarda-redes do século XXI na baliza do Sport Lisboa e Benfica. Total segurança, frieza, reflexos felinos, controlo do jogo aéreo, um verdadeiro abanão à inconsistência e até mediocridade dos últimos 15 anos na Luz.
Infelizmente só ficou uma época. Para o seu lugar foi contratado o já consagrado internacional brasileiro – Júlio César. Este renasceu das cinzas de águia ao peito e fez uma muito boa e realmente apaixonante primeira época no Sport Lisboa e Benfica. Talvez o mais carismático por toda a paixão e emoção que transmitiu aos adeptos.

Jan Oblak é o guarda-redes do século XXI na baliza do Sport Lisboa e Benfica
Fonte: UEFA

E em 2015 surge outro enorme guarda-redes na Luz. Repescado ao Rio Ave FC e depois de meia época a cobrir o Júlio César, Éderson finalmente agarrou a baliza. Destacando-se como um guardião sem receios de sair da zona de conforto e assim controlando todo o espaço nas costas da defesa e por uma enorme capacidade de distribuir jogo tanto com passe curto, como com passe longo. Rapidamente conquistou a massa associativa encarnada.

Depois de um ano de Oblak, ano e meio de um grande Júlio César e ano e meio de Éderson, a sucessão tinha uma pressão enorme para se afirmar. Assim chegamos a 2017/18 com um Júlo César condicionado pela idade e por lesões que o afastam das melhores exibições e tendo como alternativas o repescado Bruno Varela e o recém-contratado Mile Svilar. Se o português nunca mostrou qualidade para defender a baliza encarnada – pavoroso jogo aéreo, preso à linha e vários erros de desconcentração – já o belga juntou à sua loucura uma total inexperiência enquanto sénior e uma arrogância na abordagem aos lances que ainda não tinha conquistado o direito a ter. Também Paulo Lopes deixou o seu legado. Após uma décado de tutoria de José Moreira foi a vez dele de supervisionar 6 anos de guarda-redes no Estádio da Luz. Meia-dúzia de anos de conquistas, seis anos marcados pela sua imagem no topo dos ferros que outros iam defendendo.

Depois de um grande Júlio César e da grandeza de Oblak e de Éderson, chega-se a esta última época na carência de um grande guarda-redes. Para este propósito chega no Verão Odysseas Vlachodimos. Aterrou, jogou, convenceu e brilhou. Um arranque de altíssimo nível conseguindo compensar com grandes defesas o inexistente processo defensivo que assolava a equipa na primeira metade da época. Segurança, excelentes reflexos e uma grande capacidade de saída aos pés dos avançados. Um arranque salvador onde ainda assim eram visiveis algumas fragilidades que o afastavam dos outros monstros. E foram essas fragilidades que começaram a marcar as exibições do guarda-redes greco-germânico nos últimos meses de águia ao peito. Em um ano traz-nos a recordação de dois anos de Artur Moraes. São vários os inexplicáveis erros de golpe de vista, o fraco jogo de pés e a hesitação na cobertura das costas dos defesas.

Será só uma má fase ou na verdade Odysseas não tem real qualidade e mentalidade para dominar a baliza na próxima época? Os postes da Luz estão marcados por grandes nomes e manchados por enormes falhanços. Necessitam urgentemente de um dono que os controle em total segurança.

Depois de um grande Júlio César e da grandeza de Oblak e de Éderson, chega-se a esta última época na carência de um grande guarda-redes
Fonte: SL Benfica

Esta deverá ser uma das preocupações de Bruno Lage e da Direcção na preparação da próxima temporada. Irá Odysseas Vlachodimos corresponder ou deverá o Sport Lisboa e Benfica atacar o Mercado? Será que a solução para a baliza poderá passar pelo Seixal?

Ivan Zoblin já tem sido chamado à equipa principal mas ainda não se estreou. Guarda-redes russo de 22 anos e 1,91 metros. Quem o conhece melhor que eu, um colega aqui do Bola na Rede, diz:

“Acho-o um GR interessante mas ainda precisa de evoluir. É muito ágil, forte no jogo aéreo, tem bom posicionamento entre os postes, uma boa capacidade de reacção e rápido a sair da baliza, sendo capaz de controlar a profundidade com qualidade. Tem evoluído muito na distribuição, principalmente no jogos de pés. É melhor que o Svilar mas não acho que o Zlobin seja já um concorrente à altura para colocar o Odysseas em sentido. Até posso estar enganado mas ainda vejo ali muitas falhas.”

Tem agora a palavra Bruno Lage.

Foto de Capa: SL Benfica