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Após várias épocas afastado da Primeira Liga devido ao caso “Apito Dourado”, o Boavista regressou este ano vindo diretamente do Campeonato Nacional de Seniores. Esta situação incomum colocou muitas dúvidas, de forma legítima, sobre as reais capacidades do Boavista em apresentar uma equipa competitiva, de forma a conseguir assegurar a manutenção no principal escalão.

Apenas oito jogadores se mantiveram desde o plantel da época passada. Obviamente uma equipa construída para um Campeonato Nacional de Seniores está muito distante das exigências de uma Primeira Liga. Por esse motivo foi necessário rechear o plantel com outras opções, ainda que com as evidentes condicionantes financeiras que o Boavista apresenta. O panorama no início da época era bastante negro. E os primeiros jogos adensaram esse cenário.

Os axadrezados perderam em Braga, na receção ao Benfica e em Vila do Conde, sem conseguirem marcar qualquer golo. Contudo, depois disso, duas vitórias em casa, frente a Académica e Gil Vicente, com um surpreendente empate no Estádio do Dragão pelo meio, levaram a que o público começasse a olhar para o Boavista de forma diferente. Podem ter sido estas jornadas o ponto de viragem para a equipa que vemos neste momento. Atualmente, quando faltam disputar 18 pontos até ao final do campeonato, o Boavista está no 13º lugar, com 29 pontos, mais 10 que o Gil Vicente e 11 que o Penafiel, as duas equipas que estão abaixo da linha de água. Esta posição é extremamente confortável, tendo em conta que gilistas e penafidelenses ainda têm de defrontar Benfica e FC Porto até ao final da Liga. Acredito que o Boavista tem a manutenção garantida, ficando a faltar apenas a confirmação matemática da mesma.

Contudo, para chegar a esta confortável posição, foi importantíssima a fortaleza do Bessa. Os boavisteiros venceram metade dos 14 encontros disputados em casa, tendo derrotado por exemplo V. Guimarães, SC Braga e Belenenses, equipas que lutam pelo acesso às competições europeias. 22 dos 29 pontos foram conquistados dentro de portas, e isso diz tudo sobre a prestação do Boavista na relva sintética do Estádio do Bessa. Em terreno alheio, a conversa é diferente. Apenas 1 vitória e 4 empates em 14 partidas. Contudo, vemos um registo interessante. Nesta altura, o Boavista tem 5 equipas atrás de si na tabela (Académica, Vit.Setúbal, Arouca, Gil Vicente e Penafiel). Em jogos do campeonato, o Boavista não perdeu nenhum jogo frente a estes adversários diretos. Contra os estudantes, os gilistas e os penafidelenses, a equipa de Petit conseguiu vencer em casa e empatar fora. Frente ao Arouca, o Boavista venceu em casa e ainda terá de jogar fora, frente aos sadinos os axadrezados alcançaram o único triunfo fora de casa, tendo ainda de receber o conjunto agora orientado por Bruno Ribeiro. Este registo perante os adversários diretos foi decisivo para a confiança que se respira nos corredores do Bessa.

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A união do grupo e o Estádio do Bessa: dois fatores decisivos para a boa época do Boavista Fonte: Facebook do Boavista Futebol Clube
A união do grupo e o Estádio do Bessa: dois fatores decisivos para a boa época do Boavista
Fonte: Facebook do Boavista Futebol Clube

Virando as atenções para o plantel, vimos uma grande indefinição no início da temporada que se foi desvanecendo ao longo da mesma, devido a algumas contratações que se revelaram importantes. A equipa vale acima de tudo pelo coletivo, não tendo nenhum jogador que se sobressaia dos demais. Petit construiu uma equipa baseada num meio campo combativo, com vários jogadores poderosos do ponto de vista físico. Nas alas, laterais atacantes e extremos rápidos, como são Zé Manuel e Brito, a tentar municiar o ponta de lança, que tem sido maioritariamente o internacional nigeriano Michael Uchebo, que até esteve no Mundial 2014. O antigo jogador do Cercle Brugge marcou 4 golos na Primeira Liga e tem sido um dos principais destaques da equipa. Apesar da sua estampa física (1,94m), Uchebo é um jogador irrequieto, que se movimenta ao longo de todo o espaço atacante, desgastando muito os defesas contrários. Além disso, é muito importante no jogo aéreo, tanto defensiva como ofensivamente. Mas existem outros destaques na turma axadrezada.

Na baliza, Mika, vice-campeão do Mundo sub-20 em 2011, parece estar a renascer, depois de uma passagem infeliz no Benfica. Tem estado bem na baliza da equipa de Petit e é um dos pilares que ajuda a explicar a boa temporada do clube. Na defesa, destaco três nomes: Brayan Beckeles, Carlos Santos e Afonso Figueiredo. O hondurenho também esteve no Mundial do Brasil. Apesar de esta ser a sua primeira experiência no futebol europeu, tem demonstrado qualidade, quer a jogar como lateral , quer como extremo no flanco direito. Carlos Santos é um central português que já está na sua terceira época no Boavista e tem sido o central mais utilizado da equipa, num setor que já foi composto por muitas duplas. De entre todos esses jogadores, o português é o mais estável e é um jogador à imagem do treinador, raçudo e que luta bastante em todos os lances. Afonso Figueiredo, o lateral esquerdo, também já estava no Boavista na época passada e é um jogador com um futuro promissor pela frente. Tem 22 anos, mas já passou na formação por Sporting, SC Braga e Belenenses. Pode ser chamado ao próximo Europeu de sub-21 e seria, com certeza, uma excelente opção para Rui Jorge.

Como referi acima, Petit assentou a equipa num meio combativo e, para este setor, tem jogadores como Idris ou Tengarrinha, jogadores que estavam na Liga de Honra e vieram transmitir capacidade física e de luta pela bola a esta equipa. São aqueles jogadores “operários” que qualquer treinador gosta de ter na sua equipa. Além destes dois elementos, existe outro par que tem tido uma utilização regular ao longo da época: Reuben Gabriel, outro nigeriano que tinha estado no Mundial, e o brasileiro Anderson Carvalho. A chegada do eslovaco Marek Cech no mercado de inverno também foi importante. O antigo jogador do FC Porto veio trazer outro grau de experiência aos axadrezados.

O treinador, Petit, está no banco como se estivesse ainda a jogar nos relvados: sempre atento, muito interventivo para com os seus jogadores, sempre com um discurso positivo, mas ciente das dificuldades. Penso que este fator foi decisivo. Petit sabia quais podiam ser os pontos fortes da equipa e potenciou-os ao máximo, tentando esconder as fraquezas naturais num clube que tinha vindo de um escalão não profissional do futebol português. A permanência está muito perto e Petit começa assim de forma auspiciosa a sua carreira como treinador de futebol.

Foto de capa: Facebook do Boavista Futebol Clube