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Em Portugal, a bola rola pouco durante os jogos de futebol. Parece confuso, mas quem o diz é o Observatório do Futebol (CIES) que concluiu que, entre as 35 ligas europeias, é por cá que se regista um dos piores tempos de jogo útil, 51,9%. Isto confere-nos um honroso (leia-se vergonhoso) quarto lugar a contar dos últimos no ranking que classifica as ligas que mais tempo jogam à bola, apenas à frente da liga grega (50,9%), da segunda divisão espanhola (50,4) e da liga checa (50,2%).

Por outro lado, as ligas em destaque são a sueca (59,7%), a holandesa (59,5%) e a finlandesa (57,7). Entre as cinco principais ligas europeias (Espanha, Inglaterra, Itália, França e Alemanha), são os alemães que mantêm o melhor registo, com 57,1%, logo seguidos pelos franceses com 56,7%. No ponto oposto temos a primeira liga espanhola, com 53,3%.

Apesar de tudo, temos de registar as boas notícias: houve uma ligeira melhoria em relação ao ano passado, em que a liga portuguesa ficou mesmo na última posição, com apenas 50,9% do tempo de jogo passado a efetivamente jogar futebol, ou seja, pouco mais do que 45 minutos. A subida foi ligeira, é certo, mas denota já algum esforço no sentido de melhorar esta questão.

Contudo, ainda há muito a ser feito. São vários os treinadores a queixarem-se do tempo que desnecessariamente se perde a fazerem outras coisas (muitas vezes propositadamente) em vez de se jogar à bola. No seguimento dos resultados do ranking do ano passado, Sérgio Conceição, treinador do FC Porto, concluiu que “é culpa de toda a gente: treinadores, jogadores e, muitas vezes, da condescendência dos árbitros”.

Mas se o técnico portista tem razão em protestar, já que por vezes tem de lidar com adversários em que a única estratégia de jogo é fazer o tempo passar, por outro lado, poderá também ter de fazer um “mea” culpa: o FC Porto regista apenas 51,2% de tempo útil de jogo, abaixo da média nacional e muito inferior ao seu eterno rival, o SL Benfica, com 57,1%. O CD Aves é aquele que pior aproveita os 90 minutos de jogo, com apenas 49,5% de tempo útil.

O Desportivo das Aves é a equipa com menor tempo útil de jogo na primeira liga
Fonte: CD Aves

Os motivos para estes números são vários, desde equipas que, como já foi referido, por não conseguirem ou quererem ter outra referência tática, passam os jogos a simular lesões e outros estratagemas para o tempo passar e, desta forma, segurarem ao menos o empate. Este tipo de comportamento muitas vezes é bem sucedido, pois os adversários (normalmente de maior calibre, mas às vezes o inverso também acontece) não conseguem impor o seu jogo e, a certa altura, deixam de ficar mentalmente aptos para o fazer, pois vêem os ponteiros do relógio a andar e o panorama do jogo não muda.

Claro que, nestes casos, a culpa é sempre repartida por treinadores e árbitros. Os primeiros, porque muitas vezes são os principais instigadores deste tipo de atitude; os segundos, porque são coniventes com ela. Assim, o facto de determinada equipa ter pouco tempo útil de jogo não quer dizer necessariamente que é a mesma que provoca as paragens nas partidas, mas sim porque os seus adversários têm uma tendência em abrandar o ritmo do jogo quando a defrontam.

Claro que haverá quem diga que este método é perfeitamente legítimo, porque há equipas que, fruto de orçamentos claramente inferiores ao seu oponente, têm as suas chances de ganhar pontos em determinados jogos claramente baixas. É aqui que discordo. É verdade que Primeira Liga portuguesa é pouco competitiva, que à exceção de dois ou três clubes, mais nenhum consegue discutir o pódio com os chamados “três grandes”. Os fatores necessários para inverter este cenário originariam um texto por si só, mas não podem servir como desculpa para não se fazer nada no imediato para melhorar o tempo útil de jogo.

Para começar, é imperativo mudar mentalidades de treinadores, jogadores, árbitros e todos os dirigentes desportivos. Talvez até apertar as regras para que se castiguem de forma mais severa aqueles que “queimam tempo”. Só quando perceberem que a beleza do futebol está na sua incerteza, na disputa genuína entre duas equipas, e que é para isso que as pessoas pagam bilhete para irem ver um jogo ao vivo em vez de o assistir no conforto do seu sofá, talvez aí entendam que, quando não fazem tudo o que está ao seu alcance para proporcionar o melhor espetáculo possível, estão a trair os adeptos do futebol.

Revisto por: Jorge Neves

 

 

Diana Oliveira
Diana Oliveirahttp://www.bolanarede.pt
A Diana é licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Porto e, desde cedo, que a escrita faz parte de si. Poder conjugá-la com o futebol, outra das suas paixões, é a cereja no topo do bolo. A Diana escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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