Reflexão sobre uma época ligeiramente esquisita

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Seria de fraca inteligência começar um artigo destes por dar contexto relativamente à época desportiva que se está a desenrolar. Por isso, vou precisamente fazê-lo.

Houve um senhor na China que comeu um morcego. A ingestão do bicho despoletou um outro bicho, e de repente há equipas a jogar consecutivamente de três em três dias. Pronto, o artigo está exemplarmente contextualizado, pelo que estamos em condições de avançar.

Esta época tem sido atípica a vários níveis. Aliás, atípica talvez não seja a palavra mais ilustrativa. O termo cientifico mais adequado deverá até ser “esquisita”. Tem, na verdade, sido uma época esquisita.

Os estádios estão quase sempre vazios, todos os elementos que não estão a intervir no jogo são obrigados a usar máscara, o mercado fechou mais tarde, os atletas frequentemente experimentam a sensação de enfiar a zaragatoa no nariz. Enfim, tudo é bastante esquisito, tendo em conta o futebol a que nos habituámos. Outra das grandes diferenças está no calendário. Por um lado queremos ter as competições o mais próximo do normal possível. Mas por outro lado, temos prazos para cumprir. Em que é que tal resulta? Férias muito curtas para grande parte dos jogadores, aliás para alguns nem devem ter sido bem férias, tratou-se mais de um fim-de-semana prolongado, e resulta também em jogos de três em três dias consecutivamente infelizes que estão a disputar as competições europeias.

Uma situação destas produz vários efeitos, sendo muitos deles negativos. Com um mês inteiro a jogar de três em três dias, não há grande margem para implantar ideias e filosofias de jogo. É jogar, recuperar, jogar, recuperar. Quando há de facto alguma pausa, os craques mais influentes são chamados às seleções e ficam sem trabalhar com a equipa.

No entanto, o mais óbvio destes efeitos é naturalmente a carga física que recai sobre os jogadores e que frequentemente resulta em lesões. Aliás, só se estivesse a disputar as competições europeias um plantel formado talvez pela Marvel é que não surgiriam lesões, e mesmo assim tenho algumas dúvidas. As lesões já são frustrantes em toda e qualquer altura. Mas nesta época em específico torna-se ainda mais terrível. Quando a conjuntura social externa ao futebol já não é, de todo, a mais agradável, quando já estão constantemente sujeitos a apanhar um bicho que os tranca num quarto durante umas semanas e os impede de darem contributo à modalidade, quando vêem as suas liberdades restringidas, aquilo que agora vinha mesmo a calhar aos atletas era uma lesão do ligamento cruzado anterior do joelho esquerdo.

O caro leitor estará seguramente recordado daquele célebre encontro entre o Rio Ave FC e o AC Milan, encontro do apuramento para a presente edição da Liga Europa e que durou aproximadamente 76 horas. Muitos acharão que se tratou de um jogo recheado de emoções em que ambos mereciam o apuramento. Pois bem, eu venho aqui esclarecer esse assunto. Aquilo que aconteceu no Rio Ave x Milan foi um exemplo fantástico de gestão desportiva. Tratou-se de duas equipas a lutarem ao máximo para evitarem a presença na Liga Europa, a fim de preservarem a compleição física dos atletas. De cada vez que um jogador do Rio Ave falhava uma grande penalidade, sentia-se uma felicidade enorme no tendão de Aquiles dos restantes companheiros de equipa.

Afinal, ambos os conjuntos estavam bem cientes de que a infelicidade do apuramento resultaria na vivência de semanas a fio sujeitos a uma carga física daquelas que fazem as provas para os Comandos do Exército parecerem um belo descanso.

Se veio à procura de soluções para que esta época seja ligeiramente menos esquisita, já percebeu que não as tenho. Apenas resta-me pedir aos atletas que continuem a ser heróis e a dar tudo por esta modalidade que apreciamos, porque isto um dia passará e aí voltaremos a estar junto deles a gritar, a sofrer, a comer umas bifanas e a disfrutar do futebol a sério, e não deste futebol esquisito.

Mário Silva da Costa
Mário Silva da Costahttp://www.bolanarede.pt
Natural de Vila Franca de Xira, Mário é a descrição perfeita de um típico idoso português. Chega ao domingo, almoça uma feijoada e vai ver a bola às três da tarde. Para além disso, nos tempos livres ocupa-se com um curso de jornalismo na Escola Superior de Comunicação Social.                                                                                                                                                 O Mário escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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