Santa Clara 23/24: Ano de (r)evolução

    O Santa Clara está de regresso ao escalão máximo do futebol nacional. Os açorianos nem precisaram de entrar em campo na penúltima jornada da Segunda Liga para garantir a promoção, visto que o AVS não conseguiu ir além de um empate contra o Leixões, em Matosinhos.

    Na entrada para o último desafio da presente época, o Santa Clara está a uma vitória de conquistar o título de campeão da segunda divisão do futebol português pela segunda vez na sua história. Num ano marcado por grandes mudanças no clube, a resposta à descida de divisão na temporada 2022/2023 não podia ter sido melhor. E não é por acaso que, depois de confirmado o principal objetivo, o treinador dos Bravos Açorianos tenha vindo a público agradecer a toda a gente que trabalhou em prol desse objetivo, enaltecendo a união entre todos os elementos do clube.

    Neste artigo vamos olhar para essas mudanças, para aquilo que foi feito de forma exemplar pela estrutura açoriana e para o trabalho de autor de Vasco Matos, que certamente deixa os adeptos do clube extremamente orgulhosos.

    A DESCIDA DE DIVISÃO

    Não é possível olhar para esta temporada do Santa Clara sem antes recordarmos a sua última prestação na Primeira Liga. O emblema açoriano terminou a época 2022/2023 no último lugar do campeonato, conquistando apenas 22 pontos e 5 vitórias. Números muito fracos para uma equipa que no ano anterior esteve a um passo de entrar na fase de grupos da UEFA Conference League.

    Mário Silva começou no comando técnico, mas os maus resultados levaram ao despedimento do treinador natural do Porto. Seguiu-se Jorge Simão, mas novamente sem sucesso. Accioly, um dos mais icónicos jogadores do clube neste século, assumiu a pasta técnica no final da época para tentar o milagre. Sem grandes surpresas (e sem culpa direta), não conseguiu evitar a descida do clube à Segunda Liga.

    Antes do pesadelo, o Santa Clara anunciava em julho de 2022 a entrada de Bruno Vicintin como Presidente da SAD. O Engenheiro brasileiro mostrou desde cedo a vontade de catapultar o clube e a região para patamares superiores, chegando mesmo a dizer que queria tornar o Santa Clara num dos maiores clubes a nível nacional. Mais tarde, referiu que a temporada 2022/2023 seria uma espécie de “ano zero” para os encarnados de Ponta Delgada. E a verdade é que pareceu mesmo um ano zero. Zero planeamento, zero crescimento, zero esperança num futuro auspicioso e zero objetivos alcançados.

    Morita com a camisola do Santa Clara num jogo contra o Sporting
    Fonte: Carlos Silva / Bola na Rede

    Houve muitas coisas que ficaram por explicar relativamente à época passada, desde a incapacidade do clube para proteger os seus interesses desportivos e financeiros (Lincoln, Morita e Villanueva – três dos mais importantes atletas da equipa – saíram por um total inferior a sete milhões de euros e não foram devidamente substituídos) até às várias contratações muito duvidosas que chegaram ao arquipélago, sobretudo aquelas provenientes do mercado brasileiro (jogadores a saltarem da Série D do Brasil para a Primeira Liga e outros apenas com experiência de futebol profissional ao nível dos Estaduais). Acabou o clube por acertar nas aquisições de Gabriel Batista e Gabriel Silva, mas notou-se que andava a dar tiros no escuro (e alguns nos pés).

    DO PESADELO AO SONHO

    Quando um clube desce de divisão, o objetivo da próxima época passa a ser, quase de forma automática, o regresso ao escalão acima, mas isso é por consequência algo tremendamente difícil (que o digam Marítimo e Paços de Ferreira). E a verdade é que muita gente pensava que o Santa Clara não “sobreviveria” à descida de divisão, que estava condenado a cair cada vez até “acabar” na insignificância total. Felizmente, enganaram-se.

    Para além dos fortes impactos do ponto de vista financeiro, sobretudo ao nível das receitas televisivas e de bilhética, fica difícil proteger os jogadores do assédio dos ‘clubes de primeira’, mas até nisso o Santa Clara esteve bem esta temporada. Montou um plantel à imagem da ideia de jogo do treinador, dotando-o até de jogadores com claras qualidades para patamares acima da Segunda Liga (Pedro Pacheco, Lucas Soares, Pedro Ferreira e Safira logo à cabeça). A manutenção de nomes como Paulo Henrique, Ricardinho e Bruno Almeida também foi importante e, de certa forma, uma prova de que havia algo a aproveitar dentro de portas, mesmo após a tempestade. Depois, outros que vieram de uma época anterior de destaque dentro do próprio campeonato (Sidney Lima e Serginho) e ainda a experiência e ‘estrelinha’ de nomes como Luís Rocha – fundamental no eixo da defesa – e Rafael Martins – na grande maioria das vezes até nem esteve bem, mas apareceu duas vezes já ao cair do pano (AVS em casa e Torreense fora) para dar três ponto à equipa.

    Mesmo assim, e até a bola começar a rolar, a desconfiança no projeto da SAD, liderada por Bruno Vicintin, era bastante superior à confiança num regresso rápido à Primeira Liga. E para piorar o cenário, o Santa Clara começava a época a ser eliminado da Taça da Liga pelo Tondela, em casa. Ou seja, foi quase como se a temporada anterior não tivesse acabado.

    Pedro Pacheco Rúben Pina Santa Clara Belenenses
    Fonte: Rafael Canejo / Bola na Rede

    Bem, na realidade começou logo a notar-se bastantes diferenças. Desde cedo que se viu que seria uma equipa bastante organizada e de baliza muitas vezes trancada (não tivesse recentemente Vasco Matos estado na equipa técnica de Filipe Martins, na época em que o Casa Pia ascendeu ao primeiro escalão). E veio a confirmar-se para alegria dos açorianos. Aliás, o Santa Clara tem apenas 19 golos sofridos com 33 jogos cumpridos e desde a época 2011/12 que uma equipa não chegava à última jornada do campeonato com menos de 20 golos sofridos – nessa temporada, o Estoril chegou com 18 golos, mas acabou com 20 sofridos). Para além disso, e porque estamos a falar de uma equipa que à data tem somente três desaires, desde essa mesma temporada que uma formação não chegava à última partida da prova com três ou menos derrotas – falo do Aves (não confundir com AVS), que acabou a época com quatro derrotas, tendo perdido precisamente o último jogo.

    Do ponto de vista ofensivo, notou-se que a época foi claramente em crescendo (o reforço do plantel em janeiro também foi importante). No início, eram várias dificuldades em ataque organizado, com muitas precipitações em zonas altas, vários remates fora de área e pouca presença lá dentro. À medida que as vitórias e as boas exibições foram aparecendo a equipa soltou-se mais, até porque o feedback ‘lá atrás’ foi sempre de máxima segurança.

    Não falamos de uma equipa extraordinária a atacar, nem tampouco de ideias demasiado elaboradas, mas mostrou ser funcional em todos os momentos. O trabalho dos alas, tanto em largura como em profundidade, e principalmente de Lucas Soares pelas características ofensivas, foi essencial para desbloquear outros jogos. E ainda houve o tal factor apelidado de quinto momento do jogo: as bolas paradas, que, diga-se, foi um trabalho digno de registo por parte da equipa técnica dos açorianos e fez a diferença em vários momentos. Não chegaram à última jornada de uma prova exigente em primeiro lugar, aos quartos-de-final da Taça de Portugal e a maio com apenas quatro derrotas na bagagem por acaso. No início da época, foram 18 jogos consecutivos sem sabor o sabor da derrota, que chegou de uma forma muito amarga num jogo em casa com o Mafra marcado pelo desperdício encarnado. Quis o destino que quatro meses depois o palco da festa da subida de divisão fosse precisamente a casa do Mafra.

    MAIS DO QUE A SUBIDA

    O ano é especial porque há mais a celebrar do que apenas a promoção à elite do futebol português. Este ano representou também um ano de novidades no clube, desde logo a criação inédita de uma equipa de sub-23. E, para o primeiro ano, com todas as sobejamente conhecidas dificuldades, o balanço só pode ser muito positivo. Competiu contra todos os adversários, fez certamente evoluir jogadores, deu espaço para o aparecimento de jovens açorianos num patamar de exigência máxima e veio de certa forma profissionalizar um pouco a formação do clube.

    Além disso, 2023/24 fez também reaparecer o plantel B dos açorianos, que se constituiu basicamente numa mistura de jogadores do plantel sub-23 e juniores do Santa Clara. Escusado será dizer que venceu sem grande dificuldade o campeonato da AF Ponta Delgada. Para o ano estará a jogar o regional dos Açores. E daqui a dois, se o projeto se mantiver como é de acreditar que sim, dificilmente não estará já no Campeonato de Portugal. A diferença é grande e não é só dentro do campo. Do que fica deste primeiro ano de renascimento da equipa B são mesmo as oportunidades que alguns jovens da formação tiveram para competir num nível acima àquele a que estavam habituados.

    Notícia RTP sobre o centro de treinos: https://acores.rtp.pt/desporto/construcao-do-centro-de-treinos-do-santa-clara-arranca-dentro-de-dois-meses/

    O plantel júnior também levou um reforço com jogadores provenientes de formações de Portugal Continental, e mais tarde do Brasil, que foram fundamentais para a conquista dos campeonatos de ilha e dos Açores, bem como para a prestação digna da equipa na fase de apuramento para a I Divisão Nacional de juniores. Uma prestação que prova, pelo menos, que não só vale a pena apostar e investir como é essencial que isso aconteça. Os resultados aparecerão.

    Efetivamente, o investimento parece que vai mesmo continuar, isto confiando nas palavras de Bruno Vicintin, que no final de fevereiro anunciou o início da construção do centro de treinos do clube dentro de oito meses. Ora, portanto, fazendo as contas, o Santa Clara deverá começar a ver ‘nascer’ o seu tão desejado centro de treinos por volta do final do mês de outubro. De facto, foi sempre um objetivo claro desta SAD e, a meu ver, bem. O Santa Clara (copiar e colar o nome de qualquer clube em Portugal) necessita de uma formação cada vez mais capaz de sustentar o plantel sénior. Um dos passos mais fundamentais para essa ‘utopia’ parece estar a ganhar cor.

    Safira a jogar pelo Santa Clara frente ao Nacional
    Fonte: Rafael Canejo/Bola na Rede

    Por último, mas não menos importante, até porque tem uma representação bastante forte, o clube alterou o seu emblema de forma bastante evidente mais de 70 anos depois (ainda que tenha andado alguns anos, durante a última década, com um bastante diferente, mas apenas afeto à SAD e mais tarde ‘esquecido’). Como sempre, houve quem gostasse mais e quem gostasse menos, mas ficou certamente marcado como um dia de mudança na história dos encarnados de Ponta Delgada (ainda que na prática “tudo fique igual”. A grande maioria dos adeptos regista o dia quase como um certo reforço de uma identidade própria (acabaram-se as semelhanças com o emblema do Benfica). Aliás, a medida de alteração do emblema recebeu 241 votos a favor, registando-se apenas 22 votos contra. A partir da próxima época o Santa Clara um emblema que congrega o milhafre, a onda do mar, a data popular de fundação do clube (1921), as palavras Santa Clara e Açores e ainda nove estrelas que representam as nove ilhas do arquipélago.

    Acabo com um merecido e feliz destaque para a relação aparentemente saudável entre a SAD liderada por Bruno Vicintin e o clube presidido por Ricardo Pacheco. Aquando da eleição de Ricardo Pacheco, em 2021, o presidente açoriano proferiu que “se o clube e a SAD estiverem de costas voltadas é um mau caminho, é um mau prenúncio”. Verdade e os exemplos começam a ser vários por Portugal. Mais tarde, deu outra garantia: “As relações entre o clube e a SAD são muito boas, aliás são referenciadas mesmo a nível nacional como um exemplo. Temos um projeto em comum, pensamos num projeto e estamos a executá-lo.” Bons prenúncios para o que vem aí, mas há ainda um caminho longo a percorrer. É importante afastar os fantasmas da instabilidade para o mais longe possível para que na eventualidade de cair uma peça não venha atrás toda a estrutura.

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