A viver uma nova vida no ramo das apostas desportivas, Cláudio Pitbull atende-nos a partir do escritório no Brasil, onde trabalha rodeado de memórias da carreira de jogador. Outrora uma das maiores promessas do Grêmio, chegou à Europa aos 23 anos para jogar no FC Porto, mas depois de um jogo para a Liga dos Campeões frente ao Inter MIlão, deixou de ter oportunidades e andou de empréstimo em empréstimo até acabar contrato. Numa carreira que passou por Brasil, Arábia Saudita, Turquia e Roménia, foi em Portugal que ganhou destaque, com passagens por Académica OAF, CS Marítimo e Gil Vicente FC, mas foi ao serviço do Vitória FC que somou mais sucesso ao conquistar a primeira edição da Taça da Liga. Eis Cláudio Pitbull, em exclusivo, no Bola na Rede.

-A nova vida de Pitbull e o início promissor de carreira no Grêmio-

«Em Portugal retardam muito os jogadores. Há muitos jogadores prontos que podem jogar e deixam-nos jogadores de fora até aos 20 ou 21 anos»

Bola na Rede: Cláudio, os adeptos portugueses perderam-te o rasto nos últimos anos. Que é feito de ti?

Cláudio Pitbull: Agora estou a viver no Brasil depois de 15 anos aí em Portugal. Encontrei uma namorada, acabou por mudar-me os planos e agora montei um escritório virado para apostas desportivas.

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Bola na Rede: Mas com uma empresa mesmo? Um site?

Cláudio Pitbull: Sim. Fiz uma parceria com uma casa de apostas e comecei a envolver-me nisso há um mês e pouco. Depois de parar de jogar, ficamos sem rumo, não sabemos o que fazer, se vai abrir uma escola de futebol – que eu gosto bastante de trabalhar com miúdos – mas como eu já gostava disto e cheguei a fazer alguns cursos, é uma coisa que vou fazer.

Bola na Rede: Era uma coisa que um jovem Cláudio Pitbull, a começar a aparecer no Grêmio, acreditava que ia fazer um dia?

Cláudio Pitbull: Acho que não, porque quando temos 18 anos fazemos muita besteira. Temos a cabeça completamente diferente de quem tem quase 40 anos. Agora já pensamos de uma maneira diferente.

Bola na Rede: Por falar no início da tua carreira, começaste como sénior no Grêmio. Também fizeste toda a formação em Belo-Horizonte?

Cláudio Pitbull: Não, comecei no Grêmio dos 11 até aos 21. Jogava na rua e numa escola de um ex-jogador do Grêmio, que já faleceu, que era o Tarcísio. Estava a jogar num campinho de rua e mandaram-me fazer um teste lá no Grêmio, acabei por passar e fiz toda a formação lá, foram 10 anos.

Bola na Rede: Que craques apanhaste nessa altura?

Cláudio Pitbull: Apanhei muita gente, mas destacar o Ronaldinho Gaúcho, sem dúvida. O que ele fazia nos treinos era uma coisa de outro Mundo.

Bola na Rede: Também tinhas destaque na formação ou ficavas na «sombra»?

Cláudio Pitbull: Sempre tive destaque nas categorias de base. Se não me engano, fui um dos maiores artilheiros da formação do Grêmio, desde os iniciados até a profissional.

Bola na Rede: Quando chegaste aos seniores, as pessoas apontavam que ias chegar onde?

Cláudio Pitbull: É assim, hoje é muito mais fácil. Aí em Portugal, cria-se uma barreira muito complicada. Aqui no Brasil, no meu tempo, era muito difícil com 16 anos estar no profissional. Eu com 16 anos já estava nos seniores e com 17 fiz a estreia. Acho que aí em Portugal retardam muito os jogadores. Há muitos jogadores prontos, tanto no Sporting CP, SL Benfica, FC Porto que podem jogar e deixam-nos de fora até aos 20 ou 21 anos e já é muito tarde…

Bola na Rede: E esse jogo de estreia, com o Botafogo? Como lidaste com a pressão?

Cláudio Pitbull: Sinceramente, eu estava todo cagado [risos]. Estava assustado, olhava para a torcida, tinha 30 ou 40 mil pessoas… Não há como dizer que não se fica assustado. Mas com o tempo vais aprendendo e esquecendo os adeptos e consegues ficar à vontade para jogar.

Bola na Rede: O teu início de carreira foi particularmente positivo em termos coletivos, porque ganhaste dois campeonatos gaúcho e a Copa do Brasil. Como foram essas experiências?

Cláudio Pitbull: Foi muito bom porque eu era miúdo e estava a jogar com jogadores de renome como Zinho, que foi tetracampeão pelo Brasil, apanhei uma fornada boa e, quando assim é, tem de se aproveitar. Aprendi muito com esse plantel e a mesma coisa quando cheguei ao FC Porto. Encontrei uma equipa só de campeões e foi uma experiência muito boa para mim.

Bola na Rede: Como foi trabalhar com o Tite?

Cláudio Pitbull: O Tite desde cedo mostrava ser um grande treinador. Em 2000 foi campeão pelo Caxias, onde conseguiu um feito que, até então, era muito difícil. Em 2001 veio para o Grêmio e fomos campeões. Era um treinador que mostrava muita competência, muito dinâmico nos treinos e foi-se aperfeiçoando. É por isso que chegou onde chegou.

Bola na Rede: Aos 19 anos, começaste-te a destacar no Grêmio. Que contributo tiveste na conquista da Copa do Brasil?

Cláudio Pitbull: Tive dois jogos em que entrei e consegui fazer… É claro que nenhum jogador muda o jogo, a não ser os craques como Messi ou Cristiano Ronaldo, mas na primeira mão da final da Copa do Brasil fui muito importante. Estávamos a perder por 2-0 em casa, eu entrei e conseguimos empatar o jogo 2-2. Depois ganhámos ao Corinthians no Morumbi.

Bola na Rede: Porque acabaste emprestado ao Juventude no ano seguinte?

Cláudio Pitbull: Porque nessa época não tinha muitas sequências de jogos. Não sei se vocês dizem esta palavra, mas havia muitos medalhões, jogadores mais velhos, com nome, dificilmente tiravas-lhes o lugar. Vou dar um exemplo: não vais tirar o Quaresma da equipa para meter um miúdo da formação. Então eu disse-lhes que queria jogar mais e disseram-me para ser emprestado. Fui para o Juventude e fiz uma excelente temporada. Depois voltei ao Grêmio e fiz uma excelente sequência de jogos e golos.

Bola na Rede: O Ricardo Gomes, treinador do Juventude na altura, influenciou-te para ir para o futebol português?

Cláudio Pitbull: É uma pessoa que eu tenho um carinho muito grande. Ajudou bastante no meu crescimento, foi fantástico fora de campo, como pessoa. Ele falava muito bem de Portugal, que era um lugar muito bom para seguir caso tivesse de sair para algum lado. Pela língua, a adaptação seria mais fácil.

Bola na Rede: Depois regressas ao Grêmio, mas em 2004 têm uma temporada desastrosa, em que acabam por descer. O que se passou?

Cláudio Pitbull: Em 2003, já tivemos uma temporada ruim, escapámos na última jornada ao vencer o Corinthians. Já tinha avisado, mas em 2004 fizeram contratações erradas, muitas trocas de treinador, o grupo não era bom… Aí, já se sabe o que acontece…

Bola na Rede: Mesmo assim, fizeste uma época de destaque, com 23 golos em 50 jogos…

Cláudio Pitbull: Eu, particularmente, só joguei a segunda parte da temporada. Foram 23 golos em 30 jogos. Mas foi complicado, porque a equipa desceu de divisão. É um sentimento que carrego até hoje, é difícil… A equipa que você ama descer de divisão é muito ruim.