“Em futebol pode-se perder um jogo ou um campeonato, mas não se pode perder a identidade, o orgulho, as características”. A frase é de Cesar Luís Menotti, técnico que levou a Argentina ao título mundial em 1978.

A identidade é uma palavra-chave na construção não só de um modelo de jogo rico, como também de um coletivo forte, dentro e fora das quatro linhas. Entender que independentemente do adversário e do contexto competitivo, há um fio condutor a seguir.

É evidente que cada jogo e cada adversário exigem nuances estratégicas diferentes mas o que revela verdadeiramente a competência de um treinador, fugindo da mentalidade apenas focada nos resultados que impera no futebol português, é a sua capacidade em fazer com que uma equipa coloque sempre as suas ideias e princípios de jogo em campo. Costumo dizer que uma equipa com identidade é uma equipa com marga registada. E isso é fundamental na própria evolução do jogo.

Luís Castro é um grande exemplo de como aliar o bom futebol a uma forte identidade coletiva. O agora treinador do Shakhtar Donetsk deixou definitivamente uma marca de competência e qualidade no nosso futebol, sendo que são precisamente os treinadores portugueses muitos dos grandes impulsionadores da criação e preservação de uma identidade coletiva, possivelmente devido à cada vez melhor formação que recebem, o que os faz evoluir com o futebol enquanto conceito em constante transformação.

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Identidade. A identidade é precisamente o que mais salta à vista quando vemos o líder do campeonato, FC Famalicão, jogar. A forma como venceu os dois últimos jogos após estar a perder ao intervalo é indicativo da qualidade de jogo famalicense mas também de algo absolutamente fundamental: os jogadores acreditam na ideia do treinador e não têm medo de errar porque sabem que, ao aplicá-la, estão cada vez mais próximos de uma perfeição que é utópica, sim, mas que deve sempre ser tentada. É revelador de ambição e, acima de tudo, de competência de João Pedro Sousa.

“Vamos criar uma equipa competitiva, com o ADN Famalicão, em que os adeptos se vão rever sempre que entrarmos em campo”. As palavras são de João Pedro Sousa, o timoneiro e o grande responsável pela sensacional campanha até agora do FC Famalicão, abrilhantada pela liderança isolada do campeonato à sétima jornada. Prometeu e cumpriu.

Hoje, todos percebem que há um ADN, uma identidade muito própria na equipa do Famalicão. Uma proposta de jogo de equipa grande, de intenção de controlo e domínio do jogo, de fazer os adeptos ter orgulho naquilo que vêm da sua equipa. Tudo isso tem sido alcançado com enorme sucesso.

A calma de João Pedro Sousa é para mim um fator chave e um indicador importantíssimo da identidade do Famalicão. A postura tranquila, por vezes até pacata, do técnico famalicense demonstrará a convicção do treinador naquilo que terá trabalhado durante a semana e também a crença nos seus jogadores, em que eles saberão exatamente o que têm para fazer dentro de campo e conseguirão adaptar-se às várias facetas que o jogo apresenta.

O discurso coerente, tranquilo e ao mesmo tempo ambicioso tem tudo para favorecer uma equipa, também ela jovem mas muito ambiciosa. Porque para jogar como uma equipa grande, há que ter ambição e, acima de tudo, qualidade para o fazer. E qualidade não falta ao líder Famalicão.

Em Alvalade, vimos um FC Famalicão a tentar controlar o jogo com bola, saindo sempre desde trás com o guarda redes Defendi a distribuir com os centrais Nehuen Perez e Patrick William. Agora, se constatarmos que o Sporting marcou fruto precisamente de um erro individual de Lionn na saída de jogo, poderia ser de esperar que, de modo a evitar potenciais novos erros na defesa, o Famalicão jogasse de forma diferente, possivelmente tentasse esticar o jogo mais rápido jogando de forma mais direta até porque a forma como sofreu o golo podia colocar alguma dúvida na cabeça dos jogadores. Mas isso nunca aconteceu.

O Famalicão continuou a jogar exatamente da mesma forma, só que cada vez melhor e com melhor taxa de aproveitamento dessa mesma saída de jogo desde trás, que é chave no modelo de João Pedro Sousa. A forma como condicionou melhor o jogo do Sporting, com recuperações em zonas bastante adiantadas do terreno fez com que o Famalicão estivesse praticamente toda a segunda parte em cima dos leões, que não conseguiram encontrar um antídoto para afastar essa pressão e maior velocidade de circulação que o “Vila Nova” apresentou na segunda parte. Ora, os métodos foram exatamente os mesmo mas apenas mudou a velocidade com que era feito, aliado também ao ajuste do posicionamento de Gustavo Assunção, como explicou e bem o João Pedro Sousa na conferência de imprensa após o jogo.

Famalicão arrasou o Sporting em Alvalade
Fonte: FC Famalicão

Frente ao Belenenses SAD, os problemas encontrados foram diferentes. A equipa lisboeta apresentou-se bastante pressionante e isso condicionou o jogo do Famalicão, que não conseguiu chegar a zonas de finalização de uma forma tão recorrente como habitual. O golo ao cair do pano funcionou como antídoto para os da casa que, não abdicando nunca da sua forma de jogar, encontraram formas de chegar com mais perigo à baliza de Koffi, tendo feito três golos e podido fazer até mais, dadas as muitas oportunidades criadas na segunda parte.

Podemos concluir que o Famalicão nunca abdica da sua ideia mas tem noção, fruto da inteligência dos seus jogadores e da capacidade de análise do seu treinador, que por vezes um simples posicionamento ou movimentação diferentes podem ser decisivos para abrir o livro.

As ideias chave estão sempre lá: circulação a partir de trás, a dualidade de movimentos dos extremos que funcionam na largura ou no jogo interior, o recuo de Gustavo para pegar no jogo, a capacidade de desdobramento de Pedro Gonçalves nas triangulações com o extremo e o lateral que formam uma superioridade numérica nessa zona do terreno, originando desequilíbrios. Tudo isto já foi muito badalado e analisado, porém há dois aspetos que me parecem tão incríveis como este campeonato do Famalicão.

O primeiro é a reinvenção de Defendi e aqui temos a perceção da importância de João Pedro Sousa. Defendi nunca foi um guarda-redes de equipa grande. Passo a explicar: nunca foi um guarda-redes com importância na construção de jogo ofensivo da equipa porque tecnicamente não tinha também essa capacidade de jogo com os pés ou de leitura fora dos postes. Com João Pedro Sousa isso alterou-se, o que é extraordinário pois estamos a falar de um guarda-redes de 35 anos.

Toda a experiência e o facto de ser uma posição decisivamente específica podiam interferir na ideia de João Pedro Sousa, que poderia ter de adaptar a sua ideia em função do jogador. Aconteceu precisamente o contrário. Foi Defendi que se reinventou, que trabalhou para melhorar o seu jogo e hoje vêmo-lo muito seguro a jogar com os pés e a funcionar várias vezes como um líbero fruto de uma linha defensiva sempre subida no terreno. O saber ler a profundidade tem sido muito importante para Defendi que tem sido um pilar na baliza famalicense, mesmo com a chegada de Vaná, que ainda não teve oportunidade de jogar pelo líder.

A função do ponta de lança é outro aspeto que me parece fundamental no jogo do Famalicão. Toni Martinez foi sempre titular e, embora tenha apenas um golo marcado (o primeiro do campeonato, nos Açores) tem uma importância que é pouco valorizada pela crítica. O Famalicão encontra no jovem espanhol uma excelente referência para jogar em apoios. A sua capacidade em segurar a bola ou em tabelar com os colegas (ambas de costas para a baliza) são muito úteis para um Famalicão que adora ter bola e que adora misturar o jogo interior com chegadas através de combinações pelas faixas.

Toni Martinez tem essa capacidade de trabalho fruto de uma qualidade muito boa na receção. Faz também devoluções rápidas para os seus colegas (geralmente Pedro Gonçalves e Guga) assumirem o jogo ofensivo da equipa e levarem a bola para o feiticeiro Lameiras ou para o Salah de Famalicão, Fábio Martins. A grande produtividade dos dois extremos do Famalicão deve-se muito também a esse trabalho de Toni, que arrasta muitas marcações e permite essa liberdade aos dois virtuosos.

Porém, é o suplente de luxo do Famalicão que tem tido um maior rendimento a nível de golos. Anderson tem já 4 golos marcados, tendo jogado apenas 115 minutos. Anderson sempre teve esta capacidade em decidir a partir do banco mas não é só isso que é digno de admiração no avançado brasileiro. Com ele em campo, o Famalicão joga de forma diferente da que joga com Toni Martinez. Anderson é dos jogadores com maior ponta de velocidade em toda a Primeira Liga e essa sua característica, aliadas à sua intensidade na pressão e capacidade de remate fácil, permitem ao Famalicão esticar o jogo com maior facilidade e permitem uma maior fluidez nos ataques rápidos. Por exemplo, na próxima jornada frente ao FC Porto, Anderson poderá ser um jogador decisivo, mesmo que seja suplente: a sua vontade e velocidade, com dois centrais veteranos como o são Pepe e Marcano, pode criar muitos problemas ao Porto. Ou seja, para um jogo de controlo e domínio, Toni Martinez é mais habilitado para segurar a bola e aguentar bem os centrais adversário. Para mais vertigem no ataque e num jogo mais partido (como foi frente ao Belenenses SAD), Anderson é claramente o homem chave.

A identidade é fundamental na construção de estruturas fortes. Olhar para o futuro com os pés bem assentes no chão mas com uma ambição real e intocável. Mais, mais e mais. Não sei o que vai acontecer daqui para a frente mas uma coisa é certa: este Amor de Perdição tem tudo para não terminar em tragédia.

Foto de capa: FC Famalicão

Artigo revisto por Diogo Teixeira

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