Puxando a cassete atrás cerca de mês e meio, gostaria de introduzir um tema que foi lançado pelo presidente bracarense e que merece reflexão há muito tempo. Não teve a devida atenção, pois foi proferido em cima da paragem do campeonato e tenho sérias dúvidas que a alcançasse, tal como se fosse dito por alguém ligado a um dos grandes. Refiro-me concretamente ao apelo de António Salvador que pediu paz para com o setor da arbitragem.

O presidente do SC Braga referiu que o cenário “é preocupante” e deu a entender que o ambiente instalado no futebol português se torna prejudicial para a própria indústria. Então, divulgou uma nova medida que foi entretanto oficializada, que passa pela proibição de qualquer elemento ligado ao clube falar sobre arbitragem e sugeriu aos restantes clubes para darem “um ano de tréguas” ao setor. Não é um tema que seja recente – é, isso sim, sensível e que importa colocar em cima da mesa.

Apesar de também já ter sido um crítico das prestações dos árbitros e não existindo outra intenção nestas declarações, vejo a medida em si com bons olhos e como sendo bastante sensata para o futebol nacional que está urgentemente a precisar de uma reformulação a este nível. Esta medida seria uma pedrada no charco que há muito está contaminado por vozes enraivecidas que surgem em posição de ataque ao mínimo lapso de quem arbitra, habituando-nos a conviver num clima de guerrilha e de suspeição permanente e parecem não aceitar que entre o prejuízo e o benefício existem, e continuarão a existir, erros que tocam a todas as partes.

É certo que o nível dos árbitros em Portugal é débil e que muitas vezes as suas prestações deixam a desejar, mas não me parece que um ambiente de pressão constante e o fácil ‘apontar de dedo’ funcionem melhor num meio que se pretende credível. Ou pelo menos devia. Além de que servem para criar instabilidade e continuar a denegrir um ambiente já gasto de acusações. E para isto costumam contribuir muitos que insistem nesta toada sempre que se sentem prejudicados, pintando, por vezes, cenários demasiado negros, sendo que os que lutam pelo título fazem-se notar mais nesta matéria, pois têm um tipo de exposição que outros não têm.

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Acredito que o clima de instabilidade perpetuado em Portugal acaba por afetar o rendimento de muitos árbitros e que estes recorrem excessivamente ao apito como forma de se protegerem, adotando um critério que limita em demasia o tempo de jogo. Dar tranquilidade e o benefício da dúvida que António Salvador preconiza seria importante no sentido de haver uma mudança para melhor no nível da arbitragem e num paradigma que se encontra desgastado por determinados comportamentos que se centram demasiado em erros alheios. Porque parece que há clubes que vêm os árbitros como alguém que os impede de atingir os objetivos e não deve ser esse o papel nem de uma nem de outra parte.

Reconheço que deixar de lado as acusações e constantes críticas ao setor será demasiado utópico para a nossa realidade, mas julgo que o meio futebolístico funcionaria melhor a todos os níveis, sendo uma atividade onde há muito se normalizaram estas práticas, muitas vezes inapropriadas. O desejo é que esta crise atual possa contribuir para mudar diversos aspetos do futebol português, permitindo mudanças que melhorem o nosso ecossistema, sendo esta questão apenas uma de tantas outras.

A aparente adoção desta medida inovadora por parte dos bracarenses tem tudo para ser um passo em frente nesta realidade conflituosa, devendo partir dos clubes a prática deste tipo de comportamentos. Seria interessante ver os restantes clubes a adotarem uma postura semelhante e comprometerem-se a não reagir às arbitragens durante um determinado período – para isto passar para um patamar menos nebuloso – e depois tirarem as ilações necessárias. Talvez num universo paralelo isto tenha condições para avançar, mas se ninguém der o tiro de partida nunca vamos sair do mesmo sítio.

 

Artigo revisto por Joana Mendes