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Figura incontornável do futebol português dos finais do século XX e dirigente ímpar do mesmo contexto no novo milénio, por um conjunto de características que o tornaram consensual por todos os que com ele conviveram, larger than life como costumam entoar os americanos.

Exímio na arte da retórica e dono de extraordinário carisma, Neno é recordado enquanto pessoa verdadeiramente especial: não só pelo que conseguiu, mas pela simpatia e bondade que empregava em todos os gestos. «A alma do balneário» assim lhe chamava Vítor Paneira, um dos grandes amigos no futebol e que com ele compartilhou memórias na Luz e em Guimarães.

Futebolista, cantor, diplomata – símbolo da cidade-berço pela sua relação de longevidade com o clube e símbolo benfiquista pela presença nos mais míticos jogos dos anos 90: o 1-3 de Londres, frente ao Arsenal, o 0-2 de César Brito nas Antas, os 4-4 de Leverkusen, os 3-6 de Alvalade. Multifacetado, portanto. O Júlio Iglesias das balizas e do Benfica, auto-intitulado. Deixou-nos com ainda tanto por viver.

Nascido em Cabo Verde, chega a Portugal depois do 25 de Abril. O conflito entre os dois sonhos, depois cumpridos – a música e o futebol – eram mal vistos por um pai disciplinador. Queria que o seu Neno, alcunha que se sobrepunha a Adelino Augusto da Graça Barbosa Barros, seguisse a escola e se tornasse figura de relevo como ele foi.

Conta o filho que o progenitor era «professor, bastante conhecido» na terra Natal. «Praticamente todos os professores de Cabo Verde tinham sido discípulos do meu pai. O Presidente e o Primeiro-Ministo de Cabo Verde foram alunos do meu pai. […] O meu pai era aquela pessoa que, quando o primeiro ministro tomava posse, ele discursava. Era uma pessoa importante e muito bem vista» contava ao Expresso, há um ano.

Foi essa exigência que o manteve no Barreirense até aos 22 anos. O pai queria, antes de tudo, que desse prioridade á escola. O Benfica lá conseguiu, a muito custo, contratá-lo: foi para a Luz receber 100 contos, aumento significativo face aos 25 que ganhava na Margem Sul. Bento, conterrâneo, teve papel decisivo na sua contratação mas era figura com demasiado estatuto para permitir qualquer minuto ao menino.

Pedro Cantoneiro
Pedro Cantoneirohttp://www.bolanarede.pt
Adepto da discussão futebolística pós-refeição e da cultura de esplanada, de opinião que o futebol é a arte suprema.

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