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Bom jogador resulta em bom treinador?

Diogo Pires Gonçalves · 6 min

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Cabeçalho Futebol NacionalO futebol em si é uma arte. E o saber faz parte. Saber jogar e saber comandar. Estas duas vertentes podem coexistir no mesmo indivíduo, mas o habitual é que aquele que trata bem a bola e pensa bem o jogo seja um e o que monta a equipa e desenha a estratégia seja outro. Mas haverão, certamente, exceções. Deliciosas e saudosas exceções.

O treinador português é hoje muito cobiçado e elogiado pela Europa fora. Apesar de, por vezes, não ser valorizado e admirado dentro de portas, mais tarde todos lhes reconhecerão o seu engenho e talento. Ainda assim, algo parece estar a mudar nas mentalidades dos nossos clubes; dos 18 clubes competidores da Primeira Liga, 17 contam com treinadores portugueses. A exceção, para já, é o CD Aves que recorreu ao angolano Lito Vidigal para render Ricardo Soares. Mas então qual o sucesso do treinador português? Poderá ser o seu passado enquanto jogador?

É difícil encontrar a resposta a esta pergunta, senão mesmo impossível. Pode estar na capacidade de liderança ou astúcia e inteligência proveniente do gene lusitano. Certo é que pouco terá que ver com o passado enquanto jogador, senão este sucesso não era exclusivo dos portugueses e qualquer Bola de Ouro se tornaria num treinador invencível. Prova disso são os casos de Rui Vitória, Daniel Ramos, Miguel Cardoso, Nuno Manta, Luís Castro, Manuel Machado ou Lito Vidigal. Todos estes são treinadores no nosso campeonato. Nenhum deles se destacou a níveis estratosféricos enquanto atleta, mas desempenharam e têm vindo a cumprir com distinção as suas funções enquanto líderes de equipa. Rui Vitória, por exemplo, representou, enquanto jogador, clubes como o Alverca, Vilafranquense, Seixal FC ou SC Farense.

Nuno Manta Santos conseguiu um excelente oitavo lugar com o Feirense na época passada Fonte: CD Feirense
Nuno Manta Santos conseguiu um excelente oitavo lugar com o Feirense na época passada
Fonte: CD Feirense

Sem mediatismo algum, assumiu o cargo de treinador de equipas menores e, passado algum tempo, subiu o CD Fátima à Segunda Liga, passou pelo FC Paços de Ferreira e conduziu o Vitória SC ao quinto lugar da Primeira Liga. Chegado ao SL Benfica, prolongou o sucesso do seu antecessor e depressa conquistou os adeptos. Por outro lado, Miguel Cardoso e Nuno Manta, sem que se encontrem registos alguns de terem jogado futebol a nível sénior, causam toda esta sensação e espanto ao trilharem caminhos firmes para os seus clubes. Se o trabalho de Nuno Manta no CD Feirense foi uma tarefa heróica (pegou no Feirense nos últimos lugares e não só garantiu a manutenção, como um confortável 8º lugar), o de Miguel Cardoso no Rio Ave FC é motivo de artigos, opiniões e múltiplos elogios.

Mas como todas as regras que se prezem contêm exceções… São elas Sérgio Conceição e Domingos Paciência. Coincidência ou não, os dois ex-FC Porto, são as exceções à regra no nosso campeonato. Os dois internacionais portugueses jogaram e destacaram-se num dos três grandes, gerando sempre carinho entre os adeptos. Enquanto jogador, Sérgio venceu tudo em Portugal e aventurou-se na SS Lazio, Parma FC, FC Inter, Standard de Liège e PAOK. À sua semelhança, Domingos venceu também tudo em Portugal e ainda consegui juntar o prémio de melhor marcador na época 1995/96. A sua passagem pelo estrangeiro foi mais fugaz; resume-se a duas épocas no Tenerife (16º e 19º em LaLiga) antes de regressar ao FC Porto. Já como treinador, Sérgio Conceição conduziu a Académica de Coimbra a um confortável 8º lugar e o SC Braga ao seu “habitual” quarto lugar.

Mais recentemente, e antes de assumir a “cadeira de sonho” no Dragão, passou pelo campeonato francês, pegou num dos últimos e deixou-o às portas da terceira pré-eliminatória da Liga Europa; o FC Nantes (sétimo lugar). Domingos, por sua vez, conta com passagens pela UD Leiria, Académica de Coimbra, Sporting CP, RC Deportivo de La Coruña, Kayserispor ou Vitória FC mas foi ao serviço do SC Braga e do APOEL que se destacou, embora o desempenho em todos os outros clubes seja também, de longe criticável. Conduziu os minhotos, para além de um quarto lugar, a um incrível segundo lugar e uma presença na final da Liga Europa, em Dublin. No comando técnico dos cipriotas, venceu uma liga daquele país.

Mas, como sempre, a “exportação de mão de obra” parece funcionar, no nosso país, como um selo que ateste a qualidade. E disso são exemplos, mais recentemente, José Mourinho, André Villas-Boas, Paulo Fonseca, Marco Silva ou Leonardo Jardim. Aquele que é considerado por muitos o melhor do mundo, o “Special One”, passou pelo Rio Ave FC, CF “Os Belenenses” ou GD Sesimbra sem aquele brilho das estrelas que treina hoje em dia. Mas foi nesse cargo, o de treinador, que “Mou” arrecadou todos os elogios existentes e imaginários.

Sergio Conceição tenta alçançar a glória como treinador, no clube onde teve sucesso como jogador Fonte: Instagram do FC Porto
Sérgio Conceição tenta alcançar a glória como treinador, no clube onde teve sucesso como jogador
Fonte: Instagram do FC Porto

Não teve o início desejado no SL Benfica, mas logo se provou com um sétimo posto ao serviço da UD Leiria, uma notável passagem pelo FC Porto e o percurso daí em diante, e os títulos que isso implica, fala por si; Chelsea FC, FC Inter, Real Madrid CF, regresso ao Chelsea FC e atualmente no Manchester United FC. Um dos seus pupilos, André Villas-Boas, cedo convenceu o FC Porto. Não terá sido tanto o 11º lugar da Académica de Coimbra mas talvez o futebol praticado e o discurso assertivo que o levou ao Dragão. Aí, e somente numa época, venceu tudo em Portugal e ainda a Liga Europa.

Seguiu para a Inglaterra onde não foi tão feliz; assumiu a liderança do Chelsea FC e posteriormente do Tottenham HFC, mas nunca convenceu. Assim, rumou à Rússia onde nas três épocas que lá esteve, juntou os três primeiros lugares no campeonato a uma taça e supertaça russas ao serviço do FK Zenit. Atualmente encontra-se a treinar o Shanghai SIPG, da liga chinesa.

Leonardo Jardim, Marco Silva e Paulo Fonseca tiveram passagens semelhantes entre si em terras lusas. Treinaram sem grande sucesso um grande depois de um inegável sucesso nas divisões inferiores, seguiram para o estrangeiro e não param de dar cartas. Com pouca ou nenhuma notoriedade enquanto atletas, os três jovens treinadores começaram, naturalmente, nas segunda e terceira divisões. Leonardo e Marco conseguiram subir uma equipa ao escalão principal do futebol nacional e Paulo ficou lá perto (terceiro lugar na Segunda Liga com o CD Aves).

Leonardo Jardim obteve um terceiro lugar ao serviço do SC Braga, um segundo ao serviço do Sporting e venceu o campeonato e taça grega pelo PAE Olympiacos. Mais recentemente, em França, revelou à Europa e ao mundo do futebol o seu valor; depois de dois terceiros lugares consecutivos no Mónaco, venceu a Ligue1 na mesma época em que alcançou as meias-finais da Liga dos Campeões.

Marco Silva, depois de vencer uma Taça de Portugal no Sporting CP e um campeonato também no PAE Olympiacos, ergueu o Hull City AFC e por pouco não alcançou a manutenção. O esforço foi reconhecido e admirado e nesta época vive momentos bem mais prazerosos no comando do atual sexto classificado da Premier League, o Watford FC.

Leonardo Jardim conseguiu ser campeão contra o todo-poderoso PSG Fonte: AS Mónaco
Leonardo Jardim conseguiu ser campeão contra o todo-poderoso PSG
Fonte: AS Monaco

Paulo Fonseca chegou ao FC Porto depois de um inédito terceiro lugar do FC Paços de Ferreira. A época na invicta não lhe correu da melhor forma mas soube dar uns quantos passos atrás; regressou ao clube da capital do móvel e depois seguiu para Braga onde conseguiu um quarto lugar. Recuperou os passos atrás quando chegou o convite da Ucrânia. O FC Shakhtar Donetsk, vencedor da supertaça ucraniana, é atualmente o primeiro classificado depois de na época passada ter vencido o campeonato e a taça daquele país sob o comando técnico de Paulo Fonseca.

É por demais evidente que o sucesso enquanto jogador não determina as possibilidades de se alcançar sucesso como treinador. Que pode ajudar não há dúvidas. O futebol vive muito dos pormenores e são eles que podem desbloquear uma infinidade de jogos. Por isso, todo o conhecimento do adversário e do seu reduto é necessário na preparação de um confronto, mas nem só daí se retiram trunfos. A irreverência e visão limpa de um treinador vindo, aparentemente, “do nada” causam, por muitas vezes, o desequilíbrio na partida. Quer-se cada um na sua área, a fazer aquilo de que mais e melhor percebe. Portanto, quando estamos na presença de alguém que consegue aliar as duas coisas, o caso é especial.

Foto de capa: pesmitidelcalcio.com

Diogo Pires Gonçalves

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