– O apelo do estrangeiro –

“Tinha outra opção: ir para Itália, para uma boa equipa da Serie B”

BnR: Aos 26 anos aventuras-te pela primeira vez no estrangeiro e rumas a Nicósia, para representar o Omonia. Ao lado de Alex Soares, apuram-se para o play-off de campeão, mas perdem o campeonato para o APOEL. Como é vivido o futebol no Chipre?

RL: É muito diferente da maneira como se vive em Portugal. Para começar, antes de mais, a minha vontade sempre foi ir para o estrangeiro. Quando estava no Chaves, confidenciei-o ao Presidente, porque ele queria que ficasse “Senhor Francisco, não tem a ver com o clube e dou-lhe a minha palavra que, se ficasse em Portugal, ficava no Chaves. Mas quero ir para o estrangeiro”. Precisava de um novo desafio, porque a Primeira Liga já não estava a permitir-me tirar o melhor de mim e estabelecer objetivos.

Tinha outra opção: ir para Itália, para uma boa equipa da Serie B; foi para esta equipa que tanto o Jorge Simão como o Sérgio Conceição me aconselharam a ir e era a minha primeira opção, mas percebi que são um bocadinho “mafiosos” e queriam “roubar-me”. Então aceitei ir para o Omonia. A cultura é diferente, as pessoas são mais fanáticas, mas há algo que admiro bastante e que me Portugal deixa-me triste: os cipriotas são adeptos de clubes pequenos, da terra, e não têm outro clube.

O Omonia em percentagem de adeptos é o maior; dizem que 60% da ilha é daquele clube. Notei isto logo no primeiro treino que fiz: fomos para as montanhas, onde no Verão é mais fresco, e estavam cinco mil adeptos. As pessoas iam no dia anterior, acampavam e viam o treino no dia a seguir. E atenção que ainda era a uma hora de Nicósia.

Anúncio Publicitário

BnR: Por falar em adeptos, também tens uma história menos boa naquele país.

RL: Sim! Estávamos numa fase menos boa e perdemos um clássico contra o AEK Larnaca por 5-0. Nessa semana, o treinador foi despedido e o nosso capitão avisou-nos que os adeptos iam lá. Estávamos a treinar e começámos a ouvir tipo fogo-de-artifício, petardos… “Atenção, vêm aí os adeptos, mas não reagimos e juntamo-nos ali no meio-campo”, disse o capitão. E nós tranquilos, pensávamos que vinham para aí 20/30… de repente começam a entrar pelo portão e eram para aí 150/200 e só se viam os olhos. Começaram a agarrar-nos e a separar-nos, uns para ali, outros para acolá, e foi um momento de alta tensão. Depois veio a polícia, mas eram uns dez… Foi assustador e pensei que ia dar para o torto.

Fonte: Facebook Rafael Lopes

BnR: O modelo do campeonato cipriota faria sentido em Portugal?

RL: Acho que sim e vou explicar-te: chegas a Abril e, nos últimos sete jogos, divides o campeonato em dois. Os nove primeiros disputam o play-off de campeão e os outros nove o de despromoção. Assim, evita-se que as equipas que ficam entre o 7.º e o 12.º desvirtuem a classificação final do campeonato por já não terem por que lutar nas últimas jornadas.

BnR: “O bom filho à casa torna” e, antes da derradeira experiência fora de portas, regressas ao futebol português para representar o Boavista. O que te fez voltar?

RL: Foram questões familiares. Numa consulta de rotina, descobrimos que o Francisco, o meu filho mais novo, tinha um pequeno problema cardíaco e que iria necessitar de cirurgia. Graças a Deus correu tudo bem, mas foi nesse momento que decidi voltar. Queria tê-lo feito em Janeiro, quando soubemos, mas os especialistas disseram-nos que a operação também não ia ser logo, então ainda acabei a época no Chipre. A minha vontade não era voltar a Portugal porque, quando fui para o Chipre, a ideia era manter-me no estrangeiro, mas apareceu este obstáculo. O Boavista abriu-me as portas e deu-me oportunidade de fazer lá uma temporada, que me permitiu acompanhar toda a evolução do estado de saúde do meu filho e estar presente na cirurgia. Felizmente o Francisco está bem, sem qualquer sequela ou limitação.