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A obra-mestra de Tolstói faz serventia de promoção à vida e obra d Ljubinko, figura esguia e frágil aos olhos de quem não o visse em campo. Guerra e Paz foram vividas, de perto, por um homem que se sentiu obrigado a abandonar o país que o viu nascer a troco de esperança, deixando para trás a possibilidade de vestir a camisola de um campeão europeu. O grito do Ipiranga fez-se sob o desígnio do canto do galo, que se uniu com a Fénix do renascimento em Barcelos. Pinto da Costa rapinou-o para o FC Porto, onde ganhou asas esPentaculares. 14 títulos depois, levantou voo e pousou no poleiro em construção de uma águia que ainda não cantava Vitória. Do outro lado da barricada, deitou por terra as esperanças de Bernardo Silva e companhia, percebeu o quão efémero e promíscuo é o topo e deixou um conselho a Zivkovic, o “seu craque”. Em mais um exclusivo Bola na Rede, e em bom português, eis Drulović sem papas na língua.

– Guerra e Paz –

“Não fui campeão do mundo de sub-20 no Chile porque estava na tropa”

Bola na Rede [BnR]: Zdravo, Ljubinko. Hvala što ste prihvatili našu pozivnicu. U Bola na Rede volimo da se naši gosti osjećaju kao kod kuće. [Olá, Ljubinko. Obrigado por teres aceitado o nosso convite. No Bola na Rede gostamos que os nossos convidados se sintam em casa.]

Drulović [D]: Não foi nada mau! [risos] A nossa língua é muito difícil, não é fácil de pronunciar, mas percebi tudo. Para primeira vez estiveste muito bem.

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BnR: Ainda usas a língua portuguesa no quotidiano?

D: Só quando falo com os meus amigos portugueses, porque maioritariamente falo sérvio. Mas aqui em casa tenho canais portugueses e acompanho tudo o que se está a passar em Portugal, por isso tenho contacto com a língua portuguesa através da televisão.

BnR: Façamos jus a Camões, então. Estás em Belgrado?

D: Sim.

BnR: Como é que a pandemia tem sido vivida por aí?

D: Talvez um pouco parecido com Portugal. Inicialmente foi muito complicado, desde meados de março até há bem pouco tempo, quando começaram a aliviar as restrições impostas pelo Governo. Não podíamos circular livremente, por dois ou três dias tínhamos de ficar em casa (…) mas agora está melhor: o país começou a reabrir as fronteiras e no comércio praticamente já está tudo aberto novamente e a voltar ao normal.

BnR: Esta é, desde o desmembramento da Jugoslávia, a época mais difícil para o povo sérvio?

D: Sem dúvida alguma. Ninguém esperava um vírus deste, que se transmite muito facilmente. É uma situação bastante delicada, em que ninguém sabia o que fazer no início. Mesmo em relação às máscaras, as opiniões dividiam-se. Tivemos muitos infetados, pessoas que morreram. Depois da guerra, este é o momento mais complicado.

BnR: A Eslovénia proclama a independência a 25 de junho de 1991, tinhas tu 23 anos. Como é que um jovem adulto assiste ao início de uma guerra no seu país?

D: Como a Eslovénia estava mais perto de Itália e da Áustria, e fazia fronteira com países mais ocidentais, podemos dizer que – embora tenha sido aí que começou – não tivemos grandes problemas com essa saída. Mais problemas houve na Croácia e na Bósnia… a Sérvia teve inúmeras ações económicas impostas pela União Europeia e pelos Estados Unidos da América, duas grandes forças mundiais. Tivemos muitos problemas para um país funcionar: fronteiras fechadas, aeroportos fechados… Lembro-me de já jogar em Portugal e não poder viajar diretamente para a Sérvia: tinha de ir até à Hungria e depois apanhar o autocarro até aqui. Às vezes pergunto-me como é que aconteceram aquelas situações e penso que houve muitas influências exteriores. A política é muito complicada.

BnR: Entendias o que estava a acontecer?

D: Nós percebíamos, porque sabíamos que a Jugoslávia era um país de povos diferentes, regiões diferentes e, neste sentido, foi muito fácil fazer uma guerra civil. Na minha opinião – e na da maioria do povo jugoslavo -, tudo foi feito de fora, ainda que com a ajuda de pessoas que estavam cá dentro. Depois da morte de Tito, que foi um líder pacífico e que tinha boas relações com a União Soviética e com os EUA, foi o início do descalabro. A partir daí, foi muito fácil controlar a Jugoslávia, que era um país bastante forte em termos militares. É muito mais fácil controlar pequenos países.

BnR: O futebol conseguia ser agregador num momento de segregação étnica?

D: Não creio… Quando os problemas começaram na Croácia, percebemos o que estava para vir, e tudo começou num derby entre o Estrela Vermelha e o Dínamo Zagreb, com ataques à polícia e o jogo nem chegou a terminar; foi uma situação bastante grave. Parece-me que estes ataques foram com intenção, porque um jogo de futebol, sobretudo com aquela rivalidade e com o estádio com 50 mil pessoas, teria um grande alcance. Foi aí que começou tudo.

Fonte: Facebook de Drulovic

BnR: O 1,70 m e 65 kg não te impediu de te estreares nos seniores do Zlatar Nova Varos com apenas 15 anos. No futebol, a força da técnica prevalece sobre a técnica da força?

D: É possível. Existem muitos jogadores que não são portentos físicos. Ao contrário de outros desportos em que a força é muito solicitada, no futebol qualquer pessoa pode jogar, desde que tenha jeito. No meu caso, a minha estatura era suficiente para as posições onde jogava. Se tivesse mais uns centímetros, talvez pudesse jogar um pouco mais à frente, ainda que também tenha jogado como segundo avançado. Felizmente tive a sorte de isso não ter sido impedimento, se bem que quando comecei a jogar pela primeira equipa do Zlatar Nova Varos tivesse de apresentar uma declaração médica porque ainda era muito novo. Passei pelas várias seleções até chegar à principal e só não tive sorte quando não fui campeão do mundo no Chile [Campeonato do Mundo sub-20 de 1987] porque estava na tropa, que era obrigatória; até o jogador que era meu suplente foi no meu lugar e foi campeão.

BnR: Em 1992, trocas o Rad Beograd pelo Gil Vicente, quando tinhas uma proposta do Estrela Vermelha, campeão europeu no ano anterior. A paz era a equipa em que mais querias jogar?

D: Sem dúvida. Tinha praticamente tudo acertado com o Presidente do Estrela Vermelha, mas por causa da guerra fui obrigado a sair e comecei tudo do zero, em Portugal. Por exemplo, se tivesse jogado no Estrela Vermelha um ou dois anos, era muito fácil sair para uma grande equipa da Europa, mas tive de fazer tudo de novo. Voltar a jogar bem pelo Gil Vicente para conseguir, mais tarde, sair para uma equipa grande como o veio a acontecer. Mas no futebol nunca se sabe o que pode acontecer e tive muita sorte em ter sido bem recebido em Barcelos.

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