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Antigo jogador do Boavista e do Vitória SC, Paulo Turra é, atualmente, um dos treinadores adjuntos de Luiz Felipe Scolari, tendo sido o seu braço direito no Guangzhou Evergrande e no Palmeiras. Fiel aprendiz de Felipão, que carinhosamente chama de professor, explica a importância dos treinadores adjuntos. Revela-se preocupado com a robotização que o talento do jogador brasileiro está a sofrer e fala-nos das suas ideias de jogo. Aos 46 anos, sem nunca esquecer as peripécias vividas no Porto e em Guimarães, diz ainda ter muito que aprender, mas não esconde o desejo de ser treinador principal.

– A nova peça no xadrez do Boavistão –

Bola na Rede (BnR): Vamos começar pela sua passagem em Portugal enquanto jogador. Chegou ao Boavista em 2001/2002 como é que surgiu a oportunidade de vir jogar para a Europa?

Paulo Turra (PT): Eu estava no Palmeiras no ano de 2000. Tínhamos perdido a semifinal da Libertadores para o Boca Juniors e o meu contrato com o Palmeiras acabou em junho de 2001. O Palmeiras fez-me uma proposta. Naquela época ainda existia a lei do passe. Recebi a proposta de renovação do Palmeiras. Não aceitei e fiquei a treinar em separado. Nessa altura, já sabia que tinha o Boavista a observar‑me. Um dia, o pessoal do Palmeiras chamou-me para me dizer que havia um olheiro de Portugal que me queria ver a treinar. Eu, prontamente, aceitei, porque eu sabia do interesse do Boavista. Quem estava aqui no Brasil para me ver treinar era o Jaime (Alves) que foi lateral do Boavista há muito tempo atrás. Ao sair do treino, o pessoal disse-me para ir à sede do clube, no estádio do Palmeiras. Fui lá, entrei em contacto com o meu empresário, falei com o presidente e acertámos tudo. O Boavista era o atual campeão português e tinha vaga garantida para a fase de grupos da Liga dos Campeões. Cheguei, fui apresentado e incorporei-me na equipa, que já estava a treinar.

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BnR: Vir jogar para a Europa era o seu principal objetivo?

PT: Na verdade, quando fui para o Palmeiras não tinha esse objetivo. Só que fui abrindo a mente para outras oportunidades, fui observando o futebol de mais alto nível e, por incrível que pareça, no ano em que o Boavista foi campeão e eu estava no Palmeiras, acompanhei o Campeonato Português por um canal já extinto que passava os jogos aqui no Brasil. Como estava no topo do campeonato, passavam muitos jogos do Boavista. Fui-me familiarizando com o Boavista, com a camisola axadrezada, com os comentadores a dizerem que era a sensação… Por coincidência, foi o clube para onde eu acabei por ir. Com o passar dos jogos no Palmeiras, fiquei com vontade de jogar no futebol europeu. Nas concentrações, à tarde, acompanhava os jogos da Liga dos Campeões que, naquela época, já era uma competição muito boa e que hoje é ainda mais. Isso foi aguçando a minha vontade.

BnR: Como era o Paulo enquanto jogador?

PT: Era um defesa-central muito prático. Se eu jogasse hoje, teria dificuldade. Naquela época, eu era um jogador inteligente, porque eu não tinha muita qualidade técnica, mas tinha muita raça, velocidade, bom posicionamento…

BnR: Um jogador à imagem do Boavista daquela altura…

PT: Isso! Hoje, acho que os centrais jogam muito no risco. Tanto os centrais como os guarda-redes jogam muito na roleta russa por causa dessa moda, que existe no futebol mundial, de sair a jogar a partir de trás a todo o instante.

BnR: Enquanto treinador, gosta disso?

PT: Eu gosto de sair a jogar de trás quando tenho possibilidade de o fazer sem risco. Posso sair a jogar com sucesso várias vezes, mas, se erro uma, tenho 95% de chance de sofrer golo. Temos que ter um equilíbrio nessas ações. Acompanhei o regresso do futebol português e fiquei surpreendido pela negativa com golos que nascem de erros de guarda-redes e centrais a jogarem por dentro, a quererem sair a jogar a toda a hora. Há momentos em que a bola vem e o guarda-redes tem que dominar e jogar longo, o central a mesma coisa. Por isso, acho que hoje eu teria dificuldade. Eu jogava muito seguro, prático e eficiente.

Bnr: Hoje, quando tem que decidir sobre se a sua equipa vai sair a jogar a partir de trás ou não, olha para as características dos seus jogadores do setor mais recuado e avalia se eles têm capacidade para o fazer ou depende daquilo que o adversário oferece, isto é, se pressiona alto ou não?

PT: Jogo com as duas situações. Se os meus quatro defesas, o meu guarda-redes e os meus dois trincos têm qualidade suficiente para sair a jogar, treinaria situações onde, com segurança, o pudesse fazer. Estudaria também a equipa adversária. Por exemplo, se hoje eu fosse enfrentar o Flamengo, dificilmente eu iria sair a jogar de trás. Posso até tentar, mas é uma, duas, três, à quarta vez eu vou perder a bola e, contra uma equipa como o Flamengo, tenho 99% de hipótese de sofrer golo, porque são jogadores com essa característica e têm muita qualidade. Depende muito da qualidade dos teus jogadores, mas também das características e qualidade dos jogadores adversários.

Bnr: O Paulo Turra treinador contrataria o Paulo Turra jogador?

PT: Contrataria! O Paulo Turra jogador, na sua boa fase, tinha, como disse, muito bom posicionamento, jogava sempre sério, com responsabilidade, tinha boa velocidade e tinha bom jogo aéreo. Hoje, dificilmente vemos se um defesa-central é bom cabeceador ou não, porque o futebol mudou um pouco. Eu dou-te um exemplo, o Campeonato Alemão. O jogar deles é protocolar. A defesa, independentemente do adversário, joga em bloco alto. Bola longa nas costas da defesa e o atacante, de frente e com mais velocidade, normalmente, que os defesas, e é golo a toda a hora. Então, hoje, não tens condições de ver se um central tem bom cabeceamento ou não, exceto nas bolas paradas, principalmente nos cantos, mas é difícil. Não tenho dúvida nenhuma, eu contrataria o Paulo Turra e, ao mesmo tempo, fazia-o evoluir em lances em que ele chutava para a frente por chutar. Ensinava-o a direcioná-la.

Bnr: Se se tivesse que comparar a um jogador da atualidade, qual seria?

PT: Gustavo Gómez, que foi nosso defesa-central no Palmeiras. Ele tem mais qualidade do que eu, mas em termos de raça, determinação, recuperação… eu comparo-me muito a ele.

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