Confesso que não gosto de comentar as discussões ou polémicas que assolam o futebol português, sobretudo as que envolvem clubes que não são o meu. Ainda assim, por mais que se queira dar apenas atenção ao que se passa dentro das quatro linhas, é impossível ficar indiferente ao comunicado emitido, na passada semana, pelo presidente do SC Braga, António Salvador, sobre a transferência falhada do jogador Guilherme Schettine do Santa Clara para o clube arsenalista. Trata-se, pois, de uma tomada de posição dura e com graves contornos acusatórios por parte do clube minhoto perante o SL Benfica, sem precedentes. No entanto, também não deixa de ser um “lavar de roupa suja” que, além de despropositado, só prejudica a sua imagem.

Vamos por partes:

No referido comunicado, Salvador queixa-se de que “O futebol português transformou-se num teatro de marionetas”. Não se “transformou”, sempre foi e ele sabe bem disso. Como também sabe que as marionetas sempre foram as mesmas.

É certo que o SC Braga tem procurado assumir uma maior responsabilidade desportiva tanto em Portugal como na Europa. No entanto, nunca teve, talvez porque nunca lhe foi possível, apresentar-se como uma figura de independência. É que qualquer clube português que não faça parte dos “Três Grandes” tem dificuldade em conquistar a sua independência sem sofrer influências do espectro dos clubes dominantes. Essa é, desde logo, uma das principais características de um campeonato absolutamente desequilibrado como o é o campeonato português. Basta ver a desproporção a nível de pagamentos de valores pelas transmissões televisivas aos Três Grandes e aos restantes clubes. O Santa Clara, por muito respeito que tem e merece, é apenas mais um peixinho “Nemo” a nadar no meio dos tubarões.

O SC Braga não foi uma excepção a esta doença crónica das marionetas do futebol português. Aliás o clube minhoto foi um “compagnon de route” do SL Benfica nas várias posições assumidas pelo clube da Luz contra os seus rivais nas últimas temporadas.  O SC Braga tenta, agora, desfraldar uma bandeira de independência, mesmo com uma visível aproximação ao FC Porto. Ora para o mais comum dos adeptos de futebol, paira aqui uma incoerência flagrante.

Convirá não esquecer que há não muitos anos atrás, o mesmo SC Braga presidido por António Salvador vendeu Rafa ao SL Benfica por um preço inferior ao que havia exigido ao FC Porto que também estava na corrida pelo jogador português. Veja-se, mais recentemente, o caso de Dyego Sousa que dispensa considerações…

 

Guilherme Schettine formou-se no Athletico Paranaense
Fonte: site oficial do Club Athletico Paranaense.

Quanto ao negócio em causa… Quem é Guilherme Schettine? É um jovem avançado móvel que apresenta várias soluções na frente de ataque, tendo marcado 7 golos na época passada ao serviço do Santa Clara. Independentemente das motivações que possam levar o SL Benfica a querer a contração deste jogador, creio que se o mesmo não tivesse um mínimo de qualidade jamais despontaria qualquer interesse por parte do clube encarnado. Porventura pode até vir a ser um recurso de baixo custo que já deu provas no campeonato português, contrariamente a jogadores como Castillo e Ferreyra que custaram muitos e muitos milhões e nunca lograram afirmar-se na Luz.

Por outro lado, a diferença para menos de meio milhão de euros da proposta do SL Benfica poderá aceitável para o Santa Clara se tivermos em conta cláusulas de empréstimo do jogador em causa ou de outros jogadores, eventuais acordos para futuras transferências ou negócios feitos no passado. Não esqueçamos que o Santa Clara já beneficiou e muito de jogadores provenientes do SL Benfica como Patrick e Fábio Cardoso.

Posto isto, e não querendo, de todo, tomar o partido de qualquer um dos intervenientes neste caso, parece-me que o comunicado do SC Braga não é mais que um alarido revelador de frustração por um negócio falhado. Se o jogador em causa era tão imprescindível para o SC Braga e se o próprio jogador pretendia jogar no SC Braga (como alega António Salvador), então por que motivo o SC Braga não “acrescentou” meio milhão de euros à sua proposta inicial e não “bateu” a cláusula de rescisão de dois milhões de euros do jogador?

Mais séria é a alegação feita pelo SC Braga no aludido comunicado de que o Santa Clara foi vítima de coação por parte do SL Benfica e que certamente terá que provar. E como reagirá o clube encarnado a esta acusação grave? Será que irá instaurar contra o SC Braga um processo criminal por difamação, à semelhança do que tão prontamente fez contra o Sporting CP durante a era de Bruno de Carvalho?

Fonte: CD Santa Clara

Revisto por: Jorge Neves

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