Nem 20.000, nem 200, nem dois. Portugal não terá adeptos nas bancadas dos seus estádios nas dez jornadas que faltam para se jogar esta temporada. Mais do que uma decisão caricata, é uma decisão completamente infundada quando temos uma súbita política que apela ao regresso à normalidade. Praias, lojas ou restaurantes estão abertos sem quaisquer condicionantes, mas estádios de futebol, que são ao ar livre e que têm todas as condições para se fazer um distanciamento social entre adeptos, permanecerão fechados.

“A melhor equipa de um jogo de futebol é o adepto”. Quem o diz é Manuel Cajuda, um homem que dispensa qualquer tipo de apresentação. O adepto tem uma importância capital num jogo de futebol por toda a carga emocional que transporta para o jogo. Futebol é paixão, é emoção e o adepto é o grande responsável, atualmente, pela manutenção desses valores num futebol cada vez mais monopolizado pelo negócio e pela política. Ver futebol sem adeptos é o mesmo que comer uma francesinha à moda do Porto sem molho. Torna-se insípido porque se sabe que falta ali alguma coisa.

Na quantidade de decisões que a Liga e a Federação tomaram, toda a gente constatou uma série de incongruências e de incoerências face aos mais variados temas em discussão: em quatro líderes subiram dois (Campeonato de Portugal), subiram e desceram equipas porque tinham mais pontos quando faltavam dez jogos para se disputar (Segunda Liga), fez-se uma reformulação dos quadros competitivos no futebol feminino, enfim. Toda uma série de medidas infundadas e sem nenhum cabimento lógico para quem quer proteger o futebol enquanto desporto. Não há jogo sem jogadores, mas não há futebol sem adeptos.

O adepto, para além do valor incalculável, em termos simbólicos, que representa, tem também um peso muito importante na vida de um clube de futebol. A quotização dos clubes, a venda de lugares anuais ou camarotes, as receitas de bilheteira e de merchandising, as excursões para os jogos fora de casa… Tudo isto representa uma fatia valiosa nos orçamentos dos clubes. Sem este dinheiro a entrar, naturalmente que os clubes, mesmo que estejam em competição e a receber a sua quota parte das operadoras televisivas (migalhas no que diz respeito à esmagadora dos clubes), vão passar muitas dificuldades.

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O que será então dos clubes da Segunda Liga, do Campeonato de Portugal e dos Campeonatos Distritais? Sem competição, sem receitas a nível de nada, com patrocinadores a fugirem, o futebol do povo morre um pouco mais a cada dia que passa. E não se vislumbra nenhuma figura de entre os dirigentes que tutelam o futebol com vontade e coragem de tomar as ações certas para ajudarem os clubes, e defenderem o adepto.

Fonte: Bola na Rede

Nunca vi o adepto em Portugal ser verdadeiramente defendido. Surgiram, aqui e ali, algumas ações esporádicas de criação de alguns movimentos ou sindicatos que protegessem o adepto que vai ao estádio (e não o chamado adepto de sofá), mas a verdade é que nunca tiveram força política nem negocial para serem verdadeiramente importantes dentro da estrutura do futebol português.

A ideia do Movimento Estádio Zero, criada por associados do Vitória SC, foi a última das quais a ser vagamente difundida, mas essencialmente na comunicação social local. A ideia consistia no abandono dos associados do clube ao minuto 12 de um jogo contra um dos chamados grandes do futebol português, no sentido de demonstrar desagrado não para com o clube, mas sim para com quem manda no futebol e para com quem pretende que só três clubes existam no nosso país.

Movimentos destes, que são fraturantes, mas que agregam pessoas, precisam de ser escutados, precisam de ser debatidos e postos em prática. O adepto que vai ao estádio, que come a sua bifana, que paga as suas quotas e que apoia o seu clube merece ser respeitado. Fechar o estádio ao adepto, mas abrir praias e cinemas é uma falta de decência e de dignidade para com quem ajuda a pagar os salários dessas pessoas que decidem.

Jogar em casa sem adeptos não é jogar em casa na verdadeira acessão da palavra. Jogar no Estádio D. Afonso Henriques com o calor humano e fervor entusiástico dos vitorianos não é a mesma coisa que jogar com ninguém nas bancadas. E isto tanto vale para quem joga em casa, como para quem joga fora de casa. Nenhum jogador no mundo quer jogar sem que o seu trabalho seja visto e julgado na hora, seja com aplausos, seja mesmo com assobios.

Muitos criticam os atos hediondos e impróprios que algumas claques praticam e que têm obviamente de ser punidas, mas alguém imagina um jogo de futebol sem cânticos, sem cartolinas ou sem bandeiras? Isso é o que dá a verdadeira magia a um jogo de futebol. Toda a criatividade, originalidade e capacidade que o adepto tem, semana após semana, de incentivar a sua equipa. Mais ou menos entusiastas, mais ou menos representativos, todos os clubes precisam do seu público. Jogar sem adeptos tornará os jogos que à primeira vista seriam muito mais complicados, porque determinada equipa no seu estádio era fortíssima pelo apoio dos seus adeptos e pelo ambiente hostil para os adversário, em jogos completamente imprevisíveis, porque não há esse fator decisivo em campo.

A comunicação social portuguesa tem também a sua quota parte de responsabilização neste fenómeno, da mesma forma que a tem em toda a regressão a que o futebol português tem sido sujeito. A esmagadora maioria da comunicação social portuguesa, mais ou menos mediática, não tem nenhum interesse em dar a voz ao adepto. Porque parece parolo, porque não sabe o que diz, porque só quer incendiar. É precisamente isso que acontece nos programas televisivos de segunda a domingo, com três pessoas que não falam de futebol, que não falam do jogo, que não falam de nada a não ser de casos de arbitragem e que fazem uma espécie de caça ao mais corrupto. Esses não são adeptos de futebol. São adeptos do seu clube, à custa de tudo.

Com a quarentena, entre todas as decisões descabidas e entre todo o circo mediático que se gerou à volta do futebol, algo de bom surgiu. Programas nas redes sociais que falam do jogo, que falam com os intervenientes do jogo e que dão voz ao jogador e ao treinador. Mas há um programa, no âmbito do tema trazido para hoje, que merece todo o destaque. A página Quarentena do jornal A Bola de Rémulo Jónatas teve a inteligência de criar um espaço em que é dada a voz ao adepto e, para quem acompanha, pode constatar que o adepto deve ser ouvido com toda a seriedade e toda a atenção. Muito do que mencionei neste artigo é partilhado por adeptos de todo o país, que sabem falar e sabem debater os problemas olhando-os de frente. Infelizmente, o adepto não tem o poder necessário para fazer chegar a sua visão aos órgãos decisores ou executivos.

Num momento de instabilidade diretiva na Liga de Clubes, com uma Federação mais preocupada em apagar fogueiras acendidas pelos três ditos grandes, do que em apagar um incêndio de problemas verdadeiramente preocupantes que vão abalar clubes da Segunda Liga e por aí abaixo, o adepto é o verdadeiro prejudicado no meio disto tudo. Não acredito que algum adepto queira ver a sua equipa jogar de três em três dias, porque sabe perfeitamente que o futebol não funciona assim, seja em termos de metodologias de treino seja nos planos de recuperação e preparação de jogos. Agora o adepto que nunca foi a um estádio, que gosta de ver o futebol no sofá como se estivesse a assistir a uma série e que nunca contribuiu em nada para o crescimento da modalidade, esse sim, estará contente porque vai ter bola todos os dias.

O que vai acontecer em Portugal a partir da próxima semana será acima de tudo um espetáculo deprimente, feito para agradar dois clubes que querem ser campeões e um outro que não quer perder o seu terceiro lugar para um “intruso” à hierarquia do poder da clubite no futebol português.

“Nós nunca vemos na TV, largamos tudo para te ver”. Estes adeptos, que entoam cânticos que são enaltecidos pela paixão que demonstram, merecem respeito e merecem tudo aquilo a que têm direito: o futebol puro, o futebol da paixão, o futebol da comunhão entre jogadores, treinadores e adeptos. Futebol sem adeptos, não é futebol. Ponto.

 

Artigo revisto por Joana Mendes

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