Cabeçalho Futebol NacionalOlá, pai. Vi com enorme orgulho mais uma bela exibição do teu Belém no passado sábado. Conseguiste rapidamente montar uma equipa bem equilibrada e capaz de se bater em qualquer jogo do nosso campeonato. Espero que seja sempre a subir, pai.

O meu Setúbal é que não se portou lá muito bem. Andamos a fraquejar um pouco. Já falam até na saída do mister. O jogo de sexta-feira foi bem complicado. Estamos um pouco em baixo, mas com alguns regressos acho que poderemos voltar a demonstrar a nossa qualidade e fazer uma época tranquila. Assim espero.

Este ano estava e ainda estou com grande fé. Este tem de ser “o ano”, pai. Sei que ainda só tenho 23 anos. Mas já são alguns anos “por aqui”. Está na hora. Sabes que acredito muito no meu trabalho. Sei que também acreditas e isso dá-me mais força ainda.

Sei que não tenho as tuas características, mas tenho características que por não serem muito comuns nos avançados nacionais, são, ao mesmo tempo, alvo de mais atenção por um lado, mas também de menos crédito por outro. Mas estou preparado para isso. Estou preparado para quase tudo pai. Alguns chamam-me lento. Outros dizem que devia ser mais concretizador tanto com os pés, como no jogo de cabeça. Outros ainda que eu devia era ver como era o Domingos Paciência a facturar. Acho que estão a falar de ti!

Nunca quis viver à tua sombra. Nunca sonhei ser melhor que tu. O meu objectivo é jogar porque assim sou feliz. Quero evoluir, mas nunca vivi obcecado em ser melhor que tu. Agradeço ainda nunca teres criado essa pressão em mim, porque eu também não a criei.

Anúncio Publicitário

No entanto, mesmo que inconscientemente, sei que essa pressão existe. Mesmo que ínfima, as pessoas têm sempre essa expectativa: “deixa lá ver se o puto sai ao pai.” Até talvez eu tenha esse sentimento bem escondido em mim. Talvez isso faça com que as chuteiras tenham mais 100 gramas cada uma. Ou que os calções tenham algo nos bolsos que os faz ficar ligeiramente mais pesados. Para o bem e para o mal, o meu apelido é igual ao teu, e isso, obviamente, não é um pormenor.

“É preciso paciência!” – Oiço esta piada muitas vezes, pai. Para além de não concordar com ela acho-a tão irritante quanto aqueles defesas que passam os jogos a fazer jogo sujo connosco, sem que seja perceptível para o árbitro. Não quero ter paciência. Quero partir isto tudo. Quero rebentar com as redes adversárias. Quero fazer golos atrás de golos. Quero ir à selecção. Quero dar mais autógrafos do que dou.

Domingos Paciência, em pleno Estádio da Luz, a orientar o Belenenses, onde haveria de ver a sua equipa ser goleada por 5-0 pelo actual campeão nacional Fonte: Getty Images/NurPhoto
Domingos Paciência, em pleno Estádio da Luz, a orientar o Belenenses
Fonte: Getty Images/NurPhoto

Às vezes revejo imagens tuas e penso: eu gostava de viver estas emoções. Eu gostava de ter um estádio repleto a aplaudir-me de pé. Mais de 100 golos. Sete campeonatos, mais duas taças e uma data de supertaças. É um orgulho ser teu filho, tanto pelo ser humano que és, como pelo facto de ainda hoje seres “amado” por uma cidade inteira. Todos te conhecem. E eu quero ser para sempre o filho do Domingos Paciência, mas também quero ser um bocadinho mais o Gonçalo Paciência.

Nem sei bem porque decidi escrever-te, pai. Talvez porque senti a necessidade de te dizer que anseio pelo dia em que eu serei o teu ponta de lança titular. Já imaginaste? Eu na frente de ataque e tu no banco de suplentes a dar ordens, num Estádio do Dragão a rebentar pelas costuras? Ao contrário do que dizes, acho que uma situação como esta poderia ser possível de acontecer, e não teria de haver nenhum tipo de “mau estar” com o restante grupo de trabalho.

Sei que a tua relação com um plantel é sempre pautada pela honestidade e o realismo como gostas de frisar, e comigo aconteceria o mesmo. Mais: fica com a certeza que eu seria o primeiro a dizer-te para não me colocares de início, sempre que sentisse que não estava a 100% ou que alguém merecia mais do que eu.

Poderia ter tentado dizer-te tudo isto pessoalmente, mas provavelmente dirias que as coisas acontecem quando têm de acontecer. Que a seu tempo tudo chega. E então eu iria abanar com a cabeça que sim, tens razão, e não te iria transmitir metade do que penso. Do que quero; do que anseio e do que preciso para estar plenamente feliz.

P.S.: Acabei de saber que o mister me convocou para a selecção. Que alegria, pai. Que orgulho! Este tem de ser o meu ano…

 

Um grande abraço, pai

Até breve,

O teu filho Gonçalo

 

Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência

Foto de Capa: Facebook Oficial de Gonçalo Paciência

Artigo anteriorMal menor
Próximo artigoEclipse Óliver
O Tiago é um apaixonado pela vida, pelas pessoas e também por tudo o que rodeia o desporto em geral e o futebol em particular. Assim, tenta expressar as suas emoções e vivências da melhor forma que julga conseguir fazê-lo: por palavras escritas.                                                                                                                                                 O Tiago não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.