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O currículo de Carlos Azenha como treinador de futebol está vazio desde 2015. Aos 54 anos, vive no Dubai, onde se dedica aos seus negócios. Mantém-se, porém, sempre ligado o desporto rei. Treinador adjunto de grandes nomes do futebol português, passou pela China, Egito e Emirados Árabes Unidos. Mas a sua passagem para técnico principal ficaria marcada pelo insucesso desportivo e por episódios polémicos. Na memória, ficaram as batalhas com Jorge Jesus, dentro e fora do campo, que acabariam na barra dos tribunais. Ao Bola na Rede, Carlos Azenha deu uma entrevista de carreira onde abordou o passado, o presente e o futuro. Sem “papas na língua”. Como é seu timbre.

«Cada vez mais o treinador manda menos. O futebol português é um dos piores exemplos que temos disso»

 

Bola na Rede: Olá, Carlos Azenha. Obrigado por teres aceitado falar connosco. Há muito tempo que não te vemos a liderar uma equipa. Por onde tem andado o Carlos Azenha?

Carlos Azenha: Não tenho treinado porque estou há cinco anos fora do país. Estive em Inglaterra, praticamente três anos, e agora estou no Dubai, há quase dois, desde abril de 2019. Mas continuo com negócios ligados ao futebol e também outros, pessoais.

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Bola na Rede: E treinar uma equipa, neste momento, não está nos teus horizontes?

Carlos Azenha: Está, seguramente, mas, infelizmente, a minha situação contratual tem uma cláusula que não permite fazê-lo e que só termina em dezembro deste ano. Por isso, a voltar ao futebol só posso fazê-lo no início de 2022.

Bola na Rede: E como é que alguém que está há cinco anos sem treinar vai depois reintegrar o mercado? Manténs-te atualizado?

Carlos Azenha: São cinco anos, mas não são cinco anos completamente afastado do futebol, continuo também a trabalhar no futebol – apesar dos outros negócios que tenho em simultâneo. Acompanho, essencialmente, todo o futebol a nível mundial. Durante estes anos, tive a oportunidade de ver muitos jogadores, observar muitos jogos, a realidade por dentro de alguns clubes, e hoje tenho uma noção muito mais abrangente do futebol para além do que é ser treinador de campo, mas também percebo a parte da gestão de ativos e como se podem rentabilizá-los. A partir do início do próximo ano vou, naturalmente, tomar a opção se regresso ou não à função de treinador. Por um lado, tenho a paixão do treino e gosto do jogo em si. Por outro, sei que o futebol está numa mutação extremamente grande e, neste momento, já não me identifico com muita coisa. Se começarmos a olhar para a lista de grandes treinadores que estão hoje sem trabalhar, a forma como os dirigentes gerem o futebol, como o futebol é visto, estamos, não só a falar de um negócio – e o futebol sempre foi um negócio –, mas um negócio onde, antes, importava acima de tudo a competência dos seus profissionais: tínhamos o treinador que liderava o processo de equipa, o diretor desportivo tinha uma determinada função, o presidente outra, os empresários começaram a aparecer com uma determinada função mas, hoje, já é outra. Hoje, os jogadores têm de rodar constantemente para se poder movimentar o dinheiro, portanto, o futebol, além de um negócio, passou a ser também um mercado em que a rotação é obrigatória, onde os empresários têm um poder muito grande sobre os clubes, porque a maior parte dos clubes estão dependentes de vendas. O futebol português é um dos piores exemplos que temos disso. Cada vez mais o treinador manda menos. O seu espaço de intervenção é cada vez menor, despede-se o treinador com uma grande facilidade… Hoje, contrata-se sem critérios. O treinador é contratado porque achamos que deve ser aquele, mas é uma decisão que não é baseada num estudo, num trabalho. E devia ser. Até porque quando olhamos para o futebol como uma indústria, uma máquina de fazer dinheiro, quando se o futebol é gerido como uma empresa, então temos de escolher os melhores profissionais. Portanto, é um contra-senso. E depois há ainda outros problemas, como o facto de tudo o que está à volta do futebol – comentadores, jornalistas, uma panóplia de atividade que dependem do futebol –, isto vai chegar uma altura em que esta gente toda vai ter de se sentar à mesa, para se debruçarem sobre o futebol, pois estão constantemente a dar tiros nos próprios pés. É a mesma coisa se os comerciais da Coca-Cola andassem constantemente a falar mal da Coca-Cola. Havia de chegar um dia em que a Coca-Cola já não iria vender.

Bola na Rede: Estamos a falar do ambiente que se vive à volta do futebol. Essa é uma das razões que pode travar o teu regresso como treinador?

Carlos Azenha: Vamos lá analisar as coisas. Olhamos para o futebol português e quantas “chicotadas psicológicas” já houve este ano? Sete ou oito… Repara que temos este paradoxo. Um treinador saiu de um clube e foi para outro. Desse, saiu e depois foi para outro. Quer dizer, em qual dos três é que ele é competente e em qual dos três não é? Nós temos de repensar o futebol todo. Ele não é exequível como o temos neste momento, ponto final, paragrafo. E as pessoas andam a empurrar os problemas para a frente com a barriga. Podemos reestruturar campeonatos, fazer muita coisa, mas o problema está na base, na forma como pensamos a modalidade. E se o futebol é para ser um negócio, vamos pensar em duas coisas muito importantes: primeiro, não vale a pena termos equipas que não reúnem condições para ter adeptos no estádio, nem condições financeiras para cumprirem os seus orçamentos, nem para dar espetáculo ou dar competitividade… Temos de pensar nisto tudo. Vamos ter de reestruturar isto tudo. Tiramos o Benfica, FC Porto e Sporting, direi ainda um Sp. Braga e um V. Guimarães… e quais são as equipas que metem adeptos no estádio?

Bola na Rede: Mas esses são problemas antigos do futebol português, que estão bem identificados. Ainda este ano tivemos os casos do Vitória de Setúbal e do Desp. Aves, que foram despromovidos do futebol profissional precisamente por não reunirem condições para cumprirem os seus compromissos. Que soluções podemos ter para o futebol?

Carlos Azenha: O problema não é Vitória de Setúbal ou o Desp. Aves. Não podemos ver o futebol apenas por uma questão financeira. O problema é estrutural, temos de ver o problema do ponto de vista da competitividade do campeonato. A pergunta que faço é a seguinte: Portugal tem capacidade para ter 36 equipas profissionais? Então, se tem, vamos definir critérios para se ser profissional. Se calhar, pouco importa ter um campeonato com equipas para descer. Eu preferia ter um campeonato com 20 equipas com condições. Veja-se o exemplo da NBA. Não subidas nem descidas de divisão. Isso não existe. Existem equipas competitivas, cada uma tem de cumprir um conjunto de critérios obrigatórios para participar na competição, como o orçamento. E toda a gente tem de jogar para o espetáculo – e isso é jogar sempre para ganhar. Nesse caso, não adiantaria jogar para o pontinho, porque a equipa já saberia que não iria descer. Queria ganhar os jogos todos e isso seria muito mais espetacular e, sobretudo, daria muito mais interesse para quem assiste. Assim, tornaríamos o futebol muito mais equilibrado, porque se uma segunda divisão tivesse como função principal fornecer as equipas da primeira e as equipas da primeira que ficassem no fundo da tabela tivessem prioridade sobre esses jogadores, as equipas que ficariam em último teriam a oportunidade de ter os melhores jogadores da formação. Mas quem diz isto, diz outras coisas. Temos de pensar que o futebol está a evoluir e a sociedade também, por isso, não faz muito sentido continuarmos a pensar no tempo do antigamente. Não há condições para um país como o nosso ter, por exemplo, em Lisboa, Benfica, Sporting, Belenenses, Atlético, Estrela da Amadora… quer dizer, não há condições para termos esta gente toda. Vamos acabar com estes bairrismos e vamos criar critérios para participar nos campeonatos principais. Importante era é que o país tivesse todo representado, com as suas regiões. Por exemplo, em vez de Tondela e Académico de Viseu, se calhar, era melhor haver só uma equipa do distrito de Viseu, mas muito mais forte. Na Madeira a mesma coisa. Se calhar, não faz sentido termos Marítimo, Nacional e U. Madeira.

Bola na Rede: Mas isso seria desconstruir toda a lógica em que está assente o futebol português quase desde a sua fundação…

Carlos Azenha: Não se trata de desconstruir. Olhamos para o jogo e vemos que ele já não tem nada a ver com o que era antigamente. Também nascemos sem computador e sem telemóvel. E o que fazemos agora? Voltamos ao antigamente, voltamos a escrever nos papéis? As pessoas têm uma grande dificuldade em sair da sua zona de conforto e de perceber as tendências evolutivas que a sociedade tem e que a modalidade desportiva, neste caso o futebol, também tem. E se não percebermos essa evolução, não vamos conseguir nunca dar um passo em frente. Veja-se o exemplo da Alemanha. Na Alemanha, temos primeira e segunda divisões com estádios cheios. Em Inglaterra, temos estádios cheios. Nós não. Lembro-me de ir jogar a Leiria, na primeira divisão, e tinha 50 pessoas nas bancadas, 50 bilhetes de convidados. O que é um estádio com 50, 100 ou 200 pessoas? Nós temos estádios que são autênticos “monos”. Fizemos o Euro 2004 e, agora, os estádios estão às “moscas”… Algarve, Leiria, Aveiro e por aí fora. Pergunto: se acabassem as receitas televisivas como é que o futebol sobreviveria? Acabava! Então, temos de parar para pensar, mudar mentalidades, acabar com os bairrismos… Se isso não acontecer, mais cedo ou mais tarde a maior parte dos clubes vai desaparecer. Se isso não acontecer vamos continuar a apelar a árabes, chineses, brasileiros para comprarem os nossos clubes. E onde é que está o bairrismo nessa altura? O futebol inglês, hoje, a maior parte dos clubes, são propriedade de investidores, que olham para o futebol inglês como um negócio, mas, acima de tudo, uma máquina que gera o espectáculo, para que o negócio possa ser rentável. E nós não o fazemos. Nós dividimos para reinar, olhamos para o futebol nacional como quintais. E isto não pode ser visto como quintais, mas como um todo. Temos de tomar as decisões que são benéficas para todos, pois todos nós vivemos do futebol.

Bola na Rede: E como é para um treinador trabalhar em Portugal, desta forma, com consciência dessa dependência financeira que os clubes têm? Como referiste, os jogadores estão sempre a rodar. Os treinadores sabem que, a qualquer momento, podem perder os melhores elementos.

Carlos Azenha: O que é importante, primeiro que tudo, é criar condições para que não impere a anarquia que existe atualmente no que diz respeito aos empresários do futebol. Quando temos empresários que são “donos” de jogadores e têm interesse em rentabilizá-los, o que acontece? Gera-se aqui um conflito de interesses. Se o jogador não joga o empresário diz logo: “Não te preocupes, daqui a pouco esse treinador sai ou pego em ti e vou pôr-te noutro lado para jogares”. Quando começam a subverter aquilo que são as regras… Em nenhuma empresa podemos dar-nos ao luxo de dizer: “– Olha, hoje não trabalho!”. As pessoas têm de se sujeitar. Não podemos é, hoje, dizer uma coisa e, amanhã, outra. É precisa criar normas e critérios que sejam benéficos para todos os agentes ligados ao futebol. E nós temos de perceber – todos os que vivem do futebol – que a primeira coisa que se tem de fazer é tornar o futebol o melhor possível para que se torne o produto mais vendável possível.

Bola na Rede: E há espaços para todo? Noto nas tuas palavras críticas a alguns empresários e à forma como atuam. Do ponto de vista do Carlos Azenha, o empresário é indispensável no futebol atual?

Carlos Azenha: O empresário é importante, porque consegue abrir portas a determinado tipo de jogadores. Mas tem de ter umas regras diferentes, não é? Porque senão, vamos criar um grande fosso entre aqueles que têm um grande poderio financeiro e os que não têm. Os clubes pequenos vão acabar por não ter condições para comprar jogadores. Temos de começar a olhar para o futebol de forma diferente. Não podemos ter os clubes grandes a comprarem 30 ou 40 jogadores e a metê-los a rodar nos outros clubes… isto não tem pés nem cabeça. Desvirtua totalmente a realidade do futebol. E há os casos do Vitória de Setúbal e outros que ainda desvirtuam muito mais. Temos clubes que não pagam e há outros que não podem contratar jogadores porque querem honrar os seus compromissos e, por isso, apenas vão até um determinado limite. Outros estão-se a borrifar para isso e contratam para depois não pagar. E é a mesma coisa com os treinadores. Os treinadores são despedidos e depois têm de chegar a um acordo com o clube que os despediu, senão, já não podem ir para outro lado. Isto não tem lógica nenhuma, quer dizer, isto é uma questão de medo. E depois ainda temos toda uma imprensa – e, infelizmente, muitos colegas meus têm muita dificuldade em assumi-lo por receio, mas eu digo as coisas que acho que devem ser ditas –, temos um conjunto de pessoas que falam sobre futebol… (pausa) Eu vejo nos programas televisivos a facilidade com que os jornalistas perguntam aos treinadores se eles têm condições para continuar a trabalhar. Isso é muito comum. “– Você acha que tem condições para continuar?”. Por exemplo, o que está a acontecer este ano com o Jorge Jesus. Quando se vai buscar um treinador vai-se buscá-lo com base em alguns conceitos e pressupostos. Então, mas ao fim de algum tempo já não presta? Eu como treinador podia ir à televisão e dizer aos pivôs da TVI, da SIC ou da RTP que todos os anos um ou dois deviam ir para a rua… Então? Se concorrência está a ganhar os shares de audiência dois também não têm condições para trabalhar, não é? Porque é que fazem isso aos treinadores de futebol e eu não posso ir fazer isso aos pivôs das TVs? Ou aos apresentadores dos programas da manhã ou da tarde? Eu nunca vi a nenhum deles ser colocada essa hipótese.

Bola na Rede: Mas achas que estas perguntas – que são, de facto, habituais – têm assim tanto impacto? Achas que influenciam quem toma decisões nos clubes?

Carlos Azenha: Eu tive um único dirigente, ao longo da minha carreira, que tinha uma postura diferente e essas coisas pouco lhe aqueciam ou arrefeciam. Foi o Pinto da Costa. E, por vezes, quando mais assobiavam era quando ele renovava com o treinador por mais um ano. Demonstrava, claramente, o que é ter alguém ao seu lado, em quem acredita, em quem confia no seu trabalho. Repara no exemplo do Fernando Santos. O Fernando Santos deve ter sido o treinador da história do FC Porto que menos sucesso teve. No entanto, o presidente ficou com ele três anos porque acreditava no profissional e no homem. E, se não me engano, em três épocas só ganhou um campeonato e duas taças [e ainda duas Supertaças]. É um bom exemplo. Mas, agora, até o FC Porto, mesmo tendo uma estrutura profissional das mais avançadas, reconhecida por toda a gente – e toda a gente que lá passou tem essa noção –, também começa a ficar refém da influência que os empresários têm sobre os jogadores, do negócio que se gera à volta disso tudo, e depois fica tudo refém das receitas. Porque não têm outra alternativa, não se conseguem reinventar as coisas. Os clubes portugueses ainda não perceberam que juntos são mais fortes… Repara no caso dos direitos televisivos. Os direitos televisivos serem negociados em separado é uma estupidez atroz. A força que têm todos juntos, não é a mesma que tem um clube. Isto, normalmente, favorece quem está para além dos clubes, como as grandes operadoras. Essas são as mais favorecidas. Negoceiam em privado com os grandes, fecham com os grandes, e os outros têm que ir a reboque, nem têm expressão. Eu ainda não consigo perceber, por exemplo, como é que uma equipa que é campeã nacional não recebe um prémio monetário. Então? Ser campeão não tem de ser premiado. O indivíduo que ganhou Roland Garros não ganha dinheiro? O clube campeão não tem de receber da Liga ou da Federação? Não tem de se incentivar? Tem de se premiar quem ganha! Em qualquer empresa ganha-se em função dos objetivos que se tem.

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O João já nasceu apaixonado por desporto. Depois, veio a escrita – onde encontra o seu lugar feliz. Embora apaixonado por futebol, a natureza tosca dos seus pés cedo o convenceu a jogar ao teclado. Ex-jogador de andebol, é jornalista desde 2002 (de jornal e rádio) e adora (tentar) contar uma boa história envolvendo os verdadeiros protagonistas. Adora viajar, literatura e cinema. E anseia pelo regresso da Académica à 1.ª divisão..                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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