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Ponto prévio: sou adepto do patriotismo. Admito que gosto de defender aquilo que é nosso, mesmo quando os argumentos são escassos. Por isso mesmo, sempre fui pró-Ronaldo, mesmo quando o internacional português estava a milhas da produção de Lionel Messi. Mas agora os tempos são outros. Ronaldo reina em Portugal, tem o mundo a seus pés e conta com uma legião de fãs cada vez mais forte e entusiasta.

No entanto, e como em tudo nesta vida, há sempre a tendência para se cair no exagero. De admitirmos como factos coisas que, se calhar, nem serão assim tão lineares. A conversa é cada vez mais recorrente e começou a ser reforçada, com insistência, no momento em que Cristiano Ronaldo ultrapassou Eusébio na lista de melhores marcadores da seleção nacional portuguesa (o madeirense soma 52 golos em 118 jogos contra os 41 golos em 61 jogos de Eusébio). Desde esse instante que começou uma campanha – algo desrespeitosa, diga-se – contra a antiga glória do futebol nacional. Os últimos tempos em vida de Eusébio foram sempre marcados pela constante abordagem de vários jornalistas e adeptos portugueses que teimavam em demonstrar que Cristiano Ronaldo já seria o melhor e que Eusébio já estava ultrapassado. O “King”, naturalmente, procurou defender-se da campanha montada, mas o mal já estava a ser feito. Contra Eusébio, contra o futebol português, contra Portugal.

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Somos um povo que valoriza muito pouco aquilo que de bom tem. Temos dois dos melhores futebolistas da história do futebol mundial. Temos outros tantos, como Luís Figo, Rui Costa, Paulo Futre, Chalana, Bento ou Damas, que foram dos melhores nos seus tempos. Mas gostamos sempre muito de atacar e/ou desprezar aquilo que é nosso. Pior: conseguimos sempre cair no estado manifestamente interesseiro de apoiar quando remamos a favor da maré. Adversidades? Com isso é que já não sabemos lidar. Soubemos criticar Cristiano Ronaldo quando a produtividade dele na seleção era baixa. Conseguimos acusá-lo de ser um menino mimado, que só ligava a dinheiro e a fama. Agora que é o melhor já o sabemos acarinhar e dar-lhe o devido valor. Com Eusébio, a situação foi ainda mais grave. Soubemos valorizá-lo quando precisámos de dizer que tínhamos um símbolo português no futebol internacional. Depois? Depois já havia Ronaldo. Já não era preciso Eusébio e muitos quiseram colocá-lo na prateleira, fazendo crer que já estava ultrapassado. Um sentimento de ingratidão tão grande que deve ter ferido o Rei. Isto tudo porque, afinal, ele “já não era o melhor de sempre”.

Tal como Cristiano Ronaldo, Eusébio é um dos melhores futebolistas de sempre Fonte: Erik Cleves Kristensen
Tal como Ronaldo, Eusébio será recordado como um dos melhores futebolistas de sempre
Fonte: Erik Cleves Kristensen

Pelo menos, foi o que se fez crer. Na minha opinião, é impossível estabelecer-se qualquer tipo de comparação entre Eusébio e Cristiano Ronaldo nesse âmbito. Viveram em tempos diferentes, eram/são jogadores distintos e os contextos em que jogam/jogaram são completamente díspares. Eusébio quebrou recordes individuais e coletivos, conduziu Portugal à melhor classificação de sempre num Campeonato do Mundo (3.º), levou um clube português ao topo da Europa (o que, convenhamos, não era nada fácil) e, mais importante do que tudo, assegurou o respeito do Mundo inteiro. Tudo isso ficou bem visível nos dias após a sua morte. Já em relação a CR7, dispensam-se apresentações a tudo aquilo que tem feito: tem batido recordes atrás de recordes, quebrou barreiras no Manchester United e no Real Madrid e a 3.ª Bola de Ouro conquistada ontem foi mais um feito enorme no seu currículo invejável.

Para quê, então, insistirmos em conversas desnecessárias sobre qual é, efetivamente, o melhor? Tal como são escusadas as comparações entre Messi e Maradona (apesar de, neste caso, haver uma diferença temporal menor) ou Pelé e Ronaldo. A evolução do futebol assim não o permite. No passado, jogava-se perante defesas mais abertas e menos rigorosas, num clima de maior anarquia tática e com um conjunto de regras completamente diferentes. Mas também havia muito menos jogos e menos complacência por parte dos jogadores para com o bem-estar físico dos atletas adversários. Atualmente, tudo é mais rigoroso. Cada jogo é alvo de uma maior preparação tática e os jogadores estão muito melhor trabalhados e preparados. A transformação de Ronaldo é o exemplo máximo disso mesmo.

Por tudo isto, queria dizer que sou fã de Eusébio e de Ronaldo. Por Cristiano Ronaldo, tenho a máxima admiração por tudo aquilo que tem ganho e pela capacidade de superação que tem revelado nos últimos anos. Pelo Rei guardo apenas memórias e registos em vídeo daquilo que produziu enquanto jogador. Aliás, quantos dos que dizem que Ronaldo é “indiscutivelmente” o melhor português de sempre viram Eusébio jogar com regularidade? Poucos, calculo eu. Facto concreto é que Portugal continua a ser uma fonte de sucesso no futebol internacional. E, como português, só posso ter orgulho por ter nascido no mesmo país de Eusébio e Cristiano Ronaldo. Os dois melhores futebolistas de sempre do “nosso” futebol. Obrigado, Rei. Obrigado, Comandante.

Foto de Capa:  Jan Solo (Flickr)