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«Tive que crescer rápido. Felizmente, tive dois treinadores que me ajudaram muito: o Henrique Nunes e o mestre Vítor Oliveira»

Bola na Rede: Chegaste a Arouca na temporada 2010/2011 para – também – fazeres parte da História, na primeira época que o clube disputa a segunda divisão. Na altura, sentiste o peso da responsabilidade?

Eduardo Moreira: Como já tinha dito, quando saí do Salgueiros, fui trabalhar noutras áreas, mas sempre à cata da tal oportunidade no mundo do futebol sénior. Não esperava que a mesma surgisse com tamanha rapidez. Sim, claro que senti o peso da responsabilidade. Fui uma vez mais testado e posto à prova, e uma vez mais tive que mostra serviço, trabalho. Tive que crescer rápido. Felizmente, tive dois treinadores que me ajudaram muito: o Henrique Nunes, numa primeira época, e o mestre Vítor Oliveira, numa segunda época. Foram tempos difíceis porque o próprio clube também se estava a adaptar a outra realidade, ao que era o futebol profissional e conheceu uma reestruturação interna que foi prolongada no tempo. Para mim, individualmente, foi um desafio extremamente aliciante pelo facto de perceber coisas simples como, por exemplo, o feedback em treino para os jogadores profissionais que é extramente diferente e algo que deve ser trabalhado. A realidade do futebol profissional não se assemelha, em nada, àquela que é a realidade do futebol regional/distrital. Tivemos plantéis com muita qualidade. Foram dois anos nos quais obtive um crescimento rápido e maior conhecimento.

Bola na Rede: De 2012/2013 a 2015/2016, estiveste em quatro clubes distintos. Avintes, como treinador principal, União de Lamas, Nogueirense e Valadares Gaia como treinador-adjunto. A primeira época como treinador principal de uma equipa sénior assustou? Quais foram as razões que conduziram a esta instabilidade profissional?

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Eduardo Moreira: Assustar não assustou, até porque foi um passo premeditado. Serviu, sim, para alimentar e estimular a minha ideia. Preparou-me muito para aquela que era a minha ideia, porque eu queria ser treinador principal. Aquilo que vivi, demonstrou-me precisamente o contrário. Cometi erros e tomei decisões menos acertadas que proporcionaram também o meu crescimento. Nessa altura, não estava preparado para ser treinador principal e necessitava de voltar outra vez à estaca zero: ser treinador-adjunto. É precisamente aí que eu defino o meu objetivo! Daí essa instabilidade que falam. Mas não deixa de ser uma instabilidade premeditada, criada por mim e de modo que eu pudesse viver essas experiências. O Futebol Clube de Avintes pertencia à primeira distrital da AF Porto, o Nogueirense pertencia à Divisão de Honra da AF Porto, Valadares Gaia pertencia à Divisão de Elite da AF Porto e o União de Lamas à Divisão de Elite de AF Aveiro. Portanto, trabalhei com vários treinadores nessas equipas, lidei com vários jogadores de diferentes divisões, factos que permitiram sustentar aquele que é o meu conhecimento e aquela que é a minha carreira. Estava e tinha condições para estar no futebol principal, mas lá está, queria fazer a escala, queria fazer o caminho…

Fonte: Eduardo Moreira

Bola na Rede: A polissemia da palavra “experiência” constitui uma fórmula de classificar tanto esta entrevista como a carreira do Eduardo. Na temporada 2016/2017, junta-se ao Fiães FC (Futebol Feminino). Era – uma vez mais – algo que sempre teve a curiosidade de experimentar ou foi só mais uma daquelas situações em que quis agarrar o desafio?

Eduardo Moreira: Sim. Se não me engano, antes de entrar para o União de Lamas, concluí o Nível III de Treinador UEFA A e tive de fazer um estágio e o período para término do mesmo seria de três anos, obrigatoriamente num campeonato nacional. Na altura, infelizmente, não tinha essas orientações de carreira, nem tinha essas possibilidades de poder estar num campeonato nacional sénior (como entendia que merecia); portanto, como precisava de trabalhar, ingressei em contextos distritais e o meu estágio foi-se protelando no tempo até ao limite imposto pela entidade. O Fiães FC parte de uma iniciativa pessoal, conhecia muito bem o presidente, porque ele tinha sido meu chefe de departamento no Boavista FC e eu sabia que eles tinham futebol feminino. Não queria voltar para o futebol de formação, estava riscado. Pedi-lhe o favor de me deixar ficar ali, também para concluir o meu estágio. Não fazia parte dos meus objetivos de carreira treinar Futebol Feminino. O que é certo é que começo a treinador-adjunto com a Mara Vieira, depois a Mara sai e eu acabo por ficar como principal. Curiosamente, nessa mesma época, surge a possibilidade de ir para o SC Varzim, na Segunda Liga. Foi tudo muito repentino. Já tinha o meu estágio em andamento, já tinha os papéis e os documentos todos assinados para trabalhar no Fiães, mas a proposta do SC Varzim era irrecusável. Deste modo, na medida do possível, conciliei os dois clubes, os dois trabalhos, alto rendimento de manhã, Futebol Feminino à noite, o que se veio a revelar uma experiência fantástica. São realidades diferentes, mas cada vez mais próximas. O futebol feminino teve um crescimento enorme!

Bola na Rede: Na linha de sucessão deste raciocínio, em jeito de brincadeira, queremos desfazer uma dúvida: as mulheres são chatas até no Futebol ou continuam com aquele dom de interiorizar mais rápido aquilo que lhes é transmitido?

Eduardo Moreira: Acima de tudo, existem duas grandes diferenças que separam o Futebol Feminino do Futebol masculino. Primeiro, o fator curiosidade, porque as raparigas são muito mais curiosas do que o jogador masculino; em segundo lugar, tem a ver com a capacidade de intuir porque, como sabemos, as mulheres têm essa capacidade muito mais desenvolvida (risos) do que o género masculino. Conseguem perceber algumas coisas mais rápido. Agora, em termos de metodologias e de trabalho, não há diferenças substanciais. A realidade que vivi apresentou-me uma lacuna – que penso estar a ser solucionada nos dias de hoje – que tem a ver com o tempo de prática desportiva, seja por questões físicas ou motoras. O jogador masculino é introduzido na prática desportiva muito mais cedo e tem um período de duração mais longo. A jogadora feminina não, começa a praticar desporto muito mais tarde e isso conduz a uma destreza motora menor. Foi uma experiência muito enriquecedora, porque estava num contexto de pressão de segunda liga, muito competitivo e, à noite, estava quase num oásis, entrava naquilo que é a verdadeira essência e o gosto pela aprendizagem, pela prática. Foi quase um ano de terapia!

Bola na Rede: Seguiu-se o Cesarense (2017/2018). Que análise se pode fazer dessa época? Qual o feedback geral?

Eduardo Moreira: Lá está, mais um contexto competitivo diferente, Campeonato de Portugal! Tinha muita curiosidade para perceber qual seria a abordagem porque, para todos os efeitos, eu vinha habituado ao Campeonato Distrital, onde tens de gerir a questão de os jogadores trabalharem, de trabalhares ao final do dia. Ou seja, tens de gerir uma série de questões que são específicas, desse patamar. Também tinha tido, no passado, a exigência do futebol profissional e do cume da exigência, vamos dizer assim. Faltava aquele intermédio, aquele hiato e eu queria perceber como é que isso funcionava! Então, surgiu essa possibilidade de acompanhar o Carlos Secretário no Cesarense… Nós tínhamos um grupo de trabalho absolutamente extraordinário, dos melhores que eu tive até hoje, homens com um caráter incrível, jogadores com uma qualidade tremenda (a maioria deles deu o salto, outros continuam no mesmo patamar, mas a lutar para dar o salto). Foi uma experiência que – infelizmente – terminou por fatores externos, prematuramente, mas que enriqueceu muito o meu conhecimento e o meu trajeto, e onde deu para criar uma amizade íntima com o Carlos Secretário, pela mão de um grande amigo meu, que é o Cândido Costa. Eu tinha sido treinador dele no Arouca e ele também fazia parte nossa equipa técnica, entre outras funções no clube.

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