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Vila Nova de Gaia, 1986. O sustento da naturalidade é oriundo dos dados explanados na internet. Eduardo Moreira, treinador de profissão e filho da experiência por gozo e ambição foi pantera negra ainda imberbe e (depois de ler Kafka?) transformou-se em “pau para toda a obra” e abraçou inúmeros desafios – vocábulo que o estimula constantemente. Cresceu sustentadamente, defende. Construiu escadas até atingir o seu topo e não um simples cume. Falou de futebol à semelhança de quem o vive e respira. E lembrou um mestre já desaparecido. Para ler, no Bola na Rede, a entrevista com técnico de futebol e comentador-residente do Bola na Rede TV.

«Sempre quis chegar ao topo. Mas sabia perfeitamente que precisava de uma escada, de trabalho… foi isso que fiz no Boavista e no Salgueiros»

Bola na Rede: Regressemos ao ano zero, ao prólogo desta caminhada. Quando é que o futebol começou a suscitar interesse e em que período é que tomaste a decisão de querer ser treinador?

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Eduardo Moreira: O futebol entra na minha vida desde muito novo, quando era jovem e comecei a praticar a modalidade. Mas, sinceramente, nunca tive assim muito jeito nem grandes aptidões para a prática; então, cedo percebi que não ia fazer uma carreira ao nível daquelas que ambicionava o sonhava. Deixei o futebol por volta dos 15, 16 anos e – felizmente – fruto de um convite de uma pessoa muito próxima e amiga, o professor José Moreira, ingresso nas camadas jovens do Boavista FC com 17 anos. Mesmo sem saber muito bem aquilo que era o futebol e o que o mesmo exigia, foi aí que comecei a dar os primeiros passos neste mundo, a treinar jogadores mais novos que eu um ano (na altura), belíssimos a grande maioria deles porque o clube sempre foi uma referência nacional ao nível da formação.

Fonte: Eduardo Moreira

Bola na Rede: Relativamente aos nossos registos, estiveste seis anos no Bessa, três deles como treinador-adjunto das camadas jovens (sub-15, sub-17 e sub-19), uma como preparador físico e duas como treinador-adjunto dos seniores. Para ti, é mais do que um clube? Quais foram as razões de uma permanência longa?

Eduardo Moreira: Acima de tudo, foi com o sentimento de grande gratidão que eu abracei essa oportunidade de me abrirem as portas no mundo do futebol, juntamente com um departamento que reunia grandes nomes, na altura, com quem eu aprendi e cresci muito. O Boavista FC acabou por ser a minha casa e eu não pensava noutra coisa. Não pensava em gestões de carreira, para onde iria a seguir ou algo do género. Cresci como homem ali, evoluí ali. Existia um sentimento de compromisso e um sentimento de gratidão enormes. Mesmo de motivação porque estávamos sempre a disputar acessos às fases finais, aos títulos nacionais, contra as melhores equipas (FC Porto, SL Benfica e Sporting CP). Era algo que me motivava realmente. Foi ali uma mistura de sentimentos mútuos e obviamente que essa etapa fica marcada para sempre na minha carreira.

Fonte: Eduardo Moreira

Bola na Rede: Seguiu-se o SC Salgueiros. Por que razão te mudaste? Consideraste um projeto mais aliciante?

Eduardo Moreira:  Sim. O Boavista FC, para concluir o capítulo, foi o encerrar de um ciclo – digamos assim – e o acompanhar do clube numa trajetória descendente, com tudo aquilo que aconteceu. O clube sofreu uma reestruturação profunda, com várias e entradas e saídas. Para terem uma noção, pouca gente restava do meu último ano para o ano no qual entrei. Aí, decidi aceitar a proposta do SC Salgueiros, precisamente por ser também um clube de referência na zona Norte, por ter uma mística e um peso tremendo e por estar muito bem organizado em termos de futebol de formação pelo professor José Manuel, onde eu pude ter contacto com outro tipo de organização e outro tipo de metodologias. Eu saí de um registo onde disputávamos títulos e passei para um registo competitivo onde o objetivo era subir as equipas aos escalões nacionais. Estive lá dois anos, percorri todos os escalões de formação e culminei com o futebol sénior (ainda Salgueiros 08). Foram dois anos bem vividos e de muita aprendizagem. Contudo, no fim desse período, concluo que o percurso no futebol de formação estava já traçado, porque já me sentia preparado para outros desafios, como o futebol sénior… Não queria estar a treinar formação contrariado, não deixei que isso acontecesse, porque considero ser uma falta de respeito para com os miúdos. Decidi sair, na altura, para nada. Fui trabalhar para outras áreas, enquanto procurava uma oportunidade no futebol sénior.

Bola na Rede: Entre adultos e miúdos, qual a casta que requer um maior cuidado e preocupação? Qual foi o maior desafio?

Eduardo Moreira: Eu acredito no crescimento sustentado e acredito também que, para seres bom treinador, competente, tens que ter experiência, é fundamental. Durante o meu trajeto de carreira, eu quis passar por tudo para me preparar e para fazer aquilo que faço hoje. Com os treinadores que trabalho e com os que ofereço mentoria, costuma dizer que não faço distinção entre treinadores de primeira, segunda ou terceira divisão. Faço uma distinção clara entre treinadores de formação e treinadores seniores! Porque a abordagem, a metodologia e a forma que tens de liderar, na formação e nos seus vários patamares, é muito especifica, é muito concreta e isso requer valências diferenciadas. Por essa razão se veem, por vezes, treinadores que até teriam capacidade para subir de nível, mas que aquela é a vocação deles, é ali que eles se sentem bem e concretizados. Só assim é que faz sentido treinar a formação! Eu pensei e procedi de tal forma, preparei-me até atingir o futebol sénior. Porque foi sempre o que quis verdadeiramente e para o qual trabalhei a minha vida toda. Sempre quis chegar ao topo. Mas sabia perfeitamente que precisava de uma escada, de trabalho… foi isso que fiz no Boavista e no Salgueiros. Trabalhar na formação tem especificidades muito bem traçadas e um dos requisitos é que estejas lá por inteiro e que tenhas capacidades pedagógicas para exercer. Futebol sénior já é outro mundo, já tens que ter outro tipo de lidar com a pressão, lutar por vitórias, lutar por resultados. Estás sujeito à ingratidão do resultado… e isso não é para todos!

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