«Muitos clubes preferem aquilo que é rápido em vez de privilegiarem o trabalho e a sua formação» – Entrevista BnR com Eduardo Moreira

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«Muitos clubes preferem aquilo que é rápido e imediato em vez de privilegiarem o trabalho e a sua formação»

Bola na Rede: A palavra “formação” veio à baila e pretendemos versar sobre ela, embora num contexto diferente. Defende que os clubes portugueses devem assentar nos seus pressupostos aí a sua aposta?

Eduardo Moreira: Sim, cada vez mais. Aliás, a própria Federação está a realizar um trabalho notável nesse sentido, com a criação do campeonato das equipas jovens (os Sub-23), das equipas bês, com a implementação da obrigatoriedade de uso – na Liga 3 – dos jogadores formados localmente… A meu ver, bem. Temos muita qualidade no nosso Futebol de formação, vários jogadores com um talento incrível. Agora, no percurso inverso, são conhecidas as dificuldades financeiras que os clubes ditos mais pequenos apresentam nesse campo de análise. Uma coisa é a estratégia que se pode valorizar através do futebol de formação, outra questão é procurar investimento externo, de modo que se possam resolver os problemas imediatos, a curto-prazo. Temos exemplos disso no Futebol português, que não irão redundar numa permanência longa e que, por sua vez, darão prejuízo económico ao clube. Muitos clubes preferem aquilo que é rápido e imediato, em vez de privilegiarem o trabalho e a sua formação, o treino, o poder apostar consciente e consistentemente nos jovens. Exige tempo, paciência e conhecimento. Mas todos sabemos que a sociedade quer tudo para ontem, portanto… Ainda bem que a nossa Federação está a dar passos que obriguem a essas situações, porque temos jogadores de enorme qualidade cá. Basta ver pelas Seleções jovens, constantemente a dar cartas e constantemente produtoras de talento!

Bola na Rede: Ao longo desta entrevista, o Eduardo utilizou muito a palavra “paciência”. E é através dessa deixa que quero dirigir a minha última questão. Para si, o treinador também é uma espécie de pastilha elástica que se cospe quando bem apetece?

Eduardo Moreira: Isso é cultural (risos). Eu não perco muito tempo em busca dos problemas, invisto muito tempo nas soluções consistentes e equilibradas. Quanto mais tempo se perde a pensar se o treinador vai sair rápido ou se o lugar está a prazo, estás a deixar de investir tempo naquele que é o teu trabalho. Existe algo do qual nunca me vou esquecer e que ouvi do mestre Vítor Oliveira: a partir do momento no qual o treinador entra num clube, o próximo passo será sempre a sua saída. Isso não é sempre controlado pelo treinador. Portanto, o importante é, enquanto estiveres, dares o teu máximo e estares 100% focado naquele que é o teu trabalho, o teu compromisso e fazeres aquilo que te compete no tempo em que tu não controlas. Assim que entender que é hora de sair, muito bem. Se tomarem essa decisão por ele, muito bem também, vamos ser felizes para outro lado. Esta é a minha forma de encarar as coisas, porque o mundo do Futebol é vil, muito duro e se tu não tens uma mentalidade muito forte, interpretar aquilo que acontece de forma positiva e olhar para as coisas de uma forma aquisitiva, andas em sofrimento constante. E eu não nasci para sofrer, nasci para viver e ser feliz!

Bola na Rede: Olhando para o caso de Arsène Wenger, por exemplo. O treinador francês esteve quase 23 anos ao serviço de um clube inglês, o Arsenal. Não estou a dizer que em Portugal não seja possível acontecer. Trata-se de uma questão de mentalidade?

Eduardo Moreira: Volto a dizer, é cultural. Isso tem que ver com diversos fatores e tudo começa com o porquê da escolha do treinador A em detrimento do treinador B, e quais são esses critérios. Se me falas em critérios sustentados no tempo, de perfil de treinador, de perfil de clube, de perfil de atleta, tudo definido, tudo traçado, é para ali que queremos ir, é este o nosso rumo, precisamos de um treinador com estas características? Provavelmente, nessa situação, a longevidade será maior; se me falares em critérios distintos destes que enumerei, a volatilidade da coisa vai aparecer mais rápido, evidentemente… Portanto, aquilo que eu acho que nós, enquanto classe, devemos pautar, é o respeito pelos treinadores, o respeito por aquilo que é a nossa profissão. E, para exigirmos esse tal respeito, temos que nos dar ao respeito! Temos que perceber aquilo que queremos e aquilo que projetamos para o futuro – não imediato, mas – pensado e estruturado. Urge saber de que forma temos que estar situados no mercado e que objetivos pretendemos atingir. Eu digo isto muitas vezes: eu quero atingir o topo, mas é o meu topo. Não vale nem pode valer tudo! Nem eu estou disposto a isto! Não estou a falar de objetivos ou valores supérfluos, não! Estou a falar de integridade, respeito, do treinador ser líder e independente nas decisões que tomam. Ninguém deve abdicar disso em prol de um objetivo de consumo rápido!

Romão Rodrigues
Romão Rodrigueshttp://www.bolanarede.pt
Em primeira mão, a informação que considera útil: cruza pensamentos, cabeceia análises sobre futebol e tenta marcar opiniões sobre o universo que o rege. Depois, o que considera acessório: Romão Rodrigues, estudante universitário e apaixonado pelas Letras.                                                                                                                                                 O Romão escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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