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Ainda ontem, no dia 2 de Julho de 2015, revi pela 128ª vez todas as imagens respeitantes às exéquias fúnebres de Eusébio da Silva Ferreira. Sempre com um olhar carregado, como que não acreditando ainda que esta lenda nos abandonou, muito nostálgico. Dir-me-ão que fico assim porque sou benfiquista da cabeça aos pés e eu responderei que talvez isso tenha muita influência, mas mesmo que fosse adepto de um outro clube…penso que admiraria sempre o Pantera Negra. Escrevo este artigo ainda antes da cerimónia de trasladação ter início, por isso não descreverei nada daquilo que se irá passar.

Quando se deu a trasladação dos restos mortais de Amália Rodrigues para o Panteão Nacional, no dia 8 de Julho de 2001, eu virei-me para o meu pai e soltei um “tenho a certeza de que com o Eusébio vai acontecer o mesmo”, apesar da minha ainda prematura idade. E tal como eu previ há quase catorze anos, isso vai mesmo acontecer. E como podia não acontecer? Estamos a falar de um homem que fez com que fosse possível um norte-americano conhecer Portugal, estamos a falar de um homem que prendeu milhões de portugueses ao transístor, estamos a falar de um homem que reúne consensos na sociedade portuguesa como quase ninguém conseguiu até hoje. Futebol não é cultura? Será indecente tratar Eusébio como se trataram (ou não se trataram) escritores, grandes nomes da música e do cinema? Não, não é indecente. Eusébio é e sempre será um símbolo deste país à beira-mar plantado, Eusébio foi um homem amado e venerado em complicados tempos ditatoriais, Eusébio era visto pelo povo com um dos seus, um homem que a pulso singrou na vida e que com a sua humildade continuou a manter exactamente as mesmas rotinas.

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O Benfica e a bola: os dois amores do King
Fonte: terceirotempo.bol.uol.com.br

Sinto-me um adepto abençoado. Felizmente foi no Sport Lisboa e Benfica que o Pantera Negra fez carreira, não há ninguém maior do que ele na história do clube, falar-se do Benfica é falar-se de Eusébio. Tal como escrevi no ano passado, a morte de Eusébio provocou momentos arrepiantes em grandes palcos como o Santiago Bernabéu e Old Trafford, foi motivo de notícia em todo o mundo, colocou em suspenso toda uma cidade de Lisboa debaixo de um temporal impiedoso. Os céus revoltaram-se contra a morte ainda prematura de uma lenda, de um dos grandes ícones do século XX português, um dos últimos heróis do povo a abandonar-nos. Impossível Eusébio da Silva Ferreira não merecer todo este aparato, todas estas cerimónias, é o mínimo que se pode fazer por alguém que catapultou Portugal para além do miserabilismo latente que por cá vigorava, dalguém que fez parar por milhentas vezes uma nação adormecida.

Tenho 26 anos, mas mal comecei a ver futebol vi em Eusébio uma referência. Sempre vi vídeos seus, sempre comprei cassetes e dvd’s referentes a este monstro sagrado do futebol mundial, sempre que o via a falar na tv parava, como que em sinal de continência. No dia em que ele morreu petrifiquei, não saí do sofá, fiquei incrédulo. No dia seguinte não pensei em mais nada, só quis estar presente no Estádio da Luz e no funeral. Debaixo de uma chuva incessante, vendo ali milhares de pessoas não se importando com isso, eu voltei a constatar o quanto Eusébio da Silva Ferreira era respeitado no nosso país. Voltaria a fazer tudo de novo, de uma forma quase estúpida não me perdoo por nunca tê-lo visto jogar, mas todo o legado que ele deixou foi mais do que suficiente para me apaixonar pela sua história de vida.

Hoje é um dia especial. Hoje é mais um dia de Eusébio da Silva Ferreira. Os seus restos mortais irão para o Panteão Nacional, casa dos deuses, dos nunca esquecidos. Do Panteão para todo o país, para todo o mundo, tal como só os heróis o conseguem. Não irei alongar-me muito mais, tal como já disse esta sexta-feira é do homem que saltou de Mafalala para o resto do planeta, mas sempre que escrevo sobre ele vêm-me à cabeça imagens sem fim.

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A morte de Eusébio parou o país
Fonte: Facebook Oficial Museu Cosme Damião

Aquele momento, após o Inglaterra 2-1 Portugal das meias-finais do Mundial 66, em que Eusébio da Silva Ferreira chorou de uma forma compulsiva depois da eliminação da selecção portuguesa acompanha-me desde que me lembro de mim próprio. Lágrimas de tristeza, lágrimas derramadas há 49 anos atrás, lágrimas que se perpetuaram no tempo e que hoje são comungadas por mim e por uma imensidão de gente.

Obrigado, Eusébio. Obrigado por me fazeres sentir que falarei sobre ti exactamente da mesma forma até ao fim dos meus dias. Obrigado pelos teus préstimos ao Sport Lisboa e Benfica e a Portugal. Obrigado por seres um dos meus ídolos. Enfim, obrigado por tudo. Um ser humano só pode agradecer por teres feito parte deste mundo.

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