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Depois de uma infância e de uma juventude dedicadas ao futebol de competição, as fintas e os cruzamentos da vida posicionam-no presentemente na grande área dos estudos superiores. O Bola na Rede apresenta uma entrevista com Pedro Torrado, jogador de futebol que colocou os estudos à frente do desporto.

Bola na Rede: Conta-me a tua história no futebol.

Pedro Torrado: Comecei o meu percurso no futebol com 11 anos (2005/2006), na equipa de Infantis do Montoito Sport Clube, clube da minha terra, onde tive o meu primeiro contacto com o desporto federado. No ano seguinte, integrei a equipa de infantis do Atlético de Reguengos (2006/2007), onde encontrei um excelente treinador, o Mister Jorge Ferreira, o qual teve uma grande responsabilidade na minha evolução. A época seguinte, ainda neste clube, marcou um salto numa etapa da minha formação, uma vez que competi no campeonato do escalão de juvenis, defrontando atletas três ou quatro anos mais velhos. Como consequência da minha evolução, fui convidado para um treino de captação do Sport Lisboa e Benfica, consegui convencer os seus responsáveis e, no ano seguinte, integrei a equipa de Iniciados A.
A entrada no Caixa Futebol Campus, com apenas 13 anos, foi dificultada pela falta que senti do suporte familiar. Porém, superei as adversidades e iniciei a época na posição de médio-centro, mas foi a defesa-central que acabei por me fixar e foi nessa mesma posição que dei sequência ao meu trajecto na formação. Esse ano culminou com o título nacional de Iniciados, que fugia ao clube há 20 anos. Na época 2009/2010, integrei a equipa de Juvenis B do clube e obtive a 1ª internacionalização ao serviço da selecção nacional contra a Espanha, num jogo em que ganhámos 1-0. No terceiro e último ano no Benfica (época 2010/2011) fui nomeado, pelos meus colegas, capitão de equipa. Para além de capitanear a equipa do meu clube de coração, senti que o meu trabalho estava a ser respeitado pelos colegas, o que, para mim, teve um grande significado. Em termos individuais, a época não terminou da melhor forma, uma vez que, por volta de Março, tive uma lesão que acabou por me afastar dos relvados praticamente o resto da época. Contudo, e felizmente, conseguimos ser campeões nacionais de juvenis!
Na época seguinte, correspondente ao meu primeiro ano de júnior, fui para o União de Leiria, clube a que tenho de agradecer por me ter aberto as portas após ter saído do Benfica. Nessa época de 2011/2012 conseguimos o apuramento para a fase final de apuramento do campeão, o que para o clube foi um feito histórico. Sendo júnior de 1º ano encontrei um clube que apostou em mim e onde joguei com regularidade. Contudo, derivado aos problemas que se verificaram com a secção do futebol profissional do clube, não tinha grandes expectativas para o futuro e, por isso, encontrei outra solução para o meu último ano de juniores: Clube Futebol Os Belenenses.
Apesar de no Belém não termos conseguido atingir o objectivo de passar à fase final, a época foi positiva a nível individual, encontrei um clube com História que me permitiu conciliar o futebol com a universidade.

Pedro Torrado
Imagens retiradas do facebook do Pedro Torrado

BnR: Anos de vivências muito intensas…

PT: Verdade, e faço um balanço bastante positivo destes anos todos. Apesar de ter saído de casa aos 13 anos e de, por isso, ter ficado longe da minha família e dos meus amigos, existem inúmeros aspectos positivos que deram sentido à minha decisão. O Benfica é uma instituição enorme e o Centro de Estágio tem uma estrutura preparada para transmitir bons valores aos seus jovens atletas; contamos com o apoio de psicólogos e de pessoas responsáveis pelos aspectos mais pessoais, familiares e/ou escolares. É certo que nada disso pode/deve substituir o apoio familiar, mas são essas condicionantes que “obrigam” e facilitam aos atletas envolvidos nesse meio crescer mais cedo. No Caixa Futebol Campus tive também a excelente oportunidade de partilhar as minhas vivências com atletas de diferentes nacionalidades. Apesar de no Benfica ter adquirido valores humanos que me fizeram, a meu ver, tornar-me uma melhor pessoa, foi no União de Leiria que senti mais dificuldades, uma vez que estive a partilhar a casa com dois colegas e tive de assumir, pela primeira vez, as responsabilidades de higiene da casa e da minha alimentação. Conciliar as tarefas domésticas com os treinos e com a escola não foi fácil mas foi uma oportunidade para crescer. Assim, quando fui viver, no ano seguinte, para o Estádio do Restelo já não fui surpreendido por este tipo de dificuldades.
Considero que fui um privilegiado por ter tido a oportunidade de trabalhar nestes grandes clubes e de ter aprendido com excelentes treinadores. O facto de já ter representado alguns clubes diferentes permitiu-me encarar diferentes realidades e extrair tudo o que de bom havia para retirar.

BnR: Foste e és um apaixonado pelo futebol. Que motivo te levou a optares por ficar afastado dos relvados?

PT: Quando saí de casa à procura do sonho de ser jogador profissional de futebol, apesar de ainda poder apresentar alguma imaturidade própria da idade, sabia bem o que queria. Ao longo destes anos a minha perspectiva foi sempre de entrar na faculdade e congelar a matrícula de forma a poder dedicar-me profissionalmente ao futebol. Ao concluir a minha formação no futebol, já tinha o 1º ano do curso realizado e com a proposta inicial que me apareceu ponderei congelar a matrícula, uma vez que a solução que foi encontrada para a minha transição do futebol formação para o futebol sénior agradava-me. Contudo, o acordo acabou por não ter o fim desejado. Surgiu ainda uma ou outra alternativa de divisões inferiores, mas a distância entre os clubes e o facto de ver, neste momento, a vertente académica como uma alternativa mais viável para o meu futuro acabaram por ter peso na minha decisão.

BnR: Opção difícil, essa…

PT: Sim, acabou por ser uma opção pessoal muito difícil de tomar. Abdiquei de muitas coisas pelo futebol e fiquei desapontado por não ter conseguido atingir a profissionalização enquanto jogador ao nível sénior. Mas estou muito satisfeito com tudo o que aprendi ao longo dos anos e, mesmo que não seja enquanto jogador, continuo a sonhar com um futuro profissional ligado ao futebol. Quando algo não acontece como o esperado, o importante é sermos conscientes o suficiente para definirmos outros objectivos realistas dentro daquilo que sonhamos e nunca descartarmos o sonho em si!

BnR: O futebol é assim um sonho adiado, substituído ou será recentrado?

PT: O futebol continua e irá continuar bem presente na minha vida. Nesta altura, estou a dar prioridade aos estudos mas, após terminar a licenciatura, tenciono voltar a jogar, ainda que tenha a perfeita noção de que será muito difícil recuperar o tempo perdido. Sou um apaixonado pelo jogo e quando uma porta se fecha espero que outras se abram, é essa a minha mentalidade. Felizmente, ao longo dos anos tive o privilégio de trabalhar com excelentes treinadores que acabaram por me persuadir e passar o gosto por essa profissão. Recordo-me de um episódio com o Mister Bruno Lage, durante o período em que estive lesionado, no qual ele chegou ao pé de mim, horas antes de a equipa realizar um jogo de treino, e me disse: “ prepara-te porque hoje vais dar a palestra antes do jogo! “. Foi um momento que me marcou… Primeiro, porque me fez sentir importante na equipa, mesmo sem poder dar o meu contributo dentro de campo. Depois, por ter vindo de uma pessoa que possui um vasto repertório de conhecimentos ao nível do treino, foi um impulso que me abriu uma nova perspectiva dentro do futuro profissional que quero para mim.

BnR: Frequentas o Curso de Educação Física e Desporto da Universidade Lusófona de Lisboa. Que mudanças gostarias de ver em Portugal nesta área?

PT: Portugal tem um potencial desportivo muito grande e pode, em função disso, ter algumas expectativas para o futuro. São vários os atletas portugueses reconhecidos a nível internacional: o Cristiano Ronaldo no Futebol, o Rui Costa no Ciclismo, a Telma Monteiro no Judo, e muitos mais … há muito a melhorar em termos das condições e recursos disponíveis para optimizar o rendimento dos atletas mas, nesse aspecto, devido à situação económica que o país atravessa, não se pode esperar muito nos próximos tempos. Contudo, essa não é, nem pode ser, a grande justificação para o insucesso em grandes eventos desportivos como os Europeus, Mundiais ou Jogos Olímpicos, muito menos quando temos, dentro do nosso país, um exemplo de quem fez muito com pouco. A canoagem portuguesa deve ser vista como um modelo de sucesso a seguir pelas restantes modalidades: deriva de um projecto ambicioso e muito bem estruturado que foi perspectivado a longo prazo e que, passado muitos anos de trabalho, começou a dar os seus frutos. Claro que isso requer uma alteração da mentalidade dominante nos diversos sectores desportivos; o apoio tem de surgir antes e não após a vitória. Custa-me ver um atleta nos Jogos Olímpicos a superar o recorde pessoal ou nacional e ser desvalorizado por não ter alcançado uma medalha. Será que essas pessoas que criticam não têm noção de que existem milhares de pessoas no Mundo a prepararem-se diariamente, em condições superiores, para aquele momento e no final apenas três são medalhados? Na minha opinião, o sentimento de evolução e a auto-superação diária devem ser o grande desafio e a grande vitória de um atleta, e as medalhas surgirão por acréscimo…

BnR: Os meios de comunicação contribuem para esta discriminação dentro dos diferentes desportos?

PT: No meu ponto de vista, os media, devido ao poder que conquistaram, desempenham um papel muito importante no desporto. São eles os grandes responsáveis pela informação, divulgação e promoção do desporto e, como consequência disso, através dos programas de televisão e dos jornais, este tem vindo a ser vivido de uma forma cada vez mais intensa. É certo que a abordagem nem sempre é a mais correcta e, muitas vezes, há uma maior promoção de determinadas modalidades em detrimento de outras, mas é inquestionável que são um dos principais responsáveis pela mediatização do espectáculo desportivo.

Ter racionalidade e coragem para redefinir o caminho a seguir com uma perspectiva construtiva é uma jogada inteligente e, como no futebol, deve ser no tempo certo e com a antecipação necessária. O futebol é um mundo, há muitos mundos dentro do futebol e há Mundo para além do futebol.

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