Futebol de Formação | Quando os pais são o problema

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Esta semana, numa entrevista ao Canal 11, Vasco Botelho, ex-treinador dos Sub-23 do Estoril Praia SAD, equipa bicampeã da Liga e Taça Revelação, e agora treinador do UD Leiria, falou um pouco das suas experiências no Futebol, particularmente no Futebol de Formação, revelando um episódio cuja história parece vir-se a repetir cada vez mais nos últimos anos.

O treinador retratou o seguinte cenário: «Recebi um miúdo para treinar, no Futebol de Formação. O pai disse-me: “Daqui a uns anos ele vai ter de me pagar as contas. Não sei se vai ser como o Ronaldo, mas tem de andar lá perto”. Ele estava convencidíssimo daquilo». Tendo começado há pouco tempo a minha caminhada de treinador, fiquei escandalizado com este tipo de afirmação, não só pelo quão descabido é, mas também por, de certa forma, conseguir enquadrar em alguns dos jogadores com os quais tenho a oportunidade de me cruzar semanalmente.

Os pais criam “ciborgues” em vez de crianças. O Futebol, em vez de ser um momento de felicidade e divertimento, passa a ser uma oportunidade de negócio, tudo isto lidando com crianças com menos de dez anos! O que antes era uma atividade que nos permitia juntar aos nossos amigos depois da escola e colocar um sorriso na nossa cara, passou a ser um trabalho e obrigação, tudo porque os pais não sabem gerir as suas próprias expectativas.

Quando as coisas correm menos bem no Futebol de Formação, o problema começa a ser do clube e treinador que não gostam do miúdo, algo com que o treinador português concorda: “Um pai de uma criança diz que o filho não joga e que o treinador não gosta dele. Chega ao empresário para mudar de clube. Grande percentagem chega aos 16 anos e diz ao pai que não quer jogar mais Futebol. Ao pai, cai-lhe a vida e não percebe que muitas vezes a culpa foi dele”.

A promoção desta cultura é inconcebível para mim. Nem todos serão jogadores de Futebol profissionais, nem todos (ou nenhuns) serão o próximo Ronaldo ou Messi, e se tudo isto é tão improvável, porque haveríamos de tirar o maior prazer às crianças de jogar à bola? Eu lembro-me que, com os meus dez anos, o treino era a minha parte favorita do dia, porque iria fazer aquilo que mais gostava, jogar Futebol com todos os meus amigos. Hoje em dia, as crianças não só vão ao treino do seu clube como têm treinos individuais, sessões de ginásio e dietas programadas para aumentar a sua capacidade técnica e física, têm empresários que gerem a sua carreira e movimentações e, após uns anos com vários saltos por diversos clubes, os miúdos perdem o fator mais importante para se ser bem sucedido no Futebol: ter prazer em jogar.

Sem querer dar lições de educação a ninguém, pais de crianças que gostam de Futebol, façam apenas uma coisa: deixem os vossos filhos aproveitar e apaixonarem-se pelo desporto que nos cola à televisão todas as semanas. Deixem os vossos filhos chegar a casa com as calças rasgadas, cheios de arranhões e com as sapatilhas pretas, porque jogaram Futebol na escola com uma lata de refrigerante. Deixem os vossos filhos desfrutar do que é ser criança e marcar um golo como aqueles que imaginaram durante a aula de Matemática. Porque ser criança é um pouco isto, ter o sonho de jogar Futebol Profissional, mas, mais tarde ou mais cedo, poucos serão aqueles que realmente o irão conseguir, portanto é importante compreender que não há espaço para todos. Se os adolescentes têm capacidade para fazer este tipo de reflexão, os pais de crianças mais novas têm ainda mais a obrigação de o fazerem, até porque, se não o fizerem, estarão a tirar a maior alegria possível aos filhos: a alegria de jogar Futebol.

Artigo revisto por Joana Mendes

Diogo Silva
Diogo Silvahttp://www.bolanarede.pt
O Diogo lembra-se de seguir futebol religiosamente desde que nasceu, e de se apaixonar pelo basquetebol assim que começou a praticar a modalidade (prática que durou uma década). O diálogo desportivo, nas longas viagens de carro com o pai, fez o Diogo sonhar com um jornalismo apaixonado e virtuoso.

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