24 pénaltis, jogadoras a recusarem continuar a partida, lágrimas de tristeza e sobretudo de raiva. É este o balanço da atuação do Video Assistant Refferee (VAR) no Mundial de Futebol Feminino em França. O que é que isto significa para o torneio e para o futuro da tecnologia no desporto rei?

É a primeira vez que o video-árbitro está a ser utilizado num Mundial de Futebol Feminino, e o balanço não tem sido nada positivo. Desde que o torneio começou, em França, há cerca de três semanas, muitos foram os episódios que tiveram a mulher do apito (e a do ecrã) como protagonistas.

Ellen White celebra o seu golo frente à Seleção Camaronesa. Fonte: Seleção Inglesa de Futebol Feminino
Fonte: The Lionesses

Um dos acontecimentos mais marcantes surgiu no Camarões-Inglaterra, a contar para os oitavos de final da competição. Depois de um golo de Ellen White que fez o 2-0 para as inglesas ter sido anulado pela fiscal de linha mas validado pelo VAR, as camaronesas… recusaram-se a jogar. Numa das cenas mais bizarras do futebol nos últimos anos, as representantes do país africano juntavam-se no centro do seu meio campo e não davam o pontapé de saída.

No Argentina-Escócia, jogo da última jornada do Grupo E, um penálti falhado pelas albicelestes no minuto final da partida significaria que as escocesas seguiriam em frente na competição. Mas a revisão no VAR indicou que a guarda redes estava adiantada da sua linha na altura da grande penalidade, e a repetição do penálti acabou por ser convertida por Florencia Bonsegundo, eliminando as britânicas.

Mas, enquanto estas decisões podem ser contestadas, mas aceites por, em última análise, estarem corretas (especialmente no caso do jogo entre Inglaterra e Camarões), o que aconteceu no Alemanha – Nigéria já não foi tão bem aceite. No primeiro golo das germânicas  (que viriam a vencer 3-0), Svenja Huth está a obstruir a visão da guarda redes enquanto a sua colega de equipa, Alexandra Popp, cabeceia para dentro da baliza, fazendo o 1-0. O VAR assinalou a posição irregular de Huth, mas, cabendo a decisão final sempre ao juiz da partida, este acabou por considerar o tento limpo.

Assim, mais do que no Mundial Masculino de 2018, o VAR tem estado no centro das atenções. Não só pelas alturas dramáticas em que tem atuado, mas também pelo volume de decisões que tem tomado. Isto deixa questões no ar, nomeadamente quanto ao progresso do futebol feminino e ao futuro da tecnologia no desporto.

Naquele que, para muito, teria de ser o torneio de afirmação do futebol feminino profissional (com a qualidade de jogo a ser cada vez maior), estas situações agarraram grande parte da atenção exterior. Quem está dentro do desporto rei acha que o desenvolvimento das mulheres no futebol depende também dos juízes que arbitram as partidas. E, para já, os homens e mulheres do apito não têm estado à altura das expectativas.

David Beckham foi visto num jogo da Seleção Inglesa, acompanhado da sua filha
Fonte: FIFA

Mas Pierluiggi Colina, ex-árbitro e atual presidente da Comissão Arbitrária da FIFA, afirma que o desempenho das 27 árbitras e 48 auxiliares destacadas para o Mundial de França está “de acordo com as expectativas”.

A polémica também deixa vários pontos de interrogação no ar quanto à introdução do VAR na Premier League da próxima época. Uma fonte próxima da liga afirma, em declarações à TalkSport, já ter sido contactado devido aos episódios do Mundial Feminino. Garante que os critérios utilizados pelo VAR serão diferentes. Casos como o da repetição do penálti argentino não devem suceder, já que a tecnologia não será utilizada nestas situações. Isto, claro está, se Piergluiggi Colina permitir. O italiano, numa conferência de imprensa, deixou explícito que as regras “são as mesmas em todo o mundo”, o que deixa dúvidas quanto à liberdade de critérios da Liga Inglesa.

Com as meias finais da competição à porta, resta esperar que o foco vire para as verdadeiras artistas, naquele que tem sido um Mundial com grandes histórias e com uma qualidade de jogo sem precedentes no desporto rei feminino.

Foto de Capa: Bola na Rede

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