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Efeito ‘Kika’ | SL Benfica 3-0 Valadares Gaia FC           

Renato Alexandre Soares · 4 min

Kika Nazareth SL Benfica
Foto: Paulo Ladeira / Bola na Rede

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Benfica

A décima jornada do Campeonato Nacional Feminino fazia prever um equilibrado duelo entre as formações do SL Benfica e do Valadares Gaia FC.

As águias, que chegavam ao encontro no segundo lugar, atrás do Sporting CP, assumiram desde cedo o comando do jogo e conseguiram levar de vencidas as ‘nortenhas’. Um jogo que se estava a revelar um verdadeiro osso duro de roer para as encarnadas, até que… Francisca Nazareth, tratada na gíria por ‘Kika’, decidiu abrir o livro. Fez jus ao número inscrito na parte de trás da sua camisola (‘10’, claro!) e descomplicou uma tarefa que se viria a complicar, ainda mais, perto do final da primeira parte depois da expulsão de Ana Seiça. O chamado: “Efeito Kika”.

Corria o minuto 23, e eis o primeiro sinal da exibição que a jovem encarnada assinaria, naquela que foi a melhor jogada coletiva do SL Benfica até então. Bola no meio-campo ofensivo das águias. Tabelas interiores entre Kika, Andreia Norton e Anna Gasper. Seguiu-se um passe para Andreia Faria que rapidamente abriu na direita para Lúcia Alves. Cruzamento tirado pela lateral ao qual a ‘10’ encarnada respondeu com um remate à meia-volta, de primeira, que só parou no fundo das redes da baliza de Erin Seppi. Vale a pena ver, e rever, esta obra de arte.

A formação de Gaia tentava reagir ao golo sofrido e aos 39 minutos Malu Schmidt aproveitou uma má receção de Ana Seiça e foi derrubada quando seguia isolada para a baliza de Lena Pauels. Cartão vermelho direto para a defesa encarnada, e o Benfica a jogar com menos uma. Seria de pensar que tendo em conta estas circunstâncias a missão das encarnadas se complicasse bastante, mas não… pelo contrário, e não por incompetência das visitantes. Filipa Patão ajustou a sua equipa taticamente com as jogadoras que já estavam dentro de campo, não fazendo entrar, por exemplo, uma defesa que ocupasse a posição de Ana Seiça. Decisão que se revelou corretíssima. As águias que tinham entrado num 3-5-2 passavam então a jogar em 4-4-1 (com bastantes variantes é claro, mas que não são o foco desta crónica). Lúcia Alves e Catarina Amado passaram a jogar mais recuadas para formar a linha de quatro e Jéssica Silva passou a jogar encostada à esquerda para fazer a linha de quatro intermediária. Francisca Nazareth passava a ser a referência ofensiva da formação vermelha e branca.

Eu vou voltar a repetir, só para garantir que é claro. O Benfica a partir daqui (39’) jogou com menos uma jogadora, não mais uma. Abel Ferreira disse uma vez: “Os grandes jogadores são aqueles que fazem o resto da equipa ser grande”, e assim foi. Kika pegou na batuta e deu uma verdadeira aula de “como desmontar a organização defensiva adversária, quando a tua equipa está com menos uma jogadora”, e todas as colegas marcaram presença. Quatro minutos volvidos, e assim que o Valadares Gaia tentou subir a linha defensiva, Laís Araújo fez um passe espetacular a isolar a jovem avançada portuguesa que fez uma autêntica chapelada das antigas à guardiã nortenha. 2-0 na saída para os balneários.

No início da segunda parte as águias chegaram ao 3-0 (48’) através de Jéssica Silva, e a vitória nunca esteve em dúvida até ao final da partida. Com menos uma jogadora em campo, as águias conseguiram, na minha opinião, ser ainda mais dominantes do que aquilo que estavam a ser antes. Não porque o desempenho de Ana Seiça estivesse, de alguma forma, a condicionar a equipa, até porque a jovem defesa é para mim uma das maiores promessas do futebol português. A verdadeira razão, além da qualidade óbvia das tri-campeãs, foi a inspiração de uma jogadora que vê e pensa o jogo antes de todas as outras. Kika foi a cola entre o setor intermediário e o ofensivo, sendo uma constante ameaça à baliza contrária. Seja a lançar as colegas, seja no um para um ofensivo, seja nas desmarcações nas costas da defesa adversária… o cardápio é longo.

Com este bis isolou-se no topo das melhores marcadoras do campeonato com onze golos em dez jogos, dias depois de saber que fazia parte do top-5 de goleadoras do ano civil de 2023. Ao todo foram 30 golos por clube e seleção, uma campanha incrível na fase de grupos da Liga dos Campeões Feminina (a decorrer), a mais jovem jogadora portuguesa a marcar num Mundial (futebol feminino e masculino), entre muitas outras conquistas. Parece estar a atravessar um dos melhores momentos da sua ainda curta carreira, a qual promete ser tudo aquilo que Francisca Nazareth desejar. Até lá? Resta apreciar as consequências do efeito ‘Kika’.

Renato Alexandre Soares

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