cab futebol feminino

No meu último texto para o Bola na Rede defendi vincadamente que um dos principais problemas que o futebol feminino atravessa em Portugal é a sua paupérrima cobertura mediática. Dado que não pretendo ser acusado de hipocrisia e como não acho que “seja assim tão difícil” para o futebol feminino português “dar o salto” (https://www.bolanarede.pt/?p=4481 ), comecei este novo ano a fazer a minha parte, por assim dizer: aproveitei a oportunidade e fui assistir ao jogo que opôs a EFF Setúbal ao Atlético Ouriense, disputado no Complexo Municipal de Atletismo de Setúbal, a contar para a 14ª jornada do campeonato nacional feminino.

Em termos de antevisão do jogo, pouco havia a dizer. Uma derrota ou um empate, neste momento, seriam completos desastres para a formação de Ourém – estão a nove pontos do líder A-dos-Francos; a dois do Clube Futebol Benfica, que já vai em segundo; e com dois pontos apenas de vantagem do quarto classificado, o Albergaria. É certo que o Ouriense ainda tem um jogo em atraso com o Boavista, mas a apenas quatro jornadas do fim da fase regular perder pontos é proibido para qualquer das quatro primeiras equipas. Isto porque Vilaverdense e Boavista, ambos com 22 pontos (Vilaverdense perdeu por 2 a 1 perante o A-dos-Francos e o Boavista venceu o 1º de Dezembro pelo mesmo resultado), ainda sonham com o acesso à fase de apuramento de campeão. Já para a equipa de Setúbal, penúltima classificada com apenas seis pontos, o objectivo passava simplesmente por evitar a derrota contra o actual campeão em título.

Classificação futebol feminino
Tabela do Campeonato Nacional Feminino, à passagem da 14ª jornada da fase regular
Fonte: http://futebolfemininoportugal.com

Após o obrigatório minuto de silêncio em homenagem a uma incontornável figura do futebol e desporto nacional (um enorme obrigado por tudo, Eusébio!), a partida começou de forma bastante aguerrida. Obrigado a ganhar, o Ouriense entrou com intenção de controlar a partida e resolver logo nos primeiros minutos. No entanto, o campo de relva natural do Complexo Municipal de Atletismo de Setúbal estava em condições que dificultaram e muito o estilo de jogo das atletas de Ourém. A forte chuva do dia anterior deixou o relvado algo “empapado”, como se costuma dizer na gíria do futebol, o que impediu, em parte, as duas equipas de praticar futebol de qualidade. Habituado a trocar a bola com frequência e critério, o Ouriense teve bastantes dificuldades em se habituar ao terreno de jogo. Já a EFF Setúbal apresentou-se em campo com uma defesa compacta, que procurava sair a jogar com velocidade no contra-ataque.

O primeiro tempo terminou sem nenhuma oportunidade de golo digna de destaque. O Ouriense teve grande parte da posse de bola, mas falhou constantemente quer no último passe quer em encontrar formas de chegar com perigo à baliza adversária. O Setúbal aproveitou as condições do campo e a aparente desinspiração do oponente para defender bem e disputar o jogo logo no centro do campo. A dez minutos do intervalo um canto cobrado pela equipa da casa ainda assustou as forasteiras; mas fora isso, a partida foi para o descanso com futebol “durinho” e pouco atractivo.

EEF Setúbal
Escola de Futebol Feminino de Setúbal; penúltimos classificados, fizeram uma boa primeira parte em termos defensivos contra o campeão em título, Atlético Ouriense
Fonte:Fonte: facebook da EFF Setúbal
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A segunda parte não trouxe grandes alterações a esta conjuntura. O Ouriense continuava sem ideias e a insistir na posse de bola inofensiva. Até foi a EFF Setúbal que criou a primeira grande oportunidade de perigo, numa saída rápida em contra ataque que viu a guarda-redes Petra negar o golo à já isolada avançada setubalense. Num jogo que cada vez mais começava a complicar-se, o Ouriense elevou o ritmo de jogo em busca do golo que tardava em aparecer. Se a consistência defensiva do Setúbal e o terreno em fracas condições tornaram complicado jogar a bola pelo chão, a solução acabou mesmo por vir pelo ar. Pouco depois da oportunidade flagrante da EFF Setúbal, o Ouriense aproveitou a marcação de um canto para inaugurar o marcador. Ou pelo menos assim parecia. A árbitra do jogo invalidou o golo por alegada falta sobre a guarda-redes setubalense, Ana Filipa Marques. As jogadoras do Ourém contestaram a decisão, mas há coisas no futebol que estão destinadas a acontecer. Poucos minutos volvidos, novo canto para o Ouriense, bola bombeada para o coração da área, defesa incapaz de aliviar a bola, e, finalmente, o golo de cabeça por Bárbara Pragana. 1 a 0 para o Ouriense.

Cristiano Ronaldo bem diz que os golos são como o ketchup. Não sei se concordo com o melhor jogador português da actualidade, mas dar-lhe-ia razão se nos baseássemos apenas no que aconteceu este domingo em Setúbal. Desfeito o nulo, o Ouriense continuou a controlar o jogo e o segundo tento não tardou em aparecer, novamente pelo ar. Recuperação de bola por Ana Coelho, cruzamento de Manaus e o infeliz desvio da defesa da EFF Setúbal, que faz um autêntico chapéu à guardiã da casa, muito à semelhança do auto-golo marcado por Vicent Kompany no Machester City há bem pouco tempo.

O resultado parecia fechado, mas ainda havia tempo para ver em prática uma velha máxima do futebol. Empenhada em dar a volta à diferença de dois golos, a EFF Setúbal ainda tentou um par de investidas ofensivas. A mais perigosa veio a escassos minutos dos 90, com um desentendimento entre Filipa Rodrigues e Ana Valinho que quase resultava em golo. Mas como “quem não marca sofre”, foi mesmo o Ouriense que ampliou a vantagem, numa jogada conduzida por jogadoras que haviam entrado na segunda parte. Nova recuperação de bola, desta vez por Manaus, e passe curto para Inês Cruz, que mostrou instinto finalizador e aplicou um remate colocado sem qualquer hipótese.

Atlético Ouriense
Atlético Ouriense ainda tremeu, mas conseguiu levar a melhor sobre a EFF Setúbal
Fonte: www.zerozero.pt

Contas feitas, 3 a 0 para o Ouriense, num jogo em que foi preciso subir aos ares para “desengatar” o marcador. O terreno impediu a prática de bom futebol, mas o Ouriense bem que se pode queixar de falta de criatividade ofensiva na primeira parte. A táctica montada pela EFF Setúbal conseguiu tardar o golo do Ouriense, mas este melhorou – e muito – o rendimento na segunda parte, conseguindo assim atingir o objectivo dos três pontos.

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