cab futebol feminino

Não sei se já repararam, mas, à vontade, para aí 70% dos filmes de acção têm um argumento muito semelhante. Especialmente aqueles filmes mais manhosos, que passam geralmente domingo à tarde e que praticamente toda a gente já viu pelo menos uma vez. É claro que as histórias divergem bastante, mas, no fim-de-contas, todos estes filmes vão eventualmente desaguar ao mesmo tipo de situação. O herói encontra-se numa desvantagem esmagadora, e logo quando está prestes a ser aniquilado pelo terrível vilão, eis que a surpresa acontece – um golpe de génio à mistura com uma “caga” descomunal e bang, o mundo foi salvo, a princesa resgatada e podemos todos assistir ao telejornal muito mais descansados da vida.

Não sei se já repararam, mas quase sempre que vemos um filme de acção, assistimos ao velho conto bíblico “David e Golias”. Excepção feita aos filmes do Chuck Norris, é claro. Quando o Chuck Norris entra em cena, já se sabe que vai ser sopa de porrada para todos aqueles que tenham a infeliz ideia de se meter no seu caminho, seja enquanto Ranger do Texas ou mesmo na sua versão indiana (obrigatório fazer uma pesquisa no YouTube para ver a pinta do homem e a completa inexistência de leis da física). Nunca gostei muito destes filmes de domingo à tarde, mas consigo perceber o entusiasmo em torno da demanda do pequeno David. É uma estória sobre ultrapassar as adversidades, o triunfo do underdog, o superar de todas as expectativas. É bonito, convenhamos, quase poético. E quando a estória se passa na vida real – sim, porque filmes de acção e Bíblia estão mais no patamar da ficção – então aí é mel.

A estória do campeonato feminino de futebol português do ano passado dava um filme. E bem melhor que esses rascas de acção que por aí andam, visto que aconteceu mesmo na realidade. De um lado, o grande Golias – o 1º de Dezembro, vencedor do campeonato por 11 épocas consecutivas, não perdia um jogo para esta competição desde Maio de 2006! Não sei quanto ao caro leitor, mas eu não conheço nenhuma equipa em nenhuma modalidade que tenha atingido semelhante feito. Apelidado de “eterno campeão”, o 1º de Dezembro era de longe a maior força do futebol feminino português, e nada fazia prever que na temporada passada isso fosse mudar. Mas mudou, e de que forma.

1º de Dezembro, o “campeão eterno” do futebol feminino nacional www.maisfutebol.iol.pt
1º de Dezembro, o “campeão eterno” do futebol feminino nacional
www.maisfutebol.iol.pt

Do outro lado, um pequeno David – o Atlético Ouriense, equipa recém-promovida ao campeonato nacional feminino, um estreante absoluto no escalão máximo da modalidade. Primeiro jogo para o campeonato de 2012/2013? 1º de Dezembro vs. Atlético Ouriense. Há coisas que estão destinadas a acontecer. Vitória do eterno campeão contra o recém-promovido por duas bolas a uma. Nove jornadas depois voltam a encontrar-se, agora em Ourém, e o impensável acontece. Flávia Fartaria marca o único golo do jogo para as atletas do Ourém, e põe termo a um “reinado” de 140 (!!) jogos sem perder para o campeonato. Depois do desaire o 1º Dezembro ainda permaneceu como líder da tabela, mas em segundo lugar, a apenas 3 pontos, estava a equipa que viria a sagrar-se campeã nacional e quebrar a hegemonia do eterno campeão … o Atlético Ouriense.

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Atlético Ouriense ditou o fim da hegemonia do 1º de Dezembro http://visaodemercado.blogspot.pt/
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Pena que nem todos têm a noção daquilo que aconteceu a época passada no escalão máximo do futebol feminino português. A nível pessoal, acho que o Atlético Ouriense fez algo simplesmente extraordinário. Imaginem como seria se, na Primeira Liga Portuguesa, o Arouca desatasse a jogar futebol e ganhasse o campeonato. Era bonito, não era? Aposto que a imprensa desportiva não descansava enquanto não fizesse mil entrevistas a todos os jogadores e equipa técnica do Arouca. Só que no campeonato masculino português não há nenhuma equipa que tenha sido campeã por 11 épocas seguidas, nem que tenha atingido um recorde de 140 jogos sem perder. Isto é, o eterno campeão era um gigante, um Super-Golias, e o feito do Ouriense, esse pequeno David, ainda foi maior.

Não sei se já repararam, mas aquilo que aconteceu no campeonato feminino nacional do ano passado foi algo inédito no futebol nacional, e desconfio também que em todo o desporto português.

Depois perguntem-me porque é que acompanho futebol feminino.