Sporting CP e SC Braga encontraram-se no passado domingo, em Alcochete, naquele que era claramente o jogo de cartaz dos oitavos de final da Taça de Portugal de futebol feminino. O passado recente dava algum favoritismo às leoas, fruto de um bom momento no campeonato, onde persegue a liderança do Benfica.

Já o SC Braga, praticamente impossibilitado de revalidar o título nacional, via na Taça de Portugal como uma grande aposta para o que resta de uma temporada muito desgastante, marcada pela estreia história na Liga dos Campeões, algo que, por muito bom que seja, deixou marcas no plantel. O Braga começou a temporada muito cedo devido a essa participação europeia e o desgaste começa a fazer-se sentir.

Quem acompanha o futebol feminino e mais concretamente a equipa do SC Braga, está familiarizado com a disposição tática habitual, assente num 4x4x2 losango, com duas médios interiores, proporcionando maior liberdade às laterais para atacar o espaço vertical, contando com duas pontas de lança que oferecem também muita largura e mobilidade ao jogo ofensivo da equipa.

Foi precisamente nesse sistema, e privado de algumas jogadoras importantes, que o SC Braga aplicou na primeira jornada do campeonato, em Alcochete. Na altura, as Guerreiras do Minho ainda estiveram em vantagem mas acabaram derrotadas por 2-1 num jogo onde as leoas aproveitaram o desgaste evidente e notório de uma equipa que tinha defrontado uma das melhores da Europa, o Paris Saint-Germain, poucos dias antes. Porém, durante cerca de 65 minutos, o Braga conseguiu ser superior, pecando apenas na finalização.

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Mais recentemente, e em Braga, as minhotas entraram em campo utilizando o mesmo sistema utilizado nesse encontro (e que utiliza na esmagadora maioria dos jogos) mas as comandadas de Susana Cova pareceram muito mais bem preparadas para anular as bracarenses e venceram por 4-2, beneficiando de uma segunda parte de alto nível, tirando completamente a equipa do Braga do jogo. Parecia que, fizesse o que fizesse, Miguel Santos não estava a encontrar o antídoto para bater as leoninas. Por mais equilibrados que os jogos fossem em muitos momentos do jogo e sendo a qualidade do plantel do Braga inegável, notava-se que faltava sempre “mais um danoninho” para alcançar a vitória.

SC Braga bebeu o danoninho que faltava para derrotar o Sporting
Fonte: SC Braga

A chave da surpresa tática de Miguel Santos: Hannah Keane

O Braga chegou a Alcochete privado de Dolores Silva (por castigo) e de Denali Murnan (por lesão) mas Miguel Santos soube entender o que o jogo ia pedir e soube dar à equipa uma dinâmica diferente dentro da sua própria identidade, que nunca foi beliscada. Alterando do 4x4x2 para o 4x2x3x1, o Braga entrou em campo com um duplo pivô no meio campo formado por Regina Pereira e Vanessa Marques com Hannah Keane no apoio direto a Laura Luís no ataque. Pelas alas as rapidíssimas Shade Pratt e Farida Machia. O segredo não reside diretamente no sistema apresentado mas sim na função de uma jogadora: Hannah Keane. A irlandesa, avançada de raiz mas médio ofensiva neste jogo, encheu o campo e foi a grande dinamizadora de todo o futebol ofensivo das guerreiras, surpreendendo completamente o Sporting, que nunca conseguiu reagir à surpresa tática preparada por Miguel Santos.

Atrevo-me a dizer que Hannah Keane foi a melhor jogadora em campo, não só porque entendeu na perfeição os espaços que deveria pisar, entendeu quando deveria juntar-se a Laura Luís numa primeira fase de pressão a dois na saída de jogo do Sporting como resguardar-se numa segunda linha de pressão, ajudando a juntar o bloco bracarense, dando total iniciativa de jogo às leoas, que nunca tiveram criatividade para penetrar na organização defensiva do Braga.

Já no momento de atacar, Keane foi sempre a primeira referência da equipa, partindo quase sempre em apoio frontal, segurando a bola, o jogo e o controlo do mesmo, permitindo à equipa fazer aquilo que queria fazer no momento, seja acelerar numa transição rápida, seja preservar a posse de bola durante algum tempo, fazendo também a equipa do Sporting correr atrás da mesma.

Dominar o jogo…sem bola

Se estivéssemos a falar de futebol masculino, diríamos com certeza que este Braga era de escola italiana pela forma agressiva como defendeu, rigorosa na ocupação de espaços e no critério com que saiu para a transição ofensiva, com Vanessa Marques a ser a grande referência nos lançamentos para Machia e Pratt. O Sporting, em organização ofensiva, nunca conseguiu encontrar os caminhos para a baliza de Marie Hourihan.

Tatiana Pinto, geralmente a primeira referência na construção curta do Sporting, foi completamente bloqueada quer por Laura Luís (muito batalhadora e muito móvel no jogo), quer por Hannah Keane, que ajudou imenso a Vanessa e Regina Pereira controlar o meio campo do Sporting, que privilegia muito o jogo interior muito por força das movimentações da jogadora que vou mencionar a seguir: Raquel Fernandes.

A brasileira é a principal armadora de jogo ofensivo do Sporting mas, embora tenha tido bastante bola, nunca encontrou correspondência devido à falta de espaço para jogar no meio campo do Braga. Carolina Mendes e, mais tarde, Hannah Wilkinson, foram sempre bloqueadas pelas centrais do Braga e Diana Silva, a jogadora mais rápida e mais forte na finalização do Sporting, foi também ela completamente anulada pela lateral esquerdo do Braga, Ágata Filipa. Ora, toda esta anulação de espaço por parte do Braga juntou-se à falta de capacidade do meio campo do Sporting em desprender-se de todas as amarras criadas pelas bracarenses.

O Braga soube sempre controlar os pontos mais fortes do jogo do Sporting, muito fruto de uma linha de pressão média durante cerca de 60 minutos mas de uma linha defensiva sempre alta no campo, com muita intensidade na pressão quando a bola entrava no seu meio campo defensivo. Na segunda parte, e com o resultado já em 2-0, assistiu-se a uma normal reação do Sporting, que teve mais domínio territorial e muito mais bola mas praticamente nenhuma oportunidade de golo.

O baixar do bloco do Braga não foi sinónimo de facilidades na circulação de jogo do Sporting, visto que nos últimos 40m nunca conseguiu meter velocidade no jogo de forma a desmontar a equipa do Braga que , com o passar dos minutos foi ficando muito mais desgastada por ter corrido tanto tempo atrás da bola, mas que tinha o conforto emocional de quem estava a vencer cumprindo à risca o seu plano de jogo. O terceiro golo, já nos descontos e com a equipa do Sporting já descrente e completamente desequilibrada, é não só uma transição muito bem gizada como uma representação em forma de golo daquilo que foi o jogo do Braga: competente, de muita entrega e com enorme competência a decidir nos momentos críticos do jogo.

A vitória é das jogadoras mas esta tem dedo de treinador. Pela leitura do jogo, pelo acreditar numa equipa cansada e desfalcada num setor tão importante como o do meio campo, Miguel Santos está de parabéns. Inteligência, astúcia e união: assim segue o SC Braga na Taça de Portugal.

Foto de Capa: SC Braga

Revisto por: Jorge Neves

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