Um início de sonho que nunca pode ser transformado em pesadelo. Independentemente da forma abrupta como saiu da Liga dos Campeões e da forma como começou o campeonato, não esquecendo a derrota da supertaça, há algo muito importante a reter até ao final da temporada: o Braga é campeão nacional. E, quando muito, critico quando querem fazer do campeonato masculino uma prova a três, o mesmo digo do campeonato nacional feminino onde a primazia e o destaque dado ao SL Benfica e ao Sporting CP em detrimento do SC Braga é, não só desrespeitador, como também sinal de ignorância.

O passado serve para aprendermos com ele. Se não entendemos que a cultura do grande é tudo menos vantajosa para o futebol português, então, nós adeptos, jornalistas, dirigentes, seja o que for, não somos suficientemente competentes para esse tão aclamado processo de crescimento que queremos que seja incutido, também e cada vez mais, no futebol feminino. Seja o Braga, seja o UR Cadima, todos merecem a mesma dose de respeito. É certo que o Braga tem mais condições que a esmagadora maioria dos clubes e muito mais capacidade de recrutamento e investimento. Mas também é certo que esse investimento sabe a pouco quando há um Sporting e, principalmente, um Benfica que emerge agora com toda uma sociedade das nações de jogadoras, muitas deles já consagradas e bem conhecidas por esse mundo fora.

É um projeto e cada um tem o seu e não há que criticá-lo. Da mesma forma, também não se deve criticar uma derrota portuguesa contra o PSG, que é um candidato fortíssimo a vencer a prova, tal como não devemos menosprezar o sensacional empate alcançado em Paris. Há sempre aspetos positivos a retirar de momentos que apenas parecem negativos para um olho pouco expedito ou para um cérebro pouco musculado. Qual seria a equipa portuguesa que não gostaria de estar na Liga dos Campeões? Jorge Jesus diz frequentemente algo que é tão verdade quanto importante: para disputar as competições, temos de estar lá. E só lá estão os melhores.

A estrutura do Braga conseguiu algo de muito importante para esta época: reteve, praticamente, todas as jogadoras e ainda se reforçou com Dolores Silva, que regressa a Braga depois de uma temporada muito proveitosa no Atlético de Madrid. Internacional português, polivalente e altamente rotativa, seria sempre um elemento fundamental em qualquer equipa portuguesa. Mas há mais em Braga. Muito mais.

Há qualidade em quantidade em Braga a começar pela baliza onde Rute Costa se afirma, ano após ano, como indiscutível para o clube minhoto e que merece, claramente, um papel diferente na seleção nacional. Melhorou em muitos aspetos do seu jogo, principalmente na saída dos postes, onde antes manifestava alguma dificuldade e no jogo com os pés. A forma como agora consegue comandar a sua defesa de forma autoritária e organizada é, também, uma imagem de marca, não só da guarda-redes como também da própria equipa. É muito difícil marcar ao Braga nas bolas paradas e a isso se deve muito a essa capacidade organizativa que as comandadas de Miguel Santos têm nesse momento de jogo.

Procurar a superioridade. É um princípio básico do futebol e este Braga consegue-o em vários momentos de jogo, de formas muito diferentes. Acima de tudo, duas hipóteses na saída de jogo. A primeira é chamar a ponta de lança – Hannah Keane – ao jogo e dar uso à sua capacidade de reter a bola de costas para a baliza esperando que a equipa suba, jogando em apoios. É, praticamente, como um pivô no futsal. A segunda alternativa força-me a falar de Ágata Pimenta que é, para mim, a melhor jogadora portuguesa do momento, independentemente de ser lateral. Está a um nível elevadíssimo esta temporada e já devia, sem sombra de dúvidas, ter sido chamada por Francisco Neto de forma mais recorrente à seleção nacional.

 

Braga sabe o que quer e sabe como o conseguir
Fonte: SC Braga

A saída de jogo com Ágata a dar profundidade pelo lado esquerdo constitui não só uma saída, como principalmente uma forma de atacar. Murnan coloca-se entre as centrais, que alargam fazendo uma linha de três, fazendo avançar as laterais. Ágata é exímia na interpretação do jogo. Com a sua qualidade técnica e capacidade de envolvimento ofensivo, é visível o nível de capacidade ofensiva que o lado esquerdo do ataque do Braga tem com a lateral esquerdo e (normalmente) Uchendu, com uma médio a chegar para fazer uma situação de superioridade numérica.

Jogando em losango, é Dolores Silva que se encarrega desse papel e o Braga torna-se verdadeiramente forte nesse aspeto do jogo. Depois acresce a importância de Vanessa Marques. A médio ofensiva do Braga é, possivelmente, a jogadora mais decisiva de todo o campeonato, não só pela quantidade de golos que marca como também pela capacidade que tem em chegar ao último terço e definir de forma exímia: seja no último passe, onde tem sobretudo duas avançadas com grande capacidade física, seja na finalização, onde possui um remate poderoso. É também fundamental na bola parada,  principalmente ofensiva, onde marca muitos golos de cabeça. Está uma craque da cabeça aos pés e é já titular recorrente da Seleção Nacional.

Falei um pouco de Hannah Keane, mas importa também falar de Francisca Cardoso. Nem sempre é titular, mas marca quase sempre. A jovem portuguesa é mais um valor confirmado e que procura, nesta temporada, cimentar o seu espaço não só no Braga mas também na seleção nacional. Em ambos os casos a concorrência é forte, mas isso só tem de ser um aspeto positivo. Aliás, é fundamental que isto aconteça não só para Francisca como para qualquer jogadora. Só podemos ser melhores se sairmos da nossa zona de conforto e só podemos brilhar ao mais alto nível se tivermos outras pessoas igualmente capacitadas ao nosso lado. Com a capacidade que tem em mover-se dentro de área aliado a um também ótimo jogo de cabeça, Francisca tem tudo para crescer e se afirmar cada vez mais. Golos tem. E muitos.

Denali Murnan. Norte Americana e um ponto de equilíbrio fundamental neste losango de Miguel Santos. Sabendo que na esmagadora maioria dos jogos o Braga joga em organização ofensiva, completamente instalado no meio campo contrário, é Murnan que, no momento de perda da bola e transição defensiva, assume um papel fulcral. Tem uma excelente capacidade de recuperação de bola e acima de tudo uma ótima racionalização do espaço. A sua inteligência e preponderância no jogo de equilíbrios do Braga é, mais que uma forma de ajudar a defender, uma forma de atacar ainda melhor.

Mais do que algumas titulares que escalpelizei aqui, importa também olhar para o futuro. E, no caso deste Braga, há vários jovens valores a despontar e que, gradualmente, vão tendo o seu espaço na equipa principal. Inês Maia é, porventura, a maior surpresa neste Braga 19/20, não pela confirmação do seu valor, mas sim pela central de enorme categoria em que se transformou. Recorde-se que chegou a Braga vinda do Valadares Gaia para jogar no meio-campo, mas face a algumas contrariedades de início de temporada (essencialmente a lesão da experiente Jana) foi Inês Maia a escolhida para jogar ao lado de Diana Gomes (outro jovem valor mais que confirmado no panorama nacional).

Respostas excelentes nos testes de fogo desse início: Benfica para a Supertaça, jogos da fase de apuramento e a eliminatória com o PSG para a Liga dos Campeões, e ainda o Sporting para o campeonato. Demonstrou uma maturidade e uma concentração que só podem indiciar uma evolução constante e a chegada a patamares de excelência por parte desta jogadora. Mas há mais. Babi é mais um valor por confirmar. Uma Extremo que também joga a lateral, muito rápida e incisiva com bola no pé.

Ana Teles e Sofia Silva serão outros dois diamantes em bruto a ser lapidados por Miguel Santos. Ana Teles é uma avançada de técnica repentista, de remate fácil e com todo um potencial por explorar. Sofia Silva foi uma das melhores jogadoras do recente Europeu de sub17, tendo constado, inclusivamente, no melhor onze da competição. Médio que também pode jogar a defesa central (tem ocupado esse papel na seleção de sub-19), é superlativa com a bola no pé, tendo todas as qualidades para ser um caso sério no futebol feminino português. Se o Braga, enquanto estrutura, souber apoiar e potenciar estas e outras atletas, tem certamente o futuro garantido.

Sofia Silva e Ana Teles são duas jovens promessas do SC Braga
Fonte: SC Braga

A procissão ainda vai no adro, mas uma coisa é mais do que certa: em Braga estão dados passos firmes em busca de uma maior afirmação: um Braga com identidade, um Braga com organização e um Braga em busca do sonho de ser bi campeão nacional de futebol feminino. E é perfeitamente possível. A concorrência é feroz mas, como se gosta de dizer pelos lados de Braga, “Vão ter de contar com elas”.

Foto de Capa: SC Braga

Artigo revisto por Joana Mendes

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