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Cumpriram-se, no passado dia 13, três anos desde a última vez que um jogo do nosso campeonato colocou frente a frente dois treinadores que se estreavam no comando das respectivas equipas. Na altura, um Olhanense em 8º lugar e um Sporting num incrível 12º defrontaram-se no Algarve, contando os da casa com Manuel Cajuda pela primeira vez no banco, substituindo Sérgio Conceição, e os leões apresentando Jesualdo Ferreira, que tomara o lugar do fugaz Franky Vercauteren.

Neste fim-de-semana, Porto e Marítimo defrontam-se e estão nessa mesma situação: tanto José Peseiro como Nelo Vingada irão orientar pela primeira vez os dragões e os leões da Madeira, respectivamente. Numa altura em que as atenções se centram nos azuis-e-brancos, falamos aqui da tarefa que Vingada terá de enfrentar nesta sua segunda passagem pelo Marítimo. Num exercício meramente opinativo, apresentam-se algumas realidades que o novo treinador insular deverá ter em conta para recuperar uma equipa em sub-produção, em particular já no difícil jogo com os dragões.

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Nelo Vingada tem em mãos uma tarefa desafiante
Fonte: CS Marítimo

DEFESA

Reside aqui a principal falha da equipa maritimista. De facto, não é por acaso que o emblema até aqui comandado por Ivo Vieira é a segunda defesa mais batida do campeonato, com 36 golos sofridos em 18 jornadas (média de 2 por jogo; no ano passado, em 34 jogos sofreu apenas mais 9). O Marítimo evidencia não só alguns problemas na organização defensiva como também no controlo da profundidade, expondo-se por vezes a investidas que podiam ser evitadas com uma melhor definição de processos. O facto de o emblema verde-rubro ser o que mais cartões amarelos (67) e vermelhos (6) tem na liga não é, aliás, alheio a essa inoperância.

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A qualidade individual dos centrais também deixa um pouco a desejar, à semelhança do que já acontecia noutras épocas. Para complicar ainda mais, as ausências sobretudo de Dirceu, mas também de Raul Silva (ambos expulsos na derrota contra o União), serão sentidas. Face às escassas opções, Deyvison, que se tem assumido cada vez mais como indiscutível no eixo, deverá ter a companhia de Romário Leiria ou, em alternativa, do recém-contratado Damien Plessis, médio defensivo que chegou a jogar pelo Liverpool e que também pode alinhar a central. Neste aspecto não haverá muito mais volta a dar.

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José Sá tem aproveitado a lesão de Salin para se afirmar e pode até estar de saída
Fonte: Facebook de José Sá

Nas laterais, certa é a ausência de Rúben Ferreira, também suspenso, pelo que João Diogo se deverá manter à direita e Patrick Vieira irá provavelmente assumir à esquerda. A equipa perde, desta forma, uma boa arma nas bolas paradas e nos remates de longe (Rúben Ferreira fez um grande golo frente ao Moreirense). De qualquer modo, Patrick tem estado em bom plano e dá muitas mais garantias do que Briguel, que alinhou de início frente ao Benfica mas que parece já não ter “pedalada” para estas andanças.

Na baliza, face à lesão de Salin, será José Sá a assumir a posição, com o reforço Haghighi (titular no Mundial de 2014 pelo Irão) no banco. Sá tem alternado excelentes intervenções com lances um pouco extemporâneos (veja-se o golo do União, numa bola que, valha a verdade, também não vinha fácil), próprios de quem está a crescer e precisa de errar. Como veremos, o guardião é, aliás, um dos únicos dois jogadores do plantel com saldo positivo de vitórias nos jogos que disputou (56%), apenas atrás de Alex Soares.

quadro golos sofridos

MEIO-CAMPO

A eventual escolha, por parte de Nelo Vingada, da utilização de dois médios mais recuados perceber-se-á na medida em que o Marítimo sofre muitos golos – é a segunda defesa mais batida no campeonato, apesar de estar no 10º lugar. Contudo, por outro lado, a equipa talvez ganhasse com a utilização de um único pivot defensivo declarado, a fazer exclusivamente o chamado “trabalho sujo”, libertando um dos médios de algumas tarefas defensivas e projectando-o mais para a construção. A este nível, aliás, a equipa ainda parece ressentir-se da saída de Danilo.

Não se sabe ainda se Plessis foi contratado para o eixo da defesa ou para o meio-campo, mas a sua utilização à frente dos centrais, tendo como tarefa apenas “arrumar a casa”, poderia significar uma melhor protecção da retaguarda maritimista, uma vez que, desse modo, a cobertura dada ao eixo defensivo seria possivelmente mais efectiva. Seja como for, tudo o que aqui se faz não é mais do que um exercício opinativo acerca de qual a melhor forma de o Marítimo encontrar estabilidade. É certo que, mais do que a teoria ou o desenho do esquema táctico no papel, são as dinâmicas incutidas pelo treinador que realmente interessam. Porém, a escolha dos melhores intérpretes coloca uma equipa um pouco mais perto do sucesso e, nesse sentido, há uma mudança que nos parece benéfica: a titularidade de Alex Soares no meio-campo verde-rubro.

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Alex Soares poderá ter um papel importante na manobra do Marítimo
Fonte: Facebook de Alex Soares

Falta alguma consistência a esse sector do Marítimo, e o referido atleta parece-me ser quem melhor faz a ligação entre o meio-campo e o ataque, compensando também na manobra defensiva. O português é um jogador técnica e tacticamente esclarecido, forte na leitura do jogo e de processos simples, munindo dessa forma o seu meio-campo com uma fluidez de jogo de que o futebol português por vezes carece. Torna-se, portanto, importante ter um jogador que saiba receber a bola, olhar à sua volta e entregá-la rapidamente com qualidade e critério, e Alex Soares parece-me ser o médio mais capaz de o fazer. Vários dados estatísticos jogam, aliás, a favor de Alex: é o jogador do Marítimo com maior percentagem de triunfos nos jogos que disputa (67%) e, sempre que não jogou, o clube nunca ganhou (6 derrotas, incluindo uma com o Amarante para a Taça, e 2 empates). A somar a tudo isso, a sua melhor fase individual em termos de golos marcados (2 nos últimos 4 jogos, um deles ao Porto) também deverá pesar.

Uma vez que Fransérgio tem estado, até agora, de pedra e cal no onze, caberá ao treinador decidir futuramente entre Tiago Rodrigues e Éber Bessa, sendo que o português tem na meia distância uma das suas principais armas e o brasileiro parece oferecer à equipa um maior dinamismo e esclarecimento com bola. Contudo, uma vez que Tiago Rodrigues está emprestado pelo Porto e, como tal, indisponível para o próximo jogo, este problema só se irá colocar mais tarde. Seja como for, independentemente de quem forem os escolhidos, o Marítimo necessita de um maior nível de concretização por parte dos seus médios, uma vez que estes, somados, têm apenas 4 golos no campeonato (2 de Fransérgio, um de Alex Soares e outro de Tiago Rodrigues). A equipa está, neste aspecto, demasiado dependente da inspiração dos três homens mais adiantados.

quadro percentagens 2

ATAQUE

É este o sector cujos integrantes mais se têm destacado, mesmo tendo em conta que os adeptos dão mais atenção aos golos marcados do que a um trabalho defensivo ou a meio-campo que muitas vezes não é visível. Seja como for, Dyego Souza, Edgar Costa e Moussa Marega têm estado a bom nível, somando, nesta altura, 14 dos 26 golos da equipa no campeonato (7, 2 e 5, respectivamente). A qualidade técnica e bom envolvimento dos dois primeiros – Souza é a referência, embora seja bastante móvel – somados à potência física e ao sentido de oportunidade de um Marega que actua descaído para a direita, a explorar os contra-ataques, fazem com que as escolhas do até agora treinador Ivo Vieira tenham sido bastante pacíficas no que toca a este sector. Como tal, aqui há pouco a dizer, até porque a produtividade atacante, ao contrário da defensiva, coaduna-se com a classificação da equipa (o Marítimo está em 10º e é o 7º melhor ataque). Baba Diawara, que já brilhou no clube e regressou esta época é um avançado oportuno e, arrisco dizer, um dos suplentes com mais qualidade que existem na nossa liga, se excluirmos os três grandes. Face à lesão de Ghazaryan, é Xavier quem costuma agitar o jogo vindo do banco, sobretudo partindo da ala esquerda.

Época 2015/2016 Plantel do Marítimo-revista-individuais
Dyego Souza é o melhor marcador do Marítimo, com 7 golos
Fonte: CS Marítimo

CONCLUSÃO

A equipa tem qualidade, mas que terá de estabilizar em termos defensivos. Esse ponto fraco faz com que o Marítimo tenha, como vimos, um péssimo registo de golos sofridos (só em duas jornadas a equipa manteve as suas redes intactas, e já encaixou 3 ou mais golos por cinco vezes) e some já 9 derrotas – pior só os três últimos classificados. Porém, é justamente para resolver os problemas colectivos – e, consequentemente, minimizar insuficiências individuais – que o treinador existe, e Nelo Vingada tem a experiência necessária para identificar falhas e tentar revertê-las. A inteligência de Alex Soares tanto nas precauções defensivas como na consolidação do meio-campo e ligação com o ataque parecem-me poder fazer dele uma peça mais importante do que aquilo que tem sido até aqui, numa equipa com pouca qualidade individual no eixo defensivo e em que os três da frente – Costa, Souza e Marega – são os mais indiscutíveis. Este último e o guarda-redes Sá poderão estar de saída, pelo que haverá a hipótese de o treinador vir a ganhar dores de cabeça acrescidas após o jogo com o Porto. Depois da vitória na Invicta para a Taça da Liga, uma nova surpresa no Dragão, apesar de difícil, poderia significar o ponto de viragem na temporada acidentada do Marítimo.

quadro golos marcados

Foto de capa: CS Marítimo

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O João Sousa anseia pelo dia em que os sportinguistas materializem o orgulho que têm no ecletismo do clube numa afluência massiva às modalidades. Porque, segundo ele, elas são uma parte importantíssima da identidade do clube. Deseja ardentemente a construção de um pavilhão e defende a aposta nos futebolistas da casa, enquadrados por 2 ou 3 jogadores de nível internacional que permitam lutar por títulos. Bate-se por um Sporting sério, organizado e vencedor.                                                                                                                                                 O João não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.