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Pedro Proença é considerado, pela generalidade da crítica, o melhor árbitro português de sempre.  Foi eleito o melhor do século para a Federação Portuguesa de Futebol e apitou as finais da Liga dos Campeões e Campeonato da Europa de Seleções em 2012. Em exclusivo para o nosso site, Pedro Proença abre o jogo e dá a conhecer algumas das suas posições relativas ao campo da arbitragem, ao seu futuro profissional e até pessoal. O Bola na Rede deixa votos de sucesso para o futuro da carreira profissional e agradece a amabilidade e pronta disponibilidade do antigo árbitro português para nos conceder a entrevista.

Arbitragem e Controvérsia:

Bola na Rede: Que imagem pensa ter deixado perante o público português (englobando, logicamente, clubes, desportistas e adeptos)?

Pedro Proença: Estou convicto de que deixei uma imagem de credibilidade, de profissionalismo e de competência, junto de todos os intervenientes no panorama desportivo. A prova disso mesmo foi dada aquando do anúncio do meu abandono da arbitragem, em que árbitros, associações e clubes me deram a honra de estarem presentes, bem como as cerimónias de homenagem ao meu percurso na arbitragem, que tenho recebido, com enorme satisfação, desde então.

BnR: Qual é que foi o momento mais marcante, pela positiva, da sua carreira como árbitro? E pela negativa?

PP: Não tenho um jogo particular que me tenha marcado pela negativa. Óbvio que aqueles que nos correram menos bem, em termos de decisões tomadas enquanto árbitros, foram menos positivos. No entanto, tive a felicidade de ter bastantes momentos marcantes pela positiva. A nível nacional, tive a sorte de arbitrar dezenas de derbys, bem como finais da Taça da Liga e da Taça de Portugal; a nível internacional, o expoente máximo ao dirigir a final da Liga dos Campeões e a final do campeonato da Europa, em 2012.

BnR: Considera-se o melhor árbitro português da história?

PP: Face ao meu curriculum nacional e internacional, penso que deixei, definitivamente, o meu nome na história da arbitragem portuguesa. Aliás, o reconhecimento do meu percurso fica indelevelmente marcado com a presença na final das duas maiores competições do futebol europeu, culminando com a atribuição do prémio de melhor árbitro do mundo em 2012 (algo inédito no futebol português) e, mais recentemente, com o prémio de melhor árbitro português do século, no centenário da Federação Portuguesa de Futebol.

BnR: O que lhe faltou conquistar ao longo da sua carreira?

PP: Penso que não faltou nada. Deixei a arbitragem, orgulhoso do meu trajeto e realizado por tudo o que consegui. Não alteraria o meu percurso! Atingi os objetivos a que me propus, por isso, esta decisão foi tomada em consciência de dever cumprido.

BnR: Era apontado pela generalidade da opinião pública como o favorito a arbitrar a final do Mundial de Clubes. No entanto, isso acabou por não acontecer. Consegue explicar o que se passou? Houve, de facto, pressão por parte da equipa do San Lorenzo?

PP: Não penso ter existido qualquer pressão por parte de quem quer que seja. Neste tipo de competições internacionais, a UEFA e a FIFA selecionam um grupo de árbitros que reúnem um determinado perfil desejado, tendo, por fim, de efetuar uma escolha. No caso em concreto, acabou por ser escolhida uma outra equipa de arbitragem, e eu respeito, como sempre, esse tipo de decisões.

BnR: A recente greve dos árbitros portugueses, que poderá colocar em causa o funcionamento dos últimos jogos da Liga, é reveladora do estado atual da arbitragem portuguesa?

PP: É uma situação que necessita de uma rápida resolução, acima de tudo. Esperemos que não comprometa o normal decorrer das últimas jornadas do campeonato principal. Que possa existir diálogo entre as entidades envolvidas e que os compromissos assumidos sejam honrados, a bem da arbitragem e do futebol português.

Proença anunciou o fim da carreira no início de 2015 e agora procura novos desafios Fonte: FPF
Proença anunciou o fim da carreira no início de 2015 e agora procura novos desafios
Fonte: FPF

O Futuro Profissional:

Bola na Rede: Há uns tempos não fechou a possibilidade de uma futura candidatura à liderança na Liga de Clubes, bem como à APAF. Pode confirmar se essas hipóteses ainda estão nos seus horizontes?

Pedro Proença: Não fecho a porta a nenhuma ideia. Até ao momento, ainda não existe qualquer projeto. Se aparecer e for aliciante, será obviamente analisado. Atualmente, dedico-me exclusivamente à minha carreira enquanto gestor e, desportivamente, estou focado apenas na eleição para o comité de arbitragem da UEFA.

BnR: É adepto confesso do Benfica. Admitiria a possibilidade de, um dia, integrar a estrutura diretiva do clube da Luz?

PP: Não sabemos o dia de amanhã, mas parece-me que muito dificilmente isso aconteceria. Seja na estrutura do Sport Lisboa e Benfica ou em qualquer outro clube.

BnR: O que se vê a fazer pelo futebol português num futuro próximo?

PP: Nesta altura, em termos desportivos, a minha total concentração está dirigida para o comité de arbitragem da UEFA. Se entretanto aparecer algum projeto, certamente terei de o analisar.

Pedro Proença foi eleito o árbitro do século para a FPF Fonte: FPF
Pedro Proença foi eleito o árbitro do século para a FPF
Fonte: FPF

O Plano Pessoal:

Bola na Rede: Quando é que tomou a decisão de ser árbitro de futebol?

Pedro Proença: No momento em que quis conjugar e articular a minha vida académica com a prática de uma atividade desportiva.

BnR: O que é que será mais benéfico para a arbitragem portuguesa: a profissionalização ou uma Academia própria para jovens árbitros?

PP: Esses dois projetos, quer o conceito da profissionalização, quer o da academia de arbitragem, já existem, ainda que numa fase inicial. Tudo o que seja criar condições para termos os melhores árbitros, bem preparados a todos os níveis, será sempre de salutar.

BnR: Tem opinião formada sobre a formação no futebol português? Considera que os clubes portugueses estão a caminhar no sentido correto?

PP: A formação de jogadores em Portugal é, reconhecidamente, uma das melhores do mundo. Exemplo disso são os muitos jogadores portugueses espalhados por campeonatos mundiais, bem como o facto de termos, na nossa história, três jogadores considerados melhores do mundo: Eusébio, Figo e Cristiano Ronaldo.

BnR: O que sentiu quando arbitrou pela última vez um jogo como árbitro profissional?

PP: Um sentimento de dever cumprido e de orgulho neste percurso de 26 anos.

BnR: Sente que, alguma vez, acusou a pressão de um jogo? Em qual?

PP: A pressão de ser competente e fazer o melhor existe em qualquer profissão. Enquanto árbitro, sempre estive ciente da importância das minhas funções dentro de campo e de tudo o que um bom ou menos bom desempenho implicava. Em todo o caso, sempre me preparei do mesmo modo para todos os jogos, com o máximo de empenho e concentração, para que, na eventualidade do erro, pudesse sair do terreno de jogo com a consciência tranquila de que dei o meu melhor.

BnR: Acha que o facto de ter sido nomeado para a final do Europeu de Seleções, bem como para a Liga dos Campeões, em 2012, foi decisivo para adquirir o mediatismo que tem hoje em dia?

PP: Acredito que sim, que possa ter contribuído para esse mediatismo. A presença nas finais dessas duas competições foi, acima de tudo, o reconhecimento do valor da arbitragem portuguesa. Para os jovens árbitros foi também a prova de que, com trabalho e dedicação, é possível atingir um patamar de excelência e alcançarem os seus sonhos.

BnR: Qual o jogo que mais gozo lhe deu arbitrar?

PP: Todos! Obviamente que arbitrar jogos decisivos, finais, é algo sempre marcante. Em todo o caso, para quem tem paixão pelo fenómeno do futebol, poder contribuir para um bom espetáculo, com bons intervenientes, em estádios repletos de adeptos vibrantes, é sempre motivo de regozijo.

BnR: Cumpriu todos os seus sonhos?

PP: Sim, deixei a arbitragem muito realizado. Tive uma carreira recheada de sucessos, fui um privilegiado… Arbitrei alguns dos melhores jogadores do mundo, clubes e seleções, nos estádios mais fantásticos e nas competições mais importantes no futebol mundial.

Entrevista realizada por Mário Cagica Oliveira e Vítor Miguel Gonçalves

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