20 anos depois do dragão campeão com estrangeiro ao leme

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A Liga Portuguesa 2025/26 encaminha-se para a reta final. Embora tudo se mantenha em aberto, muito indica que o FC Porto irá reconquistar o título de campeão nacional que lhe foge desde 2021/22. Alcançado o tão almejado objetivo, o clube azul reencontra igualmente uma realidade que já não conhece há precisamente 20 anos: ser campeão com um treinador estrangeiro.

Francesco Farioli poderá ser o homem que se sucede a Co Adriaanse como último técnico internacional a levar os dragões ao êxito interno, na linha de nomes como Bobby Robson, Carlos Alberto Silva ou Tomislav Ivic. O já (na altura) experiente treinador holandês foi o último treinador estrangeiro a ser campeão pelo FC Porto, uma proeza que mais tarde Víctor Fernández, Julen Lopetegui e Martín Anselmi não conseguiram alcançar.

Martín Anselmi FC Porto
Fonte: Carlos Silva/Bola na Rede

Recordando a passagem de Adriaanse pelos portistas, ficou um período com algumas polémicas e tumultos, mas que acabou por culminar no êxito sustentado no trabalho e na regularidade. O técnico chegou à “Invicta” no verão de 2005, aos 58 anos de idade e já com 21 anos de carreira a treinar. À sua longa experiência (Zwolle, FC Den Haag, Ajax B, Willem II, Ajax e AZ Alkmaar) faltava o êxito. Até à ida para o FC Porto, Adriaanse não tinha conquistado qualquer título ao fim de uma época. Apesar de na época 2001/02 ter iniciado a época no Ajax e que no fim terminaria campeão e vencedor da Taça… com Ronald Koeman no comando da equipa. Co Adriaanse treinou a equipa até finais de novembro, deixando a equipa em segundo lugar (a dois pontos do líder e rival Feyenoord), já fora da UEFA Champions League (eliminado pelo Celtic num play-off de qualificação), já fora da então Taça UEFA (eliminado pelo FC Kobenhavn na segunda ronda) e sem disputar qualquer jogo da Taça interna. Foi rendido pelo compatriota ex-jogador Ronald Koeman, que conquistaria a dobradinha para o “gigante” de Amesterdão e que mais tarde seria seu rival… em Portugal.

Co Adriaanse encontrava um dragão com muito sucesso no passado recente, mas muito abalado pela má prestação na temporada anterior. Em 2004/05, os dragões terminaram a época em segundo lugar (a três pontos do campeão Benfica), com 22 pontos perdidos em casa, défice de concretização (apenas 39 golos marcados em 34 jogos de Liga), eliminado na quarta eliminatória da Taça de Portugal e caiu nos oitavos de final da UEFA Champions League frente ao Inter, perdendo assim o estatuto de campeão europeu alcançado ainda na era de José Mourinho. Embora tenha conquistado a Supertaça ao Benfica (1-0 em Coimbra) e a Taça Intercontinental (vencida nos penáltis frente ao Once Caldas em Yokohama), o plantel atravessou um período de muita instabilidade. Entre jogadores-chave que saíram (Deco para Barcelona e para Londres seguiram Paulo Ferreira e Ricardo Carvalho), outros que permaneceram (Costinha, Maniche ou Nuno Valente), embora com intenção de sair e ainda alguns que não corresponderam (Luís Fabiano ou Diego), o grupo de trabalho portista nunca chegou a ser do nível das duas épocas anteriores e era notória a necessidade de uma reorganização.

Às ordens do novo técnico, o plantel passa por um processo de reajuste entre muitos elementos que permaneciam de “pedra e cal no Dragão” (Quaresma, Pedro Emanuel, Pepe, Vítor Baía, Bosingwa, McCarthy, Ibson, Diego, Ivanildo, Raúl Meireles, Ricardo Costa e Hélder Postiga), alguns “repescados” (Hugo Almeida, César Peixoto, Paulo Assunção e Bruno Alves) e reforços que vinham para acrescentar (Lucho González, Lisandro López, Helton, Jorginho, Alan, Sonkaya, Marek Cech e Sokota).

No entanto, o processo não foi pacífico, passando por dores de crescimento até estabilizar. O seu estilo rígido relativamente à aparência e aos acessórios dos jogadores, levou o técnico holandês a ter alguns conflitos dentro do grupo. Jorge Costa e Nuno Valente perderam muito espaço e acabaram por sair e surgiram más relações com Hélder Postiga e Léo Lima, ambas terminaram também com a cedência dos jogadores. Contudo, a pré-época decorre com alguma expetativa, devido a alguns resultados, mas sobretudo devido ao estilo de jogo.

A equipa inicia a época com um 4-3-3 típico, mas traços muito ofensivos. Vítor Baía começa a temporada na baliza de forma indiscutível. Sonkaya é titular nos primeiros quatro jogos da Liga, mas cedo perde o lugar para Bosingwa. À esquerda César Peixoto será o dono da posição durante a primeira metade da época e com bom aproveitamento (quatro golos e duas assistências em 20 jogos). A dupla de centrais variou. O capitão Pedro Emanuel e Ricardo Costa iniciam a época, depois Bruno Alves rende o capitão e jogam até meados de outubro. Por fim, é Pepe quem é chamado à titularidade (que nunca mais deixaria) e Emanuel regressa para fazer dupla com o jovem brasileiro. Ricardo Costa passa a jogar mais ocasionalmente ou em rotação com os colegas a jogar numa das vagas de defesa-central ou no lado direito, enquanto Bruno Alves perdeu espaço.

No meio-campo, Lucho González ganha o seu espaço desde cedo e é o único rosto indiscutível. O internacional argentino é dono de um perfil que trouxe criatividade, classe, liderança e estabilidade ao setor e à equipa. Nos outros dois lugares, existiu uma variedade consoante os jogos em disputa, entre características mais defensivas (Paulo Assunção), transição (Raúl Meireles e Ibson) e mais ofensivas (Diego). Nas alas, Alan e Jorginho começam como opções mais regulares, com Quaresma a ser um “Joker” e Ivanildo uma quarta alternativa, com Lisandro a aparecer numa das mesmas quando se procurava um perfil mais em busca de parelha com o ponta de lança e movimentos interiores em detrimento da genialidade típica de um extremo. Apesar de continuarem sempre a serem opções, Alan e Jorginho acabam por perder nos números e rendimento para Quaresma e Lisandro, como tal, o internacional português e o argentino começam a ganhar a posição. No lugar de ponta de lança, Hélder Postiga começa como o “key player” de Adriaanse, mas por pouco tempo.

A falta de rendimento nos primeiros dois jogos da Liga, uma lesão ao serviço da Seleção Nacional na Rússia e uma discussão em pleno treino, levaram Postiga de “key player” a proscrito e não contou mais para o técnico holandês. Tomo Sokota não conseguiu agarrar a oportunidade e regressado após ausência no início da época, Benny McCarthy acaba por ser o dono da posição. No entanto, o internacional sul-africano acaba por ser pouco produtivo e inconstante (apenas dois golos e duas assistências entre setembro e dezembro), o que levou a que Hugo Almeida tivesse mais oportunidades tanto a titular como a suplente muito utilizado, chegando a decidir alguns jogos (Naval por 3-2 na Figueira da Foz e Nacional por 1-0 na Madeira).

A primeira metade da época do FC Porto 2005/06 apenas foi negativa na UEFA Champions League. Uma campanha europeia que começou com duas derrotas que comprometeram logo as contas do apuramento. Uma derrota escassa com desempenho consistente frente ao Rangers (2-3), em Glasgow e um frustrante desaire caseiro frente ao Artmedia Bratislava (2-3, após estar a vencer por 2-0). O cenário ainda se tornou mais positivo após uma prestigiante vitória frente ao Inter (de Figo, Verón, Adriano, Cambiasso, Materazzi ou Córdoba) por 2-0 no Dragão, mas seria o único triunfo da equipa portista na competição. Após a grande vitória frente aos nerazzurri, a equipa portista vai perder a Itália por 2-1 (apesar do grande golo de livre de Hugo Almeida), não consegue vencer o Rangers em casa (1-1) e não desfaz o nulo no terreno do Artmedia Bratislava. Resultados que levaram a um dececionante último lugar do grupo.

Já a nível interno, foi regular e satisfatório. Na Taça de Portugal, a equipa de Adriaanse vence pela margem mínima o FC Marco (1-0 em casa) e a Naval (2-1 em Figueira da Foz) e qualifica-se para os quartos de final da “prova rainha”. A Liga decorre de forma regular e apesar dos percalços, toma partido dos desaires dos principais rivais (o Benfica de Ronald Koeman não conseguia convencer sendo muito irregular e o Sporting vive uma crise interna e de resultados, maus resultados levaram à saída de José Peseiro e entrada de Paulo Bento). Após três triunfos nas primeiras três jornadas (Estrela da Amadora, Naval e Rio Ave), vieram os primeiros percalços. Entre a quarta e a nona jornada, a equipa portista empata três vezes (Braga, Madeira frente ao Marítimo e em casa com o Vitória FC) e perde frente às águias (0-2 no Dragão), resultados que levam a que perca a liderança e fique a cinco pontos da mesma (ocupada pelo Braga). Até ao fim da primeira volta, o FC Porto entra numa fase de consistência e vence a esmagadora maioria dos jogos (destaque para o 5-1 caseiro frente a Académica), incluindo todas as deslocações (Paços de Ferreira, Barcelos, Leiria e Guimarães) e perde pontos apenas no clássico caseiro com o Sporting (1-1).

Adeptos do FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

Resultados que permitiram recuperar a liderança e terminar a primeira volta com seis pontos de vantagem dos segundos e terceiros classificados (Benfica e CD Nacional). Contudo, um desaire na Amadora (1-2) faz mudar muita coisa. Apesar da liderança da Liga se manter intacta (embora a margem fosse mais curta), o técnico holandês fez mudanças na formação tática da equipa, o que fez custar o lugar a alguns elementos. Após uma exibição menos conseguida na Amadora e com responsabilidade nos golos, Vítor Baía é relegado para o banco de suplentes (só voltando a jogar seis jogos entre fevereiro e março), o que permite a Helton passar à titularidade. O guardião brasileiro contratado ao UD Leiria traz um estilo mais fresco, bom de pés e com rapidez nos reflexos. A defesa passa a funcionar com apenas três elementos. Com a sua força, raça e velocidade, Pepe é escolhido para líbero. Do lado direito Bosingwa com a rapidez e dinâmica permite defender com eficácia e até lançar colegas para ataques. À esquerda, o líder Pedro Emanuel oferece ao setor a segurança a consistência que permite completar o trio defensivo. Com Ricardo Costa a ser a alternativa na ausência de algum dos três titulares, Bruno Alves de seguida e por vezes, Marek Cech a descer do meio-campo para o lado esquerdo da defesa. A dinâmica do novo modelo surgia do centro do terreno para a frente.

A equipa variava entre um 3-4-3 (normal ou em triângulo) e um 3-5-2. No meio-campo central, Lucho é a peça que continua de “pedra e cal”. A fazer companhia ao internacional argentino, está apenas um outro elemento a completar o equilíbrio (Raúl Meireles e Ibson) e muitas vezes um terceiro na contenção (Paulo Assunção). Diego perdeu totalmente o protagonismo no novo sistema, chegando também um talento no mercado de inverno que veio acrescentar classe: Anderson. Nas alas jogavam extremos (Quaresma, Alan, Jorginho, Ivanildo) e médios laterais (Marek Cech) que ofereciam dinâmica e velocidade ao coletivo. No ataque, ora funcionava um trio típico com extremo, avançado interior (Lisandro López) e ponta de lança (Benny McCarthy ou Hugo Almeida) ou uma dupla de avançados. Tendo a equipa sido reforçada no setor por um jogador que veio oferecer golos decisivos: Adriano. Um estilo que primava pelo equilíbrio e se mantinha bastante ofensivo.

No início da segunda volta e após a derrota na Reboleira, a equipa mostrou alguma ineficácia nos primeiros jogos com o novo modelo. Após uma vitória pela margem mínima frente à Naval em casa (1-0), a equipa azul e branca empata duas jornadas seguidas (0-0 em Vila do Conde e 1-1 caseiro com o Braga). O nulo no campo do Rio Ave também ficou para a história pelo pós-jogo, em que o técnico Co Adriaanse foi agredido por uma das claques do FC Porto e tal levou o Presidente do clube, Jorge Nuno Pinto da Costa a ter uma relação mais fria com a mesma. A partir da igualdade com os bracarenses no Dragão, os azuis e brancos só sofreriam mais uma perda de pontos: Benfica na Luz (0-1, golo de livre de Laurent Robert). Entre fevereiro e abril, a equipa de Adriaanse vence onze de doze jogos, incluindo vitórias em deslocações difíceis (Belém, Setúbal, Coimbra, Alvalade e Penafiel) e todos os jogos caseiros a terminarem em triunfo (Marítimo, Nacional, Paços de Ferreira, Gil Vicente, Leiria e Guimarães). Um período em que resiste à pressão do Sporting (segundo classificado com dois pontos a menos até ao clássico de Alvalade) e sofrendo apenas dois golos no mesmo período.

O clássico frente ao Sporting foi o jogo decisivo, pois se os leões vencessem iam para o topo da tabela. O jogo foi intenso, muito disputado e difícil do ponto de vista disciplinar (13 cartões amarelos e consequentemente duas expulsões). Aos 84 minutos, após pontapé em profundidade de Helton e um bom entendimento entre Adriano e Jorginho, o avançado descobre o extremo entre o setor defensivo do Sporting e faz o golo que praticamente decide as contas do título. Contas que ficariam seladas duas semanas mais tarde, em Penafiel com um triunfo (1-0) após a conversão de um penálti de Adriano e festejado oito dias depois. A última jornada seria um empate a um golo com o Boavista no Bessa.

Curiosamente, três semanas antes dragões e leões tinham-se cruzado na meia-final da Taça de Portugal. Após terem deixado para trás o Marítimo (2-1 após prolongamento nos Barreiros) nos quartos de final, os portistas eliminaram a equipa verde e branca nas grandes penalidades após uma igualdade a uma bola. A final disputou-se no Jamor frente a um Vitória FC que tinha vencido a prova na época anterior (frente ao Benfica por 2-1) e procurava revalidar o estatuto. Jogo que ficaria decidido pelo único tento, aos 39 minutos, golo de Adriano (de cabeça) após cruzamento de Ricardo Quaresma.

Estava decidida e finalizada uma época que fica na história do FC Porto com a conquista da quinta dobradinha da sua história e um projeto consistente que apesar das contrariedades dentro e fora do campo, colheu os seus frutos no fim conciliando a disciplina com o talento.

Jorge Afonso
Jorge Afonso
O Jorge apaixonou-se pelo futebol num dérbi em Alvalade e nunca mais largou. Licenciado em Comunicação Social e mestre em Ciência Política, vive entre estatísticas, memórias épicas e o encanto de equipas como o Barça de Guardiola ou a França de Zidane.

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