“Dragões juntos” – é o lema para esta temporada, mas até agora ainda não se comprovou e, pelas minhas contas, a tendência vai ser sempre a piorar. O momento é delicado e as perguntas sucedem na cabeça daqueles que se mostram incrédulos com a fase que o clube atravessa. Surgem as dúvidas… quando é que começou esta crise? O que a motivou? Ainda há retorno?

Por entre dúvidas, lamentos e contestações, surgem os primeiros indícios de que as coisas estão, realmente, mal. Sérgio Conceição, após a derrota na final da Taça da Liga diante do SC Braga, admitiu que não havia união. A pergunta que surge é: desde quando é que não há?

Um clube que se rege pela transparência e pela forma índole como trata os seus elementos, não pode, de um dia para o outro, apresentar desunião e mal-estar. Esse vai ser sempre o primeiro passo para o descalabro, seja qual for o clube.

Em boa verdade, e mesmo que isso me cause alguma dor, eu também acredito que não haja união e acredito, sobretudo, que tudo começou na estrutura e está a estender-se até aos jogadores.

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2020 é um ano especial por ser um ano de eleições. O presidente Jorge Nuno Pinto da Costa – que assumiu a presidência do clube em 1982 -, vai voltar a recandidatar-se e, possivelmente, voltará a ganhar, exceto se tiver oposição. E ainda assim, mesmo tendo, dificilmente perderá. Nas últimas eleições – em 2016 – o presidente concorreu sem opositores e, inevitavelmente, venceu, mas, pela primeira vez, teve resultados surpreendentes, com 79% dos votos, naquela que foi a votação mais baixa de sempre desde que foi eleito pela primeira vez. Em 2403 votos 505 foram nulos.

Os resultados talvez já fossem uma previsão daquilo que seriam os anos seguintes. O presidente continua a ser amado por todos os adeptos, continua a ser um ícone no mundo desportivo, principalmente por ser o presidente mais titulado do mundo, mas aquilo que todos os adeptos sentem – e talvez sintam bem – é que Pinto da Costa já pouco ou nada manda. E é aí que entram as pessoas que vivem na sombra do clube, e que causam tanta indignação aos adeptos. O nome do filho do presidente, Alexandre Pinto da Costa, vem sempre associado às controvérsias, pela forma como também se integra no clube, mas sem se manifestar publicamente. Nada está provado e nem são factos evidentes, mas as dúvidas pairam. Desde 2013, o FC Porto apenas venceu dois campeonatos e duas supertaças. Está ser um dos períodos mais conturbados da história do clube. Não só por não vencer, mas porque todos os anos o projeto fracassa.

E é nesse ponto que entra também a falta de um plano desportivo. O clube começou a temporada com as mesmas ambições de sempre, mas acaba sem taças para o museu. Sonha, ambiciona, mas não realiza, não concretiza. Falta gestão, falta preparação e, talvez, até falte Antero Henrique. Na altura em que saiu, os adeptos ficaram contentes, mas até agora tem sido sempre a piorar, talvez tenha sido usado apenas para esconder aquilo que ninguém queria que se soubesse.

A par da má preparação e gestão de cada nova temporada, está também a forma leviana com que entram e saem jogadores. Na temporada passada, Brahimi e Herrera – jogadores ímpares no clube – saíram a custo zero. Jogadores influentes e importantes não renovaram, e saíram sem dar qualquer lucro ao clube. Como é que se explica esta falta de gestão? De que forma é que isto podia ser evitado? O que é certo é que já surge o nome de Alex Telles como o próximo jogador a sair e a não dar qualquer lucro ao clube. Um jogador tão fundamental como é o brasileiro pode sair sem que o clube receba rigorosamente nada.

Mas há ainda um caso mais recente de tremenda incompetência: Iván Marcano.
O central, que envergava a braçadeira, saiu do clube também a custo zero e, um ano depois, voltou por cinco milhões de euros. Resumindo, não só não deu lucro como ainda deu prejuízo. Torna-se surpreendente esta gestão danosa.

Sérgio Conceição não é o culpado de todos os males do FC Porto
Fonte: Diogo Cardoso/Bola na Rede

Para além destas saídas e entradas pouco convincentes, o FC Porto depara-se com um problema grave que já tem dois anos: o lado direito da defesa.
A dupla saída de Ricardo Pereira e de Diogo Dalot em 2018 ligou os alarmes no clube, mas até agora as contratações foram completamente ao lado. Manafá e Saravia não corresponderam e o treinador até Corona utiliza nesse setor. O que é certo é que neste mercado de inverno podia ter feito alguma coisa para contornar o problema, mas nem uma mexida, e porquê? Porque, mais uma vez, falta orçamento. E esse orçamento falta porquê? Porque não se capitalizou jogadores para depois haver um investimento.

A falta de verbas para ir ao mercado tem que ver com a má negociação de jogadores, mas é nessas alturas que entra a racionalidade. Se um clube não tem financiamento para ir ao mercado, então tem de potencializar os jogadores da formação. O treinador Sérgio Conceição até tem feito isso, mas de uma forma nem sempre consistente. Apostou em Diogo Costa e Diogo Leite, mas deixou sair Rúben Neves por um valor absolutamente ridículo. Isto para concluir que há situações em que o treinador entende que os jogadores podem ser rentáveis, como tem sido o caso de Romário Baró e Fábio Silva, mas depois tem uma dificuldade enorme em assumir o peso da aposta e acaba por provocar uma baixa de rendimento nesses mesmos atletas, que apenas aquecem o banco.
Se há dificuldades financeiras e se não é possível ir ao mercado buscar reforços que tapem lacunas, então torna-se imperial apostar nos jovens da casa. Mas tão importante como apostar nos jovens da casa é, posteriormente, conseguir aumentar a cláusula de cada um deles.

A nível de reforços, o FC Porto está a anos luz daquilo que já foi. Esta época conta com os reforços mais velhos dos últimos dez anos, com uma média de idades a rondar os 27,29. Em comparação com a época 2010/2011, os números divergem muito. Nessa temporada – em que o FC Porto esteve no auge – a média de idade dos reforços era apenas de 21,7. O que significa que, no futuro, para serem vendidos, o valor no mercado vai ser muito baixo, pela idade e pela forma física que podem eventualmente apresentar. Um dado assustador, mas que certamente pode justificar o futebol pobre que a equipa tem praticado.

Sérgio Conceição alterou radicalmente a forma do FC Porto jogar. Se há uns tempos a equipa tinha posse, critério e qualidade de jogo, agora a equipa apenas procura o avançado. Isto é, joga em profundidade para o membro ofensivo, na expectativa da concretização. Não produz, não vislumbra, não encanta. Falta classe, qualidade e muito mais critério. A equipa apresenta-se lenta, pouco eficaz e sem ideias de jogo. E em termos de concretização, marca menos e sofre mais, evidenciando também a debilidade defensiva. No entanto, a falta de ideias de jogo é evidente até no número de golos marcados através de lances de bola parada. Na época 2017/2018, para o campeonato, o FC Porto marcou 22% dos golos em lances de bola parada e, esta temporada, já elevou para 40,5%. O que significa que este tipo de lances têm conseguido ajudar a equipa a conquistar pontos, ainda assim reforça a má qualidade do jogo corrido.

São vários os fatores que têm feito mossa aos adeptos, há várias opiniões, mas até agora faltam soluções, medidas e um pulso firme. Os jogadores podem dar mais, o treinador pode mudar as coisas, mas tem realmente de ser a estrutura a retratar-se em primeira instância.

Foto de Capa: FC Porto

Artigo revisto por Joana Mendes

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