A administração portista levantou há dias um pouco do véu sobre o Relatório e Contas relativo à época desportiva 2018/2018. Não se trata, ainda, do documento completo, mas já permite uma análise mais ou menos profunda aos proveitos e despesas operacionais. Como tal, ficam aqui as primeiras notas sobre um resultado operacional que apresenta, pela primeira vez em muito tempo, lucro.

A primeira nota tem que ver exatamente com isso. A SAD apresentar lucros depois de tantos períodos contabilísticos com prejuízo terá sempre que ser considerada uma boa notícia, até porque o FC Porto está obrigado a saldos contabilísticos positivos para se livrar da alçada do fair-play financeiro da UEFA.

Depois de uma primeira nota positiva as remanescentes não são, na sua grande maioria, tão animadoras.

Há três anos, quando os custos com pessoal atingiram um máximo histórico de 75 milhões de euros, Fernando Gomes, administrador da SAD portista para a área financeira, anunciava o objetivo e compromisso de reduzir essa folha salarial em 20 milhões de euros. Nas palavras do administrador, à data, era altura de tomar um novo rumo, uma vez que os custos eram já incomportáveis para a realidade do futebol português.

Ora, volvidos três anos, o FC Porto encontra-se visado pela UEFA por incumprimento das regras do fair-play financeiro e a SAD não só não conseguiu reduzir os encargos salariais como como terminou a época transata com os custos com pessoal cifrados nos 92 milhões de euros, um novo recorde na história do clube. Números verdadeiramente alarmantes. Este aumento ajuda a explicar um desvio de 15 milhões na despesa orçamentada para o ano financeiro (foram gastos 150 milhões de euros quando haviam sido estimados cerca de 135 milhões).

Perante estes números, Fernando Gomes atira as rescisões de Bueno e Bazoer, o ajustamento de contratos devido à conquista do campeonato em 2017/2018 e o pagamento de prémios relativos à prestação da equipa na Liga dos Campeões como motores desse brutal aumento de despesa. Nada que possa ou deva surpreender os mais atentos uma vez que o aumento da despesa no ano anterior já havia sido justificado com o pagamento de prémios pela conquista do campeonato.

A SAD liderada por Pinto da Costa apresentou lucros pela primeira vez em muito tempo
Fonte: FC Porto

Não deixa de ser inusitado que independente do sucesso ou fracasso das temporadas há sempre uma via fácil para justificar incumprimentos. Ou se opta por culpar o sucesso desportivo (por via da despesa e dos prémios) ou se coloca o ónus no insucesso (por via da falta de receitas), sendo, até, provável que no próximo ano a eliminação precoce do FC Porto na Liga dos Campeões sirva de bandeira para justificar um qualquer descalabro financeiro.

Transitando, então, do lado da despesa para o lado da receita, é importante referir que, também esta, atingiu um valor recorde. O FC Porto estimava proveitos de 156 milhões de euros, mas os resultados atingiram os 176 milhões. Estes valores são amplamente justificados pela notável performance dos comandados de Sérgio Conceição na passada edição da Liga dos Campeões (que permitiu em encaixe de 80 milhões de euros) num ano em que a prova redefiniu os prémios a distribuir pelos clubes.

A última nota que quero deixar está relacionada com o ativo e o passivo da SAD. Ambos sofreram reduções. O ativo caiu 53 milhões de euros e o passivo foi reduzido em 56 milhões, estando, agora, cifrado nos 408 milhões de euros. O saldo entre ativo e passivo traduz-se em capitais próprios negativos de quase 35 milhões de euros, mantendo-se, portanto, a SAD numa situação de falência técnica. A situação é de extrema gravidade.

É uma situação que comprova que, em Portugal, os clubes gozam de uma impunidade sem paralelo. Qualquer outra empresa na situação do FC Porto e de outros clubes em Portugal estaria perto de fechar portas, no entanto, os clubes, pelo seu peso social e, até, político mantêm-se à tona mesmo em situações financeiras calamitosas.

Assim, depois da boa campanha da Liga dos Campeões e das vendas de Felipe e de Éder Militão no fecho do exercício, o FC Porto terminou o período contabilístico referente à época 2018/2019 com lucro de 9,5 milhões de euros. É um resultado de salutar, até tendo em conta que o que estava previsto era um superavit de 1,5 milhões. No entanto, não pode nem deve servir para escamotear as gritantes debilidades financeiras do clube e a gestão danosa levada a cabo pela administração da SAD que, não consegue conter o crescimento galopante da despesa e que, perante números tão preocupantes, ainda conseguiu encontrar razão para incrementar os seus altos vencimentos.

Foto de capa : FC Porto

Revisto por: Jorge Neves

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Fervoroso adepto do futebol que é, desde o berço, a sua grande paixão. Seja no ecrã de um computador a jogar Football Manager, num sintético a jogar com amigos ou, outrora, como praticante federado ou nos fins-de-semana passados no sofá a ver a Sporttv, anda sempre de braço dado com o desporto rei. Adepto e sócio do FC Porto e presença assídua no Estádio do Dragão. Lá fora sofre, desde tenra idade, pelo FC Barcelona. Guarda, ainda, um carinho muito especial pela Académica de Coimbra, clube do seu pai e da sua terra natal. De entre outros gostos destacam-se o fantástico campeonato norte-americano de basquetebol (NBA) e o circuito mundial de ténis, desporto do qual chegou, também, a ser praticante.                                                                                                                                                 O Bernardo escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.