eternamocidade

Que o futebol é um jogo de emoções, isso já toda a gente sabe. Que o futebol nos leva a estados de alma como talvez nenhuma outra coisa consegue, isso também é de conhecimento geral. É um jogo e só por isso, nesta equação, a emoção está presente. É indiscutível que sempre foi assim e sempre será no futebol e no desporto em geral. Quanto a isso, não há volta a dar. Quer queiramos quer não, no que toca a emoções, é uma evidência que estas se tornam cada vez mais intensas à medida que o fim da história se aproxima. Como em tantas outras áreas – o cinema, a música, a literatura – não raras vezes o clímax de cada atividade leva a que a nossa exteriorização emocional seja mais forte que nunca.

No futebol, os picos de emoção não são constantes. Afinal de contas, para um simples adepto, não é a mesma coisa ver um FC Porto – Penafiel ou um FC Porto – Bayern, como não será a mesma coisa para um amante de literatura ler um clássico ou um livro de trazer por casa. No campeonato que termina este fim de semana, os adeptos portistas terão tido possivelmente mais picos de emoção do que o que esperavam. Aliás, não deixa de ser interessante recuar na história cerca de dez meses e ver que, no início da temporada, seriam quase todos os que previam um passeio ao longo desta época para o FC Porto. Não vou dissecar novamente o porquê de esta época ter sido um fracasso em termos desportivos, e não, não vou voltar a carregar sobre Julen Lopetegui ou sobre a atitude de muitos dos jogadores.

Neste texto, decidi analisar uma das semanas mais tristes a que assisti nos últimos tempos na nação portista. O empate no Restelo, que simbolizou a entrega final do título ao rival, foi o rastilho para que a fogueira finalmente se acendesse. A partir daquele momento, e até porque as televisões, as rádios e os jornais nos preenchiam o olhar com a festa adversária, a contestação acabou por chegar. Mascarada ou não, o que é facto é que, mesmo tendo visto as competições a cair aos poucos, aquilo que aconteceu à chegada da equipa ao Dragão no último domingo foi o primeiro e único capítulo deste tipo de manifestações. Justo ou não, o facto é que os adeptos portistas, tão contestatários em outras ocasiões – em que provavelmente tinham menos razões para protestar – decidiram, ao fim de nove meses de competição, sair à rua. Como em outras ocasiões, esperaram pelos principais jogadores. De treinador a jogadores, ninguém escapou à sua fúria e à sua indignação pelo jogo miserável que a equipa tinha acabado de realizar no Estádio do Restelo. Enquanto observador, considerei de todo justa aquela receção. Depois de uma exibição tão miserável como aquela, alguém tinha de fazer alguma coisa. E não, não estou a falar do joelho no chão de Lopetegui ou do banco partido no Restelo. Falo dos adeptos porque, quer se queira quer não, são eles que sustentam o clube nos bons e nos maus momentos e por isso devem ser os primeiros a poder reclamar.

Uma das frases que marcou o jogo Fonte: Fotos da Curva
Uma das frases que marcou o jogo
Fonte: Fotos da Curva

No entanto, o que mais me preocupou foi o que vi a seguir, no primeiro treino da semana. Com pás e picaretas, os Super Dragões decidiram bloquear as ruas que dão acesso ao Centro de Estágios do Olival. A meu ver, a ideia foi, a todos os níveis, notável. De facto, depois de um jogo como o do Restelo, também eu fiquei com a opinião de que se calhar os jogadores não precisavam de trabalhar mas sim de umas boas horas no duro para verem o que realmente é trabalho. Contudo, e voltando ao início do parágrafo, aquilo que se seguiu a este episódio foi, a meu ver, ridículo. Em primeiro lugar, a reação da direção portista, na newsletter Dragões Diário, que aceitou o descontentamento dos adeptos mas se insurgiu contra aquela suposta interferência da claque na planificação da equipa, utilizando o histórico bloqueio de Cuba para mostrar ao público portista que uma ação daquelas já não se justificava. Objetivamente, parece-me claro que a direção portista deu um completo tiro ao lado ao usar uma analogia destas e a repudiar de forma tão veemente um protesto tão pacífico. Ao ler uma inquietação tão grande apenas porque uma centena de adeptos decidiu ser “original”, não deixei de me lembrar daquela célebre noite, depois de uma derrota em Coimbra, em que os adeptos portistas atiraram tochas para o autocarro e quase obrigaram a que este parasse. Naquela altura, se bem me recordo, não houve newsletter alguma ou recado algum que repudiasse o que quer que fosse. Talvez seja uma simples curiosidade ou coincidência.

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Como não podia deixar de ser, a claque acabou por não se esconder atrás das palavras da direção. Num texto com várias referências a palavras do comunicado portista na newsletter do clube, a claque vincou o seu direito à contestação. “Os deveres que temos perante o nosso clube são também acompanhados pelos direitos. Não perceber isso é pensar que só servimos para aplaudir”, lia-se na mensagem dos Super Dragões. Tivesse esta troca de palavras ficado por aqui e seria o primeiro a dizer que a claque portista teria dado uma verdadeira bofetada de luva branca à direção portista. De facto, um protesto com pás e picaretas não justificava uma reação daquelas, até pela importância que os Super Dragões têm para o FC Porto.

É certo que a claque liderada por Fernando Madureira tem vários capítulos que envergonharam o clube mas também é facto que, de há uns anos para cá, a situação tem-se alterado, o que tem contribuído para uma maior pacificação entre as claques dos clubes grandes. Para além disto, para um clube como o FC Porto, penso que uma mensagem destas só mostra a tal ingratidão de que hoje falo. Nas vitórias e nas derrotas, nos bons e nos maus jogos, eles estiveram sempre lá. Vendo equipas gloriosas e outras absolutamente medíocres, eles estiveram sempre lá. Por tudo isso, uma mensagem como aquelas era completamente desnecessária, tendo em conta a razão pela qual os protestos tinham sido originados.

Ainda assim, neste “duelo de emoções e de recados”, o jogo contra o Penafiel acabou por simbolizar o toque final, não só na época mas nesta disputa entre os dois lados da barricada. E aqui eu não posso concordar totalmente com o que as duas claques portistas fizeram durante o jogo contra os durienses. Mas vamos por partes: ao longo da temporada, não raras vezes eu próprio alertei para algo que me perturbava no clube. A falta de palavras da direção levou a que Lopetegui tenha sido quase sempre o único a dar o peito às balas. Também por isso, por parecer estar tão sozinho, o treinador espanhol cometeu tantos erros, ao não saber nunca quando falar e quando estar calado. Pinto da Costa admitiu-o, na entrevista dada ao JN, mas diria que, neste caso, as ações teriam sido bem mais importantes do que estas palavras. Aquilo que a direção devia ter percebido desde o início é que Lopetegui estava no seu primeiro ano enquanto treinador de equipa grande, no primeiro ano enquanto treinador no campeonato português e, no meio de tantos erros próprios e alheios, alguém o devia ter protegido.

Este foi o jogo de despedida de Danilo(e provavelmente de Helton) Fonte: Facebook do FC Porto
Este foi o jogo de despedida de Danilo(e provavelmente de Helton)
Fonte: Facebook do FC Porto

Nunca o fizeram e também por isso, tal como referi no meu último texto, tornou-se difícil separar o trigo do joio relativamente ao técnico espanhol. Por tudo isto, aquela primeira tarja mostrada pelos Super Dragões, no início da partida contra o Penafiel, fazia todo o sentido. “Existe no silêncio tão profunda sabedoria, que às vezes ele se transforma na mais perfeita resposta”, lia-se. A frase, tão simples quanto acertada, simbolizava muito daquilo que tinha sido a época e muito do que tinham sido os erros da estrutura portista. Infelizmente, o problema veio depois, com o decorrer dos minutos e da exibição paupérrima da equipa.

Mesmo tendo feito mais uma exibição muito cinzenta, penso que a equipa não merecia grande parte do comportamento que os adeptos tiveram. Em relação às claques, ver mensagens como “Hoje são 90 minutos à vossa imagem, sem mexer uma palha” é, a meu ver, absolutamente ridículo, sobretudo se atentarmos que estes são os mesmos adeptos que há bem pouco tempo foram ao aeroporto depois de uma goleada sofrida em Munique. Para além disso, e apesar dos erros que a equipa cometeu, dizer que a equipa não “mexeu uma palha” durante a época não tem o mínimo fundamento. É certo que o campeonato foi, em grande parte, perdido por erros próprios, mas não nos podemos esquecer do futebol de qualidade que a equipa praticou em vários momentos e da imagem europeia que deixou na Liga dos Campeões. É certo, e eu sou o primeiro a admitir, que um plantel como estes podia e devia ter sido campeão. Mas uma coisa é mostrar onde se errou e outra bem diferente é ser-se demagogo e mudar de postura de forma tão fácil como se muda de camisa. Para mim ser adepto não é isso.

Para além da inacreditável assistência da época (pouco mais de 16000 adeptos), outra das coisas que mais me perturbaram na última sexta-feira foi ter visto as duas claques – Coletivo Ultras 95 e Super Dragões – abandonarem as bancadas do Dragão a cerca de cinco minutos do fim da partida. Num jogo que é o último do campeonato, sendo um jogo que simbolizava a despedida de jogadores como Danilo, (muito provavelmente) Jackson e talvez Helton, como é que se explica que as duas claques tenham simplesmente saído do estádio? Sendo os últimos momentos de pelo menos dois dos jogadores mais importantes do clube nas últimas temporadas, há algo que explique um comportamento destes? Sinceramente, eu acho que não. Neste mesmo texto, dei a razão às claques de protestarem pelo comportamento da equipa. Com uma exibição daquelas no Restelo, aquilo que os Super Dragões fizeram se calhar até foi pouco para aquilo que os jogadores mereciam, tendo em conta o clube que defendem.

Aquilo que eu não consigo perceber é que, no meio de birrinhas idiotas com a direção, este tipo de adeptos possa fazer uma coisa destas a alguns jogadores do plantel. Mesmo podendo ter alguma razão do seu lado, penso que eles próprios tê-la-ão perdido ao fazerem aquilo, abandonando a equipa e deixando sem uma última despedida jogadores que a mereciam. Não é preciso fazer-se grandes cálculos para se perceber a importância de Danilo e Jackson ao longo das últimas épocas: 92 golos marcados pelo colombiano, com mais dez do brasileiro e vários momentos de bom futebol dados por dois jogadores de classe mundial. Ao longo de três épocas e meia (Danilo) e três (Jackson), mesmo tendo cometido muitos erros, eles foram quase sempre as figuras maiores do plantel. Por tudo isso, aquilo que vi no Dragão na última sexta-feira envergonhou-me. E envergonhou-me mais por saber que os adeptos que abandonaram o Dragão são os mesmos que veneram um jogador que foi parar ao museu do clube por ter feito um golo aos 92 minutos. E envergonhou-me por saber que são os mesmos adeptos que veneram um jogador que acabou um clássico aos beijos com o treinador rival.

Possivelmente serei muito criticado por este texto, mas depois do que vi no anfiteatro portista não podia deixar de assinalar aquilo que aconteceu na última semana, porque me entristeceu. E sobretudo porque mostrou uma das coisas mais tristes que alguém pode demonstrar: ingratidão. Em primeiro lugar a direção, pelo que disse do protesto da claque. Depois os adeptos, que não apareceram no último jogo de campeonato. E por último as claques, que decidiram abandonar o estádio e esquecer-se de que havia jogadores que não mereciam aquilo que eles fizeram. Talvez não fosse mal pensado mostrarem a todos as imagens deste fim de semana – em Espanha, com a despedida de Xavi; na Alemanha, com a despedida de Klopp; ou em Londres, com a despedida de Drogba – para ilustrar que a falta de memória é uma das piores coisas no futebol. Para mim, o que se passou na semana portista foi triste e sinceramente espero que tenha sido uma exceção de ambas as partes. E isto porque, mesmo quando se perde, há certos valores que não podem ficar esquecidos. Espero é que no fim de tudo isto, todos sem exceção metam isto na cabeça. Pelo bem do clube.

Foto de capa: Fotos da Curva