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Num dos campeonatos mais quentes dos últimos anos, é caso para dizer que dificilmente o FC Porto poderia ter entrado de melhor forma. Com uma exibição segura, consistente e de grande qualidade, a vitória robusta por 3-0 frente ao V. Guimarães foi curta para tanta produção ofensiva. De destacar, pois claro, a exibição enorme de Aboubakar, um avançado que na época transata andou a reboque de Jackson mas que, pelo que se viu frente aos vimaranenses, quer mostrar credenciais na nova época. Varela, Imbula, Danilo Pereira e Maxi Pereira foram outros destaques de uma primeira jornada que trouxe um FC Porto assertivo perante uma boa equipa.

Como acontece frequentemente nesta fase da época, os exageros emocionais são uma constante. Ao longo das últimas semanas, bastava entrar nas páginas oficiais do clube nas redes sociais para se perceber a enorme quantidade de treinadores de bancada que, por alturas do verão, aparecem dando palpites sobre a suposta formação do plantel. Há aqueles que acham que o plantel está completo e pronto para a maratona que se avizinha; e há os outros que nunca estão totalmente satisfeitos e que consideram que faltam sempre jogadores. Depois de uma exibição como a deste sábado, creio que o risco maior que pode acontecer ao FC Porto é ficar paralisado no mercado. Ou seja, é certo que o jogo contra o Vitória trouxe coisas muito positivas à equipa e aos adeptos, mas a realidade mostra-nos que nem sempre será assim. No final do jogo, os mais eufóricos – fossem adeptos de bancada ou jornalistas – já começavam a “esquecer” Jackson Martinez, fazendo desde já de Aboubakar a última “bolacha do pacote”. Até há bem pouco tempo, todos diziam que Lopetegui precisava de um médio criativo como de pão para a boca. Ao ver as exibições de Danilo Pereira, Imbula ou André André, esse é um capricho que parece, à luz dos mais emocionais, já não fazer sentido nas contas da direção portista.

Bom, como já deve ter percebido, esta é uma visão com a qual não estou minimamente de acordo. Tal como referi no meu artigo da última semana, creio que este plantel do FC Porto ainda tem pontas soltas que precisa de rever nas últimas duas semanas de mercado. Relativamente à composição do plantel, a meu ver a posição de médio criativo, ou médio de “último passe”, é aquela que ainda pede um novo jogador. Senão vejamos: da exibição frente ao Vitória de Guimarães, sobraram elogios para a suposta nova ideia de jogo de Julen Lopetegui. Ao ver a exibição portista na estreia do campeonato, ficou a ideia de uma equipa mais rápida, intensa e sobretudo vertical na exploração do jogo ofensivo. Para a confirmação destas premissas, em muito contribuiu a composição do meio campo portista e as caraterísticas dos seus jogadores. Olhar para Danilo Pereira, Herrera e Imbula é quase como olhar para um meio campo com rotação máxima do primeiro ao último minuto. Aliás, as semelhanças táticas destes três jogadores fazem com que o meio campo do FC Porto tenha sido mais de combate do que imaginação, resultando no primeiro capítulo da luta entre a técnica da força e a força da técnica.

Imbula é o “espelho” da agressividade tática portista
Fonte: Futebol Clube do Porto

Quando comparamos este meio campo com o da época passada (Casemiro, Herrera e Oliver Torres), percebe-se claramente onde é que os defensores da nova ideia de jogo portista querem chegar. Bem vistas as coisas, por exemplo, não se pode pedir ao ex-jogador do Marítimo que tenha a mesma qualidade com bola que tinha o agora jogador do Real Madrid. Aliás, essa é talvez uma das razões para Lopetegui ter preferido Danilo Pereira a Rúben Neves, numa clara opção pela “agressividade tática” em detrimento da qualidade na primeira fase de construção. No caso de Danilo, ninguém pode esperar que o internacional português faça um passe de 50 metros como fazia Casemiro ou como faz Rúben Neves; o que podem esperar é que, na sombra da “sala de máquinas” portista, ele seja sempre o pronto-socorro nos momentos de desposicionamento defensivo. No caso de Imbula, as diferenças do internacional francês para com Oliver Torres são tão evidentes que saltam à vista de todos. Quem via em campo o atual médio do Atlético de Madrid sabia que, do seu magnífico pé direito, vinha quase sempre uma bola “com selo” de golo. Com uma inteligência posicional invulgar para alguém tão jovem, Oliver foi sempre um dos principais faróis da estratégia de Lopetegui. Nada surpreendente, tal a qualidade do médio espanhol. No caso de Giannelli Imbula, as diferenças são gritantes: o médio que proporcionou a contratação mais cara da história do futebol português é um verdadeiro “box-to-box do futebol moderno”. Com uma passada larga e uma dimensão física acima da média, Imbula dá algo pelo qual o futebol portista desesperava há anos: agressividade tática. Uma das principais lacunas apontadas ao FC Porto na última época era a de ser uma equipa demasiado “macia” em termos táticos. Para que isso tivesse sido uma realidade, em muito contribuiu a ideia imaginada por Lopetegui, que nunca pareceu ter um “Plano B” para contrapor à ideia de posse que o perseguiu durante a última época.

É nesta diferença entre a “técnica da força e a força da técnica” que reside a minha principal dúvida à partida para a nova época portista. Durante a última época, fui criticando o treinador espanhol por não raras vezes “não perceber o futebol português”, nas suas dimensões física e tática. Com um campeonato tão longo, é preciso perceber os vários momentos da competição e, para isso, é preciso ter um plantel eclético que permita à equipa poder ter várias caras durante a mesma época, sem que com isso a ideia tática mude. Ao olhar para a composição atual do meio campo portista, e tal como já referi na última semana, vejo diversos médios “iguais” em termos de caraterísticas. Apesar de cada um ter as suas especificidades, a verdade é que olhar para Danilo Pereira, Rúben Neves, Herrera, André André, Sérgio Oliveira, Imbula e Evandro é ter a perceção de estarmos perante um conjunto de médios com mais “coração do que cabeça”.

Futebolisticamente falando, creio que a grande lacuna do miolo portista é a falta de criatividade que ainda demonstra. Quando me refiro a criatividade, esta não tem que estar atrelada àquele médio ofensivo que, no século XX, pouco ou nada defendia. No futebol moderno, esse tipo de comportamento já não é permitido e tendo em conta a exigência competitiva da época portista, esse “médio de valor acrescentado” terá que ser alguém com a capacidade de juntar a capacidade criativa à de trabalho defensivo. Bem sei que, no mercado, encontrar um jogador com estas caraterísticas obrigará a um exercício financeiro que não sei até que ponto o FC Porto poderá fazer. Ainda assim, parece-me claro que, e tendo em conta aquilo que vimos na última época, é essencial para responder a tantos momentos competitivos ter um plantel suficientemente elástico .

Ao olhar para o meio campo que ajudou a derrubar o Vitória de Guimarães, a ideia que me deu é que Lopetegui não tem nem quer ter uma ideia diferente de jogo. A qualidade na posse de bola é e será sempre a sua bandeira e, talvez por isso, é que no seu discurso se percebe que ele próprio ainda espera por esse médio criativo. A meu ver, a composição do meio campo com Danilo, Herrera e Imbula é só a evidência do treinador em mostrar que os médios que tem ao seu dispor são todos “demasiados parecidos”. Como analista, creio que seria essencial aliar a esta capacidade de trabalho a imaginação que, por vezes, tanta falta faz a uma equipa. É que, bem vistas as coisas, nenhuma das fórmulas está totalmente certa e totalmente errada. O segredo é juntar as duas componentes num equilíbrio perfeito para dar resposta a tantos desafios e a tantas competições. Resumidamente, trata-se de aliar a técnica da força à força da técnica.

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