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Mais uma jornada passada e, entre as vitórias naturais de FC Porto e Benfica, o que se destaca da jornada 21 é, naturalmente, o empate do Sporting, no Restelo, e o consequente adeus da equipa de Marco Silva ao título nacional, deixando difícil inclusive a possibilidade de se chegar à formação de Lopetegui, que conta com cinco pontos de vantagem para o Sporting.

Relativamente à equipa portista, devo destacar a forte primeira parte que o FC Porto fez contra o Vitória de Guimarães. Com um futebol agradável e intenso – que culminou numa mão cheia de boas oportunidades de golo –, chegar ao final dos primeiros 45 minutos do encontro apenas com o 1-0 no marcador era manifestamente pouco para o caudal ofensivo que a equipa tinha demonstrado. No segundo tempo, a imagem do jogo alterou-se: o Vitória subiu o seu bloco, e durante os primeiros vinte minutos os portistas pareceram adormecidos e amorfos, dando a ideia de que o pensamento já estava no jogo da próxima quarta-feira, em Basileia, a contar para a primeira mão dos oitavos de final da Liga dos Campeões.

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Aliás, mesmo não tendo criado qualquer oportunidade de golo, o Vitória de Guimarães, durante os primeiros vinte minutos da segunda parte, foi acreditando que seria possível sair do Dragão com pontos. Desse ponto de vista, não posso deixar de salientar a importância de Lopetegui: mexeu na equipa quando ela mais precisava, sendo que, com as entradas de Tello e Rúben Neves, o FC Porto voltou a dominar o jogo como quis e a criar mais três excelentes oportunidades até ao final da partida. Contudo, esse “baixar de guarda” de vinte minutos dos portistas foi algo que me preocupou e o que me leva a escrever este texto.

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O triunfo perante o Vitória SC ficou marcado por 20 minutos de menor fulgor portista
Fonte: Página de Facebook do FC Porto

Admito que, quando escrevi o último texto acerca do ciclo infernal que o FC Porto teria – com 7 jogos em 30 dias (divididos entre Campeonato e Liga dos Campeões) – receei que aqueles “20 minutos” fossem acontecer com mais frequência. Ou seja, com tantos jogos em tão poucos dias, e sobretudo com a Liga dos Campeões à cabeça, era inevitável que a equipa se desligasse em certos momentos dos jogos. Esse é o efeito negativo que a Liga dos Campeões tem: numa competição como a Champions, onde estão os melhores jogadores e as melhores equipas, todos querem lá estar, dê por onde der. Nesse contexto, Lopetegui bem avisou na conferência de imprensa de antevisão ao jogo contra o Vitória que, quem estivesse a pensar no Basileia antes do tempo, veria o jogo de quarta-feira em casa.

Bom, apetece-me dizer que essa profecia de Lopetegui não é mais do que “conversa para adepto ver”. Isto porque a Liga dos Campeões funciona quase como um “bicho papão” que, quando se aproxima, não deixa espaço para nada mais. Ao olhar para a primeira fase da época portista (até dezembro, quando terminou a fase de grupos), esse foi um comportamento que não raras vezes se viu nos jogos do FC Porto. Por isso, não é de estranhar que, entre os seis jogos da primeira fase da competição milionária, os portistas tenham perdido seis pontos que tanto lhe fazem falta neste momento, nos jogos com o Vitória, o Boavista e o Sporting. Às custas deste tipo de “20 minutos” é que os portistas foram perdendo pontos que não podiam e que explicam, em parte, a desvantagem de quatro pontos para o primeiro classificado.

Em Fevereiro, a febre da Liga dos Campeões regressa: voltam os grandes jogos e os grandes duelos. O mundo do futebol aguardava há dois meses pelos oitavos de final e acredito que os próprios jogadores do FC Porto também. Aliás, não raras vezes durante os meses de Janeiro e Fevereiro se viram declarações de jogadores a falarem sobre o duelo contra a equipa de Paulo Sousa. Caro leitor, quero deixar claro que, tal como tantos milhões de adeptos, a Liga dos Campeões é igualmente a competição que mais aprecio no futebol. É inevitável que isso aconteça. Mas, friamente falando, penso que esse não deve ser o comportamento dos jogadores portistas. Bem sei que nestas horas que antecedem o jogo contra o Basileia, todos os portistas se irão lembrar das míticas vitórias de 1987 e 2004 ou dos jogos lendários que o FC Porto foi fazendo ao longo dos últimos anos na Liga dos Campeões. Obviamente que eu, como qualquer outro adepto, também não me canso de ver e rever a vitória de Gelsenkirchen, a exibição de sonho em Manchester, culminada no empate a dois golos, ou o jogo de gala que este ano a equipa fez em pleno San Mamés. Não me esqueço de nada disso porque a nossa história assim o obriga; mas também não me esqueço de que, objetivamente analisando o futebol europeu, é utópico considerar-se que o FC Porto pode chegar à final de Berlim, a 6 de junho deste ano. Com um futebol tão bipolarizado entre “ricos” e “pobres”, onde cada vez mais se distinguem clubes como o Barcelona, Real Madrid, Bayern de Munique ou Chelsea, será razoável pensar-se que, no meio de tantos tubarões, o FC Porto pode vencer o troféu mais desejado no futebol do “velho continente”?

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Brahimi é 2º melhor marcador do FC Porto na Champions, com 4 golos
Fonte: Página de Facebook do FC Porto

Sinceramente, e mesmo dando de caras com o melhor plantel dos últimos largos anos, acredito que não é possível lutar contra formações tão fortes como as espanholas, alemãs ou inglesas. Bem sei que o sorteio até pode ajudar a que se chegue mais longe mas, mesmo com alguma sorte na escolha do adversário, pensar que uma equipa portuguesa pode chegar sequer a uma meia-final da Champions não passa, na minha opinião, de uma ilusão.

Ainda assim, não se pense que, com este discurso, me alinho com certos clubes e treinadores que acham que as competições europeias não interessam para nada. Várias vezes já repudiei este tipo de pensamento que considero ser “provinciano”. Para um clube que quer ser grande, não basta sê-lo dentro de portas, onde os adversários internos são sempre os mesmos. Para um clube que quer ser grande, acredito que só nas competições europeias é que se consegue ter uma notabilidade que o campeonato português não pode obviamente dar.

A Liga dos Campeões é por isso a montra onde todos os grandes clubes devem querer estar. O FC Porto não pode nem deve ser exceção: se quer continuar a ser o clube português com mais destaque a nível internacional, tem de continuar a estar consecutivamente entre os melhores da Champions. Ficar pela fase de grupos não basta e estar nos oitavos de final deve ser uma obrigação. Chegando a esta fase da prova, e sobretudo defrontando uma equipa que nos é inferior, o FC Porto pode e deve sonhar com a possibilidade de estar entre as oito melhores equipas europeias. Por isso, na eliminatória contra os suíços, aquilo que espero é que a equipa mostre vontade, atitude, garra e competência. Só assim será possível sonhar com o apuramento e acreditar que a Liga dos Campeões pode trazer muitas surpresas para o clube.

Contudo, mais do que os sonhos dourados que a Liga dos Campeões traz a adeptos e jogadores, acredito que o FC Porto – com 13 jornadas de campeonato para disputar – deve, sem nunca descurar a competição milionária, olhar sempre de forma prioritária para a liga interna, pois não tenho dúvidas de, entre chegar aos quartos-de-final ou ser campeão nacional, qual seja o desejo de 99% dos adeptos portistas. Isto porque, de forma realista, todos sabem que a Liga dos Campeões é um sonho do qual mais tarde ou mais cedo o FC Porto vai ter de acordar. Por isso, entre este ciclo infernal de jogos, o meu desejo é simples: honrem a camisola como sempre, seja qual for o jogo. A vitória deve ser o nosso objetivo, seja qual for a competição. Mas não se esqueçam de uma coisa: como em tantas outras atividades, nós portugueses ainda somos pequeninos para lutarmos com os tubarões. Por isso, só vos peço para que os “20 minutos” do jogo contra o Vitória não se repitam. É que no fim de contas, conquistar o campeonato deve continuar a ser o nosso primeiro pensamento.

Foto de capa: Página de Facebook do FC Porto