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A 30 de outubro de 2014, aquando da conferência de imprensa de antevisão do FC Porto-Nacional, algo se destacava de forma mais acentuada do que Julen Lopetegui. Falo, se bem se recorda, de um uma curta e esclarecedora mensagem que a estrutura portista deixou à frente do técnico espanhol, e onde se lia a frase “Enquanto se canta, não se assobia”.

Na mente dos adeptos portistas estava ainda aquela que foi a primeira das três derrotas que a equipa somou nos trinta e dois jogos oficiais já disputados. Contra o Sporting, para a Taça de Portugal, a equipa de Julen Lopetegui havia perdido 1-3, num jogo marcado por vários erros defensivos inacreditáveis, por um penalti falhado por Jackson Martinez e por uma exibição de personalidade leonina em pleno Dragão. Com a eliminação da Taça, para os adeptos portistas, que haviam enchido o anfiteatro portista, ficava a frustração do primeiro desaire da temporada e da primeira exibição verdadeiramente aquém do esperado.

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As vitórias frente a Atlético de Bilbau e Arouca, para a Liga dos Campeões e campeonato, não foram argumentos suficientes para que as dúvidas parassem de crescer em torno daquilo que Lopetegui conseguiria fazer com um plantel tão qualificado. Por isso, para a estrutura portista, naquela conferência de imprensa de antevisão ao duelo contra os madeirenses, tornava-se essencial dar “um murro na mesa” contra uma parte da plateia portista. A mensagem era clara e tinha como principal objetivo motivar os adeptos para o apoio constante à equipa.

Na última semana, num vídeo de promoção do FC Porto ao jogo contra o Paços de Ferreira, o departamento de comunicação portista colocava os dois intervenientes do vídeo a defender novamente a mensagem de que os adeptos não deveriam assobiar a equipa. Aliás, um dos protagonistas realçava inclusivamente que sabia assobiar, mas que não o iria fazer.

Bom, enquanto adepto e sobretudo enquanto analista de realidade portista, admito que não concordei com as duas mensagens do clube acerca desta temática. E digo isto porque, tal como acontece em tantas outras ocasiões, penso que o FC Porto acabou por “confundir a árvore com a floresta”. Sou sócio, com lugar anual, há catorze anos e ao longo deste período já perdi a conta às centenas de jogos a que assisti ao vivo no Estádio das Antas e no Dragão. Desde 2001, foram vários os títulos e as vitórias que festejei, as derrotas com que sofri e os momentos que jamais esquecerei. Aliás, tudo isso faz parte do “ser adepto”: lidar com vitórias, saber ultrapassar as derrotas e sobretudo nunca esquecer o verdadeiro sentimento do clube.

Adeptos  Fonte: Facebook do FC Porto
Os adeptos devem ou não assobiar?
Fonte: Facebook do FC Porto

Como detentor de lugar cativo no Dragão, não posso obviamente (tantos são os jogos a que assisto) deixar de olhar para o lado e perceber o adepto que tenho junto a mim já sofreu horrores pelo clube de que ambos gostamos. Apesar de todas as diferenças que possam existir entre nós, o importante é aquilo que nos traz ali frequentemente: o amor ao clube e a dedicação a algo que por vezes nos alegra, noutras nos desilude mas que, seja qual for o resultado, está sempre no nosso pensamento.

Contudo, o que é facto é que, ao longo dos últimos anos, não pude deixar de reparar que, na maioria dos jogos do FC Porto, são cada vez menos as pessoas que estão a junto a mim no Dragão. Acredito aliás que isso é notório para qualquer espetador, bastando para isso ver a redução no número médio de adeptos portistas no seu estádio. De uma média que rondava os 35000 adeptos até há bem poucos anos, hoje em dia é raro, num jogo de nível médio, como o que tivemos ontem contra o Paços de Ferreira, o Dragão ter mais de 30 mil nas bancadas.

Bem sei que a vida dos portugueses está muito complicada em virtude dos problemas financeiros que assolam o país nos últimos anos. Por isso, não é de estranhar que opções tenham de ser feitas quanto à forma como se gasta o dinheiro. Sendo o futebol apenas “a coisa mais importante das menos importantes da vida”, naturalmente nem sempre há disponibilidade para, época após época, reservar uma cadeira no Estádio do Dragão. Aliás, eu próprio tive de fazer um interregno de um ano sem lugar anual porque assim a vida o exigiu.

Todavia, não é para os adeptos com problemas monetários que falo, e acredito que também não fosse a esses que as mensagens do FC Porto se dirigissem. Enquanto adepto portista, eu viro a agulha para os “outros” adeptos: aqueles que só vão ao Dragão “quando o rei faz anos” ou, futebolisticamente falando, quando há jogo grande na Liga dos Campeões ou quando há clássico contra Sporting ou Benfica para o campeonato ou Taça de Portugal.

Carinhosamente, costumo chamar-lhes “adeptos das pipocas”. Talvez a designação não seja a melhor, mas confesso que a escolhi porque, quando me recordo deste tipo de adeptos, a imagem que me vem à cabeça é sempre a do balde de pipocas que estes compram antes do jogo e que apenas largam, durante os 90 minutos, para soltar um ou outro aplauso para o jogador de que mais gostam ou para um ou outro assobio quando não gostam de um lance.

Adeptos  Fonte: Facebook do FC Porto
Nos últimos dois anos, o Dragão teve uma média inferior a 30.000 adeptos por jogo
Fonte: Facebook do FC Porto

Não quero, com este texto, que pense que estou a fazer um juízo de valor a quem quer que seja. Aliás, essa não é a minha intenção porque, mesmo enquanto adepto, não sou ninguém para julgar quem quer que seja. Contudo, não é por isso que deixo de dar a minha opinião perante este tipo de adeptos que parecem ser cada vez mais frequentes no sítio de que tanto gosto, o Estádio do Dragão. Com tantos anos a acompanhar o clube, confesso que sinto alguma tristeza por este novo tipo de apoio, que vai e vem consoante os resultados. Aliás, bastaria que o FC Porto diminuísse a distância pontual para o Benfica ou chegasse mesmo ao primeiro lugar do campeonato para que os 25.000 do jogo contra o Paços de Ferreira se transformassem em 35.000 ou 40.000 no jogo contra o Sporting no início do mês de Março.

Por ter aprendido o que é “ser Porto” desde que me lembro é que fiquei triste por ver a mensagem que o clube deixou aos adeptos. Sobretudo, fiquei desiludido porque, na minha opinião, ser adepto significa criar uma relação de proximidade, como a de dois melhores amigos. E nessas relações de amizade, o que me ensinaram é que a infelicidade nos permite conhecer os verdadeiros amigos. No futebol acredito que o sentimento deva ser o mesmo. Não podemos aparecer apenas nos momentos bons e quando se ganha; há que estar sempre que possível junto da equipa, assim a vida nos permita. E esse apoio não tem de ser só com aplausos porque os assobios também devem servir para que a equipa cresça. Aliás, por que razão terei eu de aplaudir se acho que a equipa não está a honrar a camisola? Por isso é que ao longo destes catorze anos aplaudi em muitas ocasiões e assobiei em tantas outras. E isto porque, tal como em qualquer amizade, esta é uma relação que tem coisas boas e más. Mesmo que sejam cada vez menos aqueles que estão lá sempre. Esse foi o problema das mensagens do departamento de comunicação do FC Porto. O de “confundir a árvore com a floresta”.

Foto de Capa: Facebook do FC Porto