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Referiu Julen Lopetegui, na conferência de imprensa de antevisão ao jogo com o Moreirense, que o FC Porto é “uma equipa muito previsível”. Isto porque o técnico espanhol acredita que, jogando em casa ou fora, os portistas têm sempre uma atitude ativa no jogo, em procura da vitória. Esta foi uma ideia trazida devido à questão de um jornalista relativamente à hipótese de o FC Porto ser uma equipa bipolar, tendo em conta as dificuldades para jogar fora de casa. Não posso deixar de afirmar, caro leitor, que a ideia de previsibilidade associada ao FC Porto é algo com a qual concordo. Ainda assim, e ao contrário do que pensa Lopetegui, nem sempre essa caraterística traz aspetos positivos para a equipa. No ano passado, não raras vezes fui criticando o espanhol por ter demorado tanto tempo a encontrar uma equipa base. Contas feitas, foi precisa a eliminação na Taça de Portugal, perante o Sporting, para Lopetegui finalmente perceber em que clube estava .

No final da temporada, sem qualquer título ganho, Lopetegui viu fugirem-lhe nada mais nada menos que seis titulares da época passada (excluo aqui Ricardo Quaresma). De uma vez, o treinador portista teve que mudar tudo, sem que isso descaraterizasse a ideia de jogo portista. A verdade é que, depois do jogo com o V. Guimarães, a ideia que ficou é a de que, por essa altura, as coisas já estavam num patamar acima daquilo que seria expectável. A equipa jogava bem, com intensidade e pressão sobre o adversário e até as ausências de jogadores como Danilo, Oliver ou Jackson Martinez já pareciam esquecidas. Tal como previa na altura, essa era apenas uma imagem provisória do que seria este FC Porto. Infelizmente, esse jogo foi apenas uma gota num oceano que agora se repete no Dragão. Inexplicavelmente, e após uma época onde por culpa própria o título fugiu, tudo parece na mesma. Mesmo dando de barato que é necessário construir uma equipa nova, a verdade é que as mudanças de Lopetegui são algo que a mim ainda me custa a engolir.

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E digo isto agora, tal como dizia por esta altura na época passada. Quando somos deparados com uma realidade nova, no futebol como na vida, aquilo que devemos procurar é estabilidade. Nos processos e nas rotinas de jogo, uma equipa será tão mais forte quanto mais depressa encontrar o onze base para atacar a época. A verdade é que, em sete jogos oficiais, Lopetegui ainda não conseguiu repetir sequer uma equipa de um jogo para o outro. Se no quarteto defensivo, até pela falta de opções suplentes relevantes, as coisas estão mais ou menos definidas, a verdade é que é no meio campo que ainda continuam as muitas dúvidas do treinador espanhol. Danilo Pereira, Rúben Neves, Imbula, Herrera e André André são cinco opções para três lugares, tendo em conta que Evandro e Sérgio Oliveira parecem não contar. Aqui a questão principal é que, de jogo para jogo, Lopetegui ainda não percebeu que é pelo meio campo que a equipa tem de crescer. A agressividade tática e a forma como se pode ou não dominar o adversário passa sempre pela batalha do meio campo. Ao longo dos últimos anos, foi sempre por aí que o FC Porto foi melhor . Este ano, e tal como acontecera durante os primeiros meses da época, isso ainda não aconteceu.

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Lopetegui continua a cometer erros primários
Fonte: fcporto.pt

Depois do jogo com o Benfica, dei por mim a pensar que o tridente Rúben Neves, Imbula e André André seria o escolhido daqui em diante. A verdade é que Lopetegui desmentiu-me apenas cinco dias depois, no jogo com o Moreirense. Sem que nada o justificasse, o treinador espanhol mudou duas das três peças do puzzle e com isso descaraterizou a equipa. Podem-me dizer que não fossem os inúmeros golos falhados e o FC Porto teria ganho facilmente. Isso até pode ser verdade, mas a realidade é que, por esta altura, as incertezas são mais que muitas. E, tal como defendia a época passada, creio que isso acontece mais por culpa do treinador do que propriamente pelas exigências dos adversários. Se Lopetegui o fez apenas para gerir o plantel para o jogo com o Chelsea, então mais uma vez ficou provado que um dos principais pecados do espanhol permanece: o de não perceber o futebol português. Num jogo como o de ontem – e em jogos como o de ontem na Liga Portuguesa – deve-se primeiro “fazer o resultado” e só depois “gerir a equipa”.

A verdade é que, tal como acontecera nos Barreiros, o FC Porto voltou a deitar dois pontos fora de forma inacreditável. Na época passada, os empates com Boavista, V. Guimarães e Estoril no primeiro terço de campeonato provocaram um pequeno atraso que os portistas nunca mais foram capazes de recuperar. Por isso é que, ao ver este início de temporada, fico com a sensação de que já vi este filme e que, de uma vez por todas, o FC Porto tem deixar de entrar neste “baile de máscaras” contínuo, onde nunca se sabe o que podemos esperar. Por fim, outro dos aspetos preocupantes na equipa tem que ver com a sua incapacidade em segurar um resultado. Em Moreira de Cónegos, e tal como  em Kiev, o FC Porto não foi capaz de segurar a vitória . A meu ver, a instabilidade que a equipa sente tem de estar ligada com isto. A equipa não me parece segura e a soma das individualidades parece ser bem maior do que a capacidade coletiva.

É certo que ainda estamos em setembro e o caminho ainda é muito longo, com Campeonato e Liga dos Campeões à cabeça. O problema é que, mesmo faltando ainda muitas voltas nesta maratona, a imagem que fica é de que, passado um ano, nada mudou. Nada mudou no clube, na equipa e, sobretudo, no treinador. Enquanto analista, é isso que verdadeiramente me preocupa. Os erros servem para que quem os comete, possa aprender com eles. Infelizmente, ao olhar para Julen Lopetegui, fico com a sensação de que ele ainda não aprendeu nada.