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Basileia, capital da ilusão portista, primeiro degrau para a construção do FC Porto europeu, voltou a testemunhar um jogo dos dragões, trinta e um ano depois. Tal como em 1984, tal como naquela final (perdida) diante da Juventus, o FC Porto apresentou-se em campo igual a si próprio, com personalidade e uma clara ideia de jogo. Para a primeira mão dos oitavos-de-final da Champions, o onze escalado por Lopetegui diferiu apenas num nome em relação àquele que venceu (e convenceu) o Vitória de Guimarães, por 1-0: Tello rendeu Quaresma, procurando previsivelmente o maior espaço que existiria nas costas da defensiva helvética. Puro engano, contudo!

E podemos começar já por aqui. Quando as expectativas eram as de que o Basileia tomasse conta da bola e do jogo, assistiu-se a um dragão impositivo, que quis ter, mais do que o controlo, o domínio do jogo desde o apito inicial e, por e para isso, tentou pressionar a todo o terreno. Do outro lado, a equipa de Paulo Sousa também tentou fazer uma pressão médio-alta mas o FC Porto, ainda que com dificuldades, soube sempre lidar melhor com esta contingência do que o seu adversário. De todo em todo, a equipa suíça tem princípios defensivos sólidos e sempre que esta pressão não resultava, recuava, organizava-se e “apertava” com critério o portador da bola – Brahimi foi o que mais sofreu com esta estratégia, algo ainda mais agudizado pela excessivo apego à bola por parte do argelino.

O golo do Basileia surgiu à passagem do décimo minuto do jogo, num lance em que o passe de Frei é primoroso, a recepção e finalização de Derlis Gonzalez são de categoria, mas em que a defensiva portista poderia ter feito mais, sobretudo Alex Sandro que deveria ter oferecido outra cobertura ao eixo defensivo. Ainda na madrugada do jogo, o golo apareceu como elemento-surpresa, principalmente porque era o FC Porto quem tinha maior iniciativa atacante.

Perante o sismo no plano de jogo portista, os dragões demoraram 10/15 minutos a reassumir a partida. Procuraram criar e gerir a bola com segurança, sem arriscar em demasia – afinal, o segundo golo poderia ser mortífero. Com uma pressão cada vez mais eficaz e constante, os dragões recuperaram muitas vezes a bola em terreno subido mas um toque a mais, um passe mal medido ou, sobretudo, a inépcia na hora do remate não permitiram ao FC Porto materializar o ascendente que teve em toda a primeira parte. Por outro lado, ficou um penalty por assinalar, por falta (ostensiva) de Samuel sobre Jackson (30’). Antes disso, Danilo e Casemiro estiveram muito perto do empate – e seria esse o resultado mais justo, a coroar uma primeira parte em que os dragões reagiram à adversidade e foram tão empreendedores quanto calculistas.

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Óliver rubricou uma exibição estrondosa na noite de Basileia
Fonte: Página de Facebook do FC Porto

A 2ª parte arrancou na mesma toada e com mais uma decisão pouco compreensível por parte Mark Clattenburg: o golo de Casemiro, depois de muito festejado, foi anulado por – suponho eu – fora-de-jogo de Jackson Martínez, que terá perturbado o keeper contrário, Tomas Vaclik (exibição segura com um par de belas defesas).Como até aqui, os dragões foram impondo uma pressão constante sobre o seu adversário, impedindo a equipa de Paulo Sousa de explorar a transição ofensiva – Fabiano não fez uma única defesa em todo o jogo.

Com Óliver a encher o campo, com Herrera mais inteligente do que o habitual e com o intervalo a servir de bom conselheiro a Casemiro (a primeira parte foi simplesmente horrível!), o meio-campo do Dragão engoliu os suíços e o placard só não mexeu mais cedo porque tanto Tello como Jackson não souberam ser mais eficazes. A saída de Brahimi para a entrada de Quaresma foi natural mas a lesão de Óliver (68’) foi o pior que aconteceu a este FC Porto na noite helvética – ainda assim, a saída do espanhol (para a entrada de Rúben Neves) não abalou sobremaneira a capacidade ofensiva do FC Porto, ressentindo-se, porém, a equipa no momento em que se propunha pressionar o adversário a toda a largura do campo. Quando os portistas já suspiravam por Quintero em campo, o golo haveria de surgir em mais uma incursão de Danilo pela direita que culminou num cruzamento cortado pela mão de Samuel (e que merecia o segundo cartão amarelo), com a respectiva grande penalidade a ser assinalada. O #2 portista não acusou o peso do momento e colocou (alguma) justiça no marcador, igualando a partida a 10 minutos do fim da mesma.

Lopetegui ainda voltou a mexer, colocando, finalmente, Quintero (por troca com Tello), derivando Herrera para extremo esquerdo, previsivelmente para travar as investidas do lateral Safari e também para dar a possibilidade do colombiano aparecer pelo meio e gerir os tempos de jogo do conjunto azul e branco. Creio, no entanto, que a melhor solução teria sido retirar Herrera, até porque o mexicano estava desgastado, algo ainda mais notório nos momentos finais em que o FC Porto pareceu abdicar da busca pelo segundo golo, resguardando-se e assegurando um resultado que, no fundo, é pior do que a exibição. Mas que não deixa de ser um empate que abre boas perspectivas para o jogo da segunda mão, num terreno de uma equipa que, nos últimos 22 jogos europeus em sua casa, apenas perdeu por uma vez, diante do Real Madrid. Mas que hoje até só rematou uma vez à baliza.

 

A Figura
Óliver – Palavras para quê? Tem pouco mais de 1.70 de tamanho mas a alma de um dragão e a qualidade de um gigante. Encheu o campo em St. Jakob Park – jogou e fez jogar, com passes a curta, média e longa distância, demostrando uma capacidade de decisão fora do comum, no timing certo para o local exacto. Além disso, entende como poucos os terrenos que deve pisar a cada momento em que a equipa não tem a bola, pressionando e recuperando bolas sem fim. O menino do ‘Atleti’ é o motor do Dragão.

O Fora-de-Jogo
Fabiano – Só porque tem de ser. O espectador mais afortunado do jogo: viu-o de perto sem ter de pagar bilhete.

Foto de capa: Página de Facebook do FC Porto

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