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O RESCALDO

Belém. Estádio do Restelo. Quente e ilusória tarde de Maio. Mais uma vez, o Bola na Rede presente num momento decisivo: para o Belenenses e para o FC Porto. Imperiosa a vitória para ambos – para os primeiros, para continuar a sonhar com a Europa; para os segundos, para continuarem a alimentar o sonho do resgate do título.

Depois da habitual homenagem do FC Porto a Pepe (antigo prodígio belenense que morreu com apenas 23 anos), os momentos iniciais da partida mostraram um FC Porto a tomar conta do jogo. Sem Casemiro e com Ruben Neves no onze, os portistas assumiram a posse e foram tentando empurrar os azuis do Restelo para trás – em muitos momentos, concentraram-se 21 jogadores no meio campo belenense. A equipa de Jorge Simão, a pender para um 4-2-3-1 sem bola – com Pele e Ricardo Dias lado a lado no meio-campo, com Carlos Martins mais à frente e com os extremos Fábio Nunes e Sturgeon a fecharem os corredores –, procuraram tapar todos os espaços e o certo é que foram conseguindo bloquear um FC Porto que, apesar de ter muita bola, não raras vezes foi pouco objectivo, ainda mais lento e com carências ao nível da profundidade do seu jogo. Nada de novo, portanto.

Por outro lado, o Belenenses procurou não limitar-se ao processo ofensivo. Assim, nos primeiros vintes minutos, e aproveitando alguns momentos de apatia e desleixo no processo defensivo dos portistas, soube carrilar o jogo pelo seu lado esquerdo (principalmente), criando frísson junto da baliza de Helton em vários momentos – Camara e Sturgeon foram os protagonistas, sendo que o segundo dispôs mesmo de uma oportunidade de ouro, já depois de ter ultrapassado o keeper dos dragões.

Talvez um pouco assustado, o Dragão tentou reagir. Importante a acção de Óliver nesta fase da partida, metendo-se mais em jogo e, com isso, dando oportunidade para Brahimi e Alex Sandro serem, também eles, mais participativos. O médio espanhol inventou um golo que Herrera, na cara de Ventura, desperdiçou, e foi também dos pés do médio espanhol que saiu o lance que, passando pelos protagonistas anteriores, terminou com a finalização bem-sucedida de Jackson (44’). O FC Porto lograva, assim, o golo que, melhor ou pior, com maior ou menor velocidade, procurou desde o início – mesmo nos momentos em que abdica de uma transição ofensiva rápida potencialmente perigosa em favor de um ataque construído e pensado de forma aparentemente tão científica que chega a ser contraproducente.

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Posicionamento defensivo do Belenenses

A 2ª parte arrancou com o jogo nos mesmos moldes, ainda que o Belenenses tenha tentado uma pressão mais efectiva junto dos centrais portistas. Carlos Martins tentou sempre acompanhar de perto Camara nesta missão e mesmo a linha defensiva belenense chegou a posicionar-se bem perto da divisória do terreno, por forma a condicionar o máximo possível o início de construção portista. O problema? Alguns espaços criados entre a defesa e os médios, que, ainda assim, o FC Porto raramente soube aproveitar. Até ao começo da dança das substituições – com a troca de Sturgeon por Dálcio, aos 57’ –, os portistas podiam ter chegado ao segundo golo quer por Oliver quer numa bola a que Jackson não chegou por muito pouco.

Apesar de o jogo estar aparentemente controlado, os portistas nunca o fecharam em definitivo e o ritmo da partida foi baixando na mesma medida em que o Belenenses foi sentindo que o empate era possível. Possível mas não provável, ainda assim. Lopetegui retirou Brahimi e depois Quaresma, lançando Evandro e Hernâni, respectivamente, e derivando Oliver para o flanco esquerdo; por sua vez, Jorge Simão fez entrar dois Tiago: primeiro Caieiro e depois Silva (retirando Ricardo Dias e Carlos Martins), ensaiando uma espécie de 4-4-2, com Camara junto de Tiago Caeiro. O certo é que o jogo, mantendo-se entretido, não revelava grandes oportunidades de golo – a primeira excepção foi um lance criado e inventado por Alex Sandro, que acabou por sair junto ao poste de Ventura; a segunda foi o golo do empate belenense. Uma boa jogada de Dalcio, que, depois de ultrapassar Alex Sandro, procurou o espaço central da grande área, onde surgiu a tal dupla avançada: Camara não chegou à bola mas Tiago Caeiro foi oportuno e, perante Helton, fez o 1-1. A réstia de esperança portista parecia desfazer-se ao minuto 85.

Os últimos momentos da partida foram vividos entre a decisão, por parte de Lopetegui, de retirar Oliver (!) para lançar Adrián Lopez e o falhanço de cabeça por parte de Jackson Martínez, que mais não significou do que o canto do cisne numa partida que o FC Porto tinha obrigatoriamente de vencer mas em que, acabando por repetir erros já vistos e nesta Liga, nunca foi capaz de ser suficiente impositivo e afoito para o materializar. E daí que o seu sonho se tenha esfumado, entregando o título na bandeja que o seu rival não estava a conseguir atingir em Guimarães.

Para o Belenenses, a chegada à Liga Europa continua a ser uma possibilidade. Mesmo não dependendo de si próprio, os azuis do Restelo vão entrar em Barcelos (e tão longa é já a história entre estes dois emblemas…), na próxima jornada, com a mente num objectivo pouco realista no início da época mas que é hoje encarado como um passo decisivo para a consumação de um Belenenses “de nível europeu”, tal como afirmou Jorge Simão no pós-jogo. E isso é algo assinalável – estamos, afinal, a falar da equipa que, no binómio investimento-rendimento, é, possivelmente, o melhor dos exemplos a seguir.

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O Bola na Rede esteve presente no Restelo

OS DESTAQUES

Filipe Ferreira/Fábio Nunes – A asa esquerda do Belenenses funcionou sempre muitíssimo bem. Pese embora Quaresma tenha conseguido ganhar alguns confrontos com Filipe Ferreira durante o primeiro tempo, o lateral lisboeta apresentou-se sempre em bom plano no momento defensivo do jogo e foi uma ajuda preciosa para o companheiro Fábio Nunes, extremo que deu várias dores de cabeça a Danilo. Foi, de resto, pelo lado esquerdo do ataque o Belenenses chegou a maior parte das vezes à área do FC Porto.

Ricardo Dias/Pelé – Ricardo Dias, o elemento mais recuado do meio-campo belenense, juntou ao acerto posicional uma atitude positivamente agressiva durante o jogo e conseguiu com isso ganhar muitos duelos no miolo. Ora sozinho, ora (normalmente) em parelha com Pelé, o aveirense que até passou pela formação do FC Porto foi sempre seguro e compenetrado. Apesar de tudo, o grande destaque vai para Pelé. Ter nome de craque não chega, de todo, para ser craque. Mas, aos 23 anos, o luso-guineense tem tudo o que é preciso para vingar ao mais alto nível: técnica apurada, , inteligência táctica, força física, inteligência táctica e capacidade de liderança dentro de campo. Hoje voltou a dar mostras disso mesmo.

Fábio Sturgeon/Dálcio – Sturgeon foi sempre dos mais inconformados da equipa da casa e fez a vida negra a Alex Sandro durante o primeiro tempo. Irrequieto, rápido e bom de bola, como sempre. Para o seu lugar entrou, no início da seguda parte, Dálcio. O técnico do Belenenses, Jorge Simão, justificou a substituição com a acumulação de fadiga de Fábio Sturgeon. A verdade é que Dálcio, jovem de 18 anos que muito tem dado que falar, aproveitou a oportunidade e tirou o cruzamento açucarado (mais do que um pastel de Belém!) que deu o golo ao recém-entrado Tiago Caeiro.

 

Jackson/Óliver – Do lado azul e branco (hoje, cor de rosa e preto), ó nos é possível salientar pela positiva o desempenho de dois jogadores: Jackson e Óliver. Foram os dois melhores jogadores ao longo de toda a temporada e foram os dois melhores jogadores na partida de hoje. São e serão sempre talento, magia, simplicidade, entrega e eficácia. Se o colombiano marcou o golo e tentou sempre oferecer soluções ofensivas aos colegas, o espanhol voltou a pegar na batuta para orquestrar o ataque portista, mesmo quando Lopetegui o “empurrou” para a faixa esquerda.

Filipe Coelho e Francisco Reis

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