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Um dos conceitos mais abordados na análise de um jogo de futebol tem que ver com a justiça do resultado. Quer o nosso clube ganhe, empate ou perca, há sempre a tendência para, no meio das linhas do nosso texto, darmos sempre a nossa consideração sobre a justiça do resultado. Ainda assim, creio que futebol e justiça são dois conceitos que se ligam para além do mero resultado de cada jogo. Em muitos casos, ligam-se quando se referem a jogadores.

São dois os casos que trago a este artigo e que vão ao encontro desse ideal de justiça. De seus nomes Herrera e Silvestre Varela. Dois jogadores cuja passagem pelo FC Porto é tudo menos um passeio no parque. Dois jogadores tão diferentes mas que se cruzam, por estes dias, por serem aparentemente os excluídos mais mediáticos do plantel de Julen Lopetegui.

Herrera e Varela cruzaram-se logo na temporada 2013/2014, aquela em que Paulo Fonseca foi considerado o culpado de quase todos os males da equipa. Nessa altura, já andavam eles, mexicano e português, como figuras de proa de uma equipa que andava sem rumo e que desiludia semana após semana. É injusto, claro, dizer que, já naquela época, Herrera e Varela eram culpados pelo que o FC Porto não fazia dentro de campo.

O médio fez no total 31 jogos na temporada, enquanto o extremo chegou mesmo aos 48. Até pela escassez de opções na altura, os dois eram quase presença assegurada semana após semana no onze. Varela já estava no clube há quatro temporadas, enquanto Herrera era estreante no clube. Por isso, o nível de exigência era diferente em cada um dos casos. No caso de Varela, pedir mais a um jogador cujos recursos são limitados é difícil. Em relação a Herrera, o rótulo de “novo João Moutinho” foi sempre um fardo demasiado pesado para ele.

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Então, o que mudou, num espaço de duas épocas? Bom, tendo em conta aquilo que são as opções atuais de Lopetegui, é caso para dizer que pouco ou nada mudou. No caso de Silvestre Varela, não deixa de ser curioso este vaivém que o extremo tem vivido. Depois de na época passada alegadamente não ter querido manter-se no plantel, Varela decidiu regressar, renovar com o clube e dar a si próprio uma segunda oportunidade num clube onde tinha sido feliz. No caso de Herrera, é impossível não disfarçar o mal estar inerente à sua irregularidade.

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Varela deixou de ser opção
Fonte: sporttuga.com

Aliás, para mim, o mexicano é um verdadeiro case study no futebol moderno. Dono de um pulmão inesgotável, continuo sem compreender o porquê de Herrera ainda não ter conseguido firmar-se no FC Porto. É certo que, durante as últimas duas épocas, Herrera foi mostrando, de quando em vez, as credenciais que trazia do México. O mais preocupante é que, para o comum dos adeptos portistas, ainda não tenha sido possível ver, em Portugal, o Herrera que todos vimos no Mundial 2014 no Brasil. Nessa competição, arrisco-me a dizer que Herrera esteve entre os 10 melhores médios da prova. Depois de um Campeonato do Mundo de mão cheia, a ideia que vinha à mente de todos os portistas era a de que ele seria um dos próximos a rumar a outras paragens e a deixar mais uns milhões nos cofres do Dragão.

A verdade é que as semanas passam, os jogos passam e esse Herrera continua sem aparecer. No meio de tantos adversários, mais ou menos exigentes, o mexicano continua sem fazer dois jogos seguidos de qualidade. A irregularidade que apresenta é quase confrangedora, e a incapacidade em ser fiável é algo incompreensível para um jogador da sua qualidade. Também por isso é que, à terceira época, já são poucos os que no Dragão têm paciência para as dezenas de passes errados que faz durante o jogo. Instabilidade vivida nas bancadas e que passa invariavelmente para os ouvidos de Lopetegui. Coincidência ou não, a verdade é que Herrera já foi substituído várias vezes durante este início de época. Da saída da equipa até à saída total das convocatórias foi apenas um passo, e parece que Herrera  agora já nem sequer conta.

Varela é outro dos casos paradigmáticos do plantel portista. E digo isto sobretudo pelo facto de nunca ter sido um bem amado nas hostes azuis e brancas. Não me recordo, aliás, de, com Varela com a camisola azul e branca, ter visto o português ser aplaudido de forma efusiva mais do que uma dúzia de vezes no Dragão. A verdade é que, com o regresso do extremo esta época ao FC Porto, esperar-se-ia que o rumo de Varela fosse outro. Bem sei que, com Corona, Brahimi e Tello metidos ao barulho, Varela nunca teria vida facilitada para ter lugar no onze. Ainda assim, e tendo em conta aquilo que outros jogadores na sua posição têm feito, não me parece justo e sequer honesto aquilo que Lopetegui está a fazer com o extremo português.

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Herrera continua a ser mal amado no FC Porto
Fonte: desporto.sapo.pt

Esta “injustiça” pode ser aliás estendida a Herrera. Não sou e nunca fui defensor das célebres “queimadelas” de treinadores a jogadores durante uma época. Infelizmente, durante o reinado de Lopetegui no FC Porto, isso tem sido frequente. O ano passado com Quaresma e Fabiano à cabeça como protagonistas maiores destes casos internos no plantel. No caso de Quaresma, o caso teve mais que ver com incompatibilidade entre os dois protagonistas da história. No caso do guarda redes, teve que ver com a goleada de Munique, que, segundo o espanhol, teve em Fabiano Freitas praticamente o único responsável.

Época passada e parece, tal como escrevi a semana passada, que pouco mudou no FC Porto. O caminho mais fácil seria, depois da vitória e da exibição na última terça feira frente ao Chelsea, para a Liga dos Campeões, vir para estas linhas no Bola na Rede dar graças por ter no plantel portista jogadores como Rúben Neves ou André André. Como sei que esse é o caminho mais fácil, opto por, entre a euforia generalizada, apontar o dedo a algo que não considero ser correto no reino do Dragão. Falo, pois claro, dos afastamentos de Herrera e Varela, que, de um momento para outro, passaram de protagonistas a atores secundários desta história.

É certo e indesmentível que nem mexicano nem português estariam a fazer os melhores jogos da sua carreira. Mas também é certo e indesmentível que não é com atitudes ou comportamentos destes que se ganham jogadores ou que se agarram balneários. É verdade que, no âmbito das suas funções como treinador, Lopetegui tem todo o crédito para fazer as escolhas que quiser, tendo em conta as ideias que defende. Aquilo com o qual não concordo é que Lopetegui continue a mudar de jogadores como quem muda de camisa e, sobretudo, que continue a apontar o dedo a jogadores, fazendo-os desaparecer do mapa sem razão aparente.

Com uma época tão longa, é imprescindível que o treinador entenda os jogadores e perceba que não é por uma má fase que se tem de perder um atleta. No caso de Herrera e Varela, isso é ainda mais claro. Com todos os defeitos que quer um quer outro têm, é indiscutível, pelo menos para mim, que são dois jogadores que fazem falta ao FC Porto, pela experiência e qualidade que têm. É que, no meio das funções de um treinador, este não pode simplesmente endereçar a poucos aquilo que é culpa de todos. É a velha história da justiça e do futebol. E não, neste caso, isso não tem mesmo nada a ver com os resultados que uma equipa tem no final de uma temporada.