Com vista para o Marquês

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dosaliadosaodragao

Mais do que um elementar princípio de fair-play, dar os parabéns ao Benfica e aos seus adeptos pela conquista do Campeonato é um exercício de justiça e de verdade. Porque, mesmo descontando a enorme incapacidade que o seu principal rival – FC Porto – demonstrou, o mérito dos encarnados foi sendo provado e comprovado jornada após jornada, desafio trás desafio, com uma equipa a carburar e com talentos a evidenciarem-se. Não poderia, talvez, ser de outra maneira, dado estarmos diante do melhor plantel dos últimos 30 anos.

De todo em todo, olhar o Campeonato que o Benfica fez e a forma como o conquistou pode ser um exercício traiçoeiro. Ora, de facto, a perspectiva do copo meio cheio ou do copo meio vazio está aqui bem evidente: o Benfica vitorioso deste ano não fez (nem, provavelmente, irá fazer) melhor do que o Benfica amargurado e deprimido da época passada. O mesmo Benfica que é hoje elogiado aos quatro ventos, com um treinador superlativo e com uma presidência firme e assertiva, irá, no máximo, amealhar 79 pontos (se vencer Vitória de Setúbal e, finalmente, no Dragão), apenas mais 2 do que o Benfica destruído por Kelvin, mais 10 do que o Benfica versão 2011/2012 e menos 5 do que o FC Porto campeão de Villas-Boas. Mais, 84, 75 e 78 foram, respectivamente, os pontos contabilizados pelo FC Porto no final das últimas três edições do campeonato – ou seja, numa época ‘normal’, o FC Porto estaria, a esta hora, a lutar taco-a-taco pelo ceptro com a equipa que é, hoje, vista como “a última Coca-Cola do deserto”.

Muito longe de querer retirar o mérito à conquista do conjunto de Jorge Jesus, a verdadeira novidade desta época foi a falta de comparência do FC Porto. Foram os equívocos na construção do plantel, foi o tremendo erro de casting em que se tornou Paulo Fonseca, foi, enfim, a banalidade na qualidade de jogo do Dragão que tornou o campeonato, a partir de um dado momento, num calmo e tranquilo passeio para o Benfica. Mas uma viagem que fora absolutamente bem estruturada e planeada, com a rota e a velocidade certas e com as paragens imprescindíveis – tal e qual como o actual modo de jogar do Benfica de Jorge Jesus.

Em 2013/2014, os papéis inverteram-se e é Salvio e o Benfica que festejam  Fonte: Sapo
Em 2013/2014, os papéis inverteram-se e é Salvio e o Benfica que festejam
Fonte: Sapo

Ainda e sempre Jorge Jesus. O mesmo que viu os seus fiéis seguidores em 2010 tornarem-se, depois, em impositivos detractores e agora, de novo, em indefectíveis fãs. Tudo ao sabor da corrente dos resultados com o patrocínio das capas dos maiores jornais e nas colunas de opinião vaidosamente assinadas por tantos. Na espuma das ondas, porém, algo indesmentível – foi graças a Jesus (e a um brutal investimento financeiro) que o ciclo do futebol português mudou. Aquilo que era uma hegemonia do FC Porto tornou-se, de há cinco anos a esta parte e com a excepção da época de André Villas-Boas, numa luta intensa (quase sempre) a dois entre Dragões e Águias. Para mal de alguns, creio que foi apenas esse ciclo que terminou. Todo e qualquer outro que se pretenda propagandear dependerá sempre de uma sequência: de campeonatos, de Taças, de Supertaças…

Da última noite de Domingo sobra um imenso fundo vermelho. De conquista, de explosão, de felicidade, de comunhão entre uma equipa e os seus adeptos – tal e qual como o futebol deve ser, sempre. Observar o Marquês de Pombal e contabilizar as dezenas de milhares de benfiquistas que, efusivos, comemoravam a conquista do campeonato (e, tenho para mim, a desejosa vingança do remate de Kelvin) não foi um suplício, um desgosto ou, como se diz tão comummente, um acumular de ‘azia’. Para o FC Porto, olhar para aquela imponente noite vermelha só pode ser um acto de contrição. Mas, muito mais do que isso, deve ser o maior e renovado desafio, a suprema motivação, o cerrar de fileiras, o apelo ao coração, à competência, à garra e à paixão. A cada very light encarnado deve recordar-se esta Liga e os inauditos 15 pontos de distância, a derrota na Luz para a Taça e corar de vergonha, sentir o impulso e relembrar que há uma nova guerra dos tronos à espreita …

A imensa festa benfiquista no Marquês de Pombal, em Lisboa  Fonte: A Bola
A imensa festa benfiquista no Marquês de Pombal, em Lisboa
Fonte: A Bola

Com uma nova mentalidade – a mesma que fez o FC Porto vencer tudo depois das duas últimas vezes em que terminou um campeonato em 3º –, com um novo treinador carismático, competente e cheio de fibra, com um plantel construído de forma estruturada e que saiba voltar a honrar as cores azuis e brancas, em suma, colocando no lugar do descomprometimento a exigência que a tanto e tanto sucesso levou o Dragão na última década – aquela de que nem todos podem ter orgulho –, o FC Porto, logo logo, estará na luta.

Ainda manda quem pode e por isso (e para isso) vão, se preciso for, ao baú e redescubram Viena, Tóquio ou Sevilha – mostrem aos meninos colombianos, brasileiros, mexicanos e de todas as outras nacionalidades possíveis e imaginárias que aterrarão no Sá Carneiro e seguirão para o Dragão que jogar no Porto terá sempre de ser um privilégio. Exibam-lhes o BI deste clube e dêem-lhes a beber o ‘Ser Porto’ – falo de “luz, realidade e sonho que na luta amadurece”. Se, ainda assim, não chegar, forrem o balneário do Dragão com posters e imagens da cor que o Marquês testemunhou. Então, terá mesmo de ser suficiente.

 

Filipe Coelho
Filipe Coelho
Ao ritmo do Penta e enquanto via Jardel subir entre os centrais, o Filipe desenvolvia o gosto pela escrita. Apaixonou-se pelo Porto e ainda mais pelo jogo. Quando os três se juntam é artigo pela certa.                                                                                                                                                 O Filipe não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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