Confiança míope

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dosaliadosaodragao

O FC Porto chega ao final da 1ª volta e à viragem do campeonato no 3º lugar com 3 e 1 pontos de desvantagem face a Benfica e Sporting, respectivamente. Porém, para Paulo Fonseca nenhum destes factos abala a sua imensa confiança na revalidação do título. Estou certo de que em qualquer actividade a que nos dediquemos devemos ser dedicados, empenhados e confiantes. Mas devemos ser também racionais.

E, olhando para este FC Porto, racionalidade é palavra que não consigo empregar. A confiança do treinador do tri-campeão nacional choca estrondosamente com a desconfiança (precisamente) que as gentes portistas sentem em relação ao mesmo. E basta recuar ao último Benfica-Porto para o perceber: quando nada o fazia prever e depois de exibições bem conseguidas por parte de Maicon, Fonseca fez Otamendi regressar ao onze portista. Longe de mim encarar o jogo como uma soma de individualidades mas é indesmentível que o argentino voltou a estar mal e a ser muito mais um problema do que (um)a solução (vide a origem do primeiro golo do Benfica). Aliás, Otamendi é o paradigma deste actual FC Porto: uma equipa outrora segura de si, focada, autoritária, concentrada, ‘mandona’; hoje vemos um Dragão sem chama, apático, desconcentrado e com processos confusos (ou mesmo indecifráveis). Ora, o Clássico foi a prova evidente disto mesmo – o Benfica, muito longe de fazer um grande jogo, conseguiu ser superior a um FC Porto amorfo, sem ideias, sem rasgo e que deu a sensação de ter desistido ainda antes de ter lutado. E que irónico que chega a ser: um FC Porto a léguas de distância daquele que Vítor Pereira havia montado (com os defeitos que também tinha) e que soube silenciar a Luz em outras ocasiões.

“Tenho uma confiança cega de que vamos ser campeões”, Paulo Fonseca / Fonte: Impala
“Tenho uma confiança cega de que vamos ser campeões”, Paulo Fonseca / Fonte: Impala

A par deste diagnóstico simplista do último Benfica-FC Porto, Paulo Fonseca acumula handicaps: da teimosa implementação do seu modelo de jogo, caracterizado por um pensamento redutor e receoso (mas que nem sequer tem resultados práticos, já que o conjunto azul e branco defende mal) que não serve a uma equipa como o FC Porto, que deixa a equipa estendida e desprotegida, com os sectores afastados entre si e com jogadores a funcionar como verdadeiras ilhas (Jackson, Lucho e, mais recentemente, Carlos Eduardo são as vitimas neste ponto), à impunidade que cultivou aquando da premiação de inúmeros erros individuais com a permanência no onze (Otamendi agora e antes, Mangala, Josué, etc) até – e sobretudo – à falta de empatia que gerou nos associados com um discurso descolado da realidade (esta semana atingiu-se o expoente máximo no que toca a esse ponto) e que faz os portistas olhar para Fonseca sem se identificarem com aquele que, em última instância, deveria ser o símbolo-mor da equipa.

Todavia, e apesar de todas estas circunstâncias que conduziram o FC Porto até este lugar menos habitual, não encaro a saída de Fonseca como a solução ideal. Ou mesmo desejável. Desde logo, por um mero facto estatístico: nunca o FC Porto se sagrou campeão numa época em que, no seu decurso, tenha trocado de treinador. Por outro lado, porque acredito genuinamente que Paulo Fonseca tem valor – aliás, só assim se explica o verdadeiro milagre que operou em Paços de Ferreira.

Agora, óbvio é que a minha confiança, ao contrário da do treinador do FC Porto, está muito longe de ser inequívoca. Acredito que, como nos filmes, tudo acabará bem… Mas mais porque, olhando para esta equipa, só a vejo com capacidade de crescer. Possibilitando (eventualmente) a saída de alguns descontentes durante este mês de Janeiro, resolvendo os equívocos tácticos (para além da óbvia discussão do modelo de meio-campo, o que importa verdadeiramente é que este seja mais dinâmico e intenso, em 1-2 ou 2-1 ou 0-3!) e entregando o lugar a quem verdadeiramente o merece (Maicon tem de ser titular, Quaresma será importante, Quintero, Kelvin e Ghilas terão de ser considerados e aproveitados de melhor forma), o FC Porto assumir-se-á – até porque a História recente assim o exige – como o mais forte candidato. Talvez daqui a uns meses, quando a equipa já tiver encarrilado (assim o desejo!), a minha confiança esteja no mesmo estádio que a que o treinador do FC Porto fez questão de manifestar e qualificar: cega. Mas, por ora, é míope.

Jackson Martinez. Um espelho do que foi o FC Porto no Clássico da Luz / Fonte: MaisFutebol
Jackson Martinez. Um espelho do que foi o FC Porto no Clássico da Luz / Fonte: MaisFutebol

Mais Miopia
Ainda sobre o Clássico, e mesmo não sendo partidário da crítica (constante e desproporcional) que é feita ao sector da arbitragem tão-só de forma a camuflar insucessos desportivos, não poderia deixar de dar uma nota sobre esse tema.

Na realidade, se a arbitragem é uma arte, Artur Soares Dias revelou-se um artista. Não vi nenhum portista a justificar a má exibição e o resultado da Luz com a prestação do árbitro; porém, é indesmentível que o FC Porto acabou por ser prejudicado no Clássico do último Domingo. Enumerando: para além do incontestável penalty cometido por Mangala (e não assinalado), Soares Dias e a sua equipa erraram ao não assinalar uma falta clara de Garay sobre Quaresma dentro da área (penalty, obviamente), erraram igualmente ao interromper o jogo quando Jackson seguia isolado para a baliza encarnada com claras hipóteses de fazer golo (num lance em que Danilo viu o seu primeiro cartão amarelo) e voltaram a errar no momento em que expulsaram o lateral direito do FC Porto quando este foi tocado por Garay dentro da área – certo que não seria grande penalidade mas jamais poderia ser considerado simulação (e se fosse essa a interpretação, Siqueira, na jogada seguinte, acabaria por mergulhar sem merecer qualquer advertência!). Talvez aqui a miopia se tenha mesclado com pitadas de astigmatismo … De qualquer forma, bem se sabe que, posteriormente, quando Pinto da Costa espirra, o país (futebolísticos) constipa-se.

Filipe Coelho
Filipe Coelho
Ao ritmo do Penta e enquanto via Jardel subir entre os centrais, o Filipe desenvolvia o gosto pela escrita. Apaixonou-se pelo Porto e ainda mais pelo jogo. Quando os três se juntam é artigo pela certa.                                                                                                                                                 O Filipe não escreve ao abrigo do novo Acordo Ortográfico.

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